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A Dialética Simbólica Olavo
de Carvalho
“(Juro)
pelo róseo crepúsculo da manhã;
Vistos da Terra, o Sol e a Lua têm o mesmo diâmetro aparente:
meio grau de arco. Em contrapartida, todas as suas demais qualidades sensíveis
— cor, temperatura, etc. — são simetricamente opostas. Isto faz deles
o emblema por excelência de todas as oposições máximas e irredutíveis,
modeladas pelo esquema de dois pontos divergentes e eqüidistantes de um
terceiro ponto central: por ocasião da Lua cheia, a Lua que se põe e o
Sol que se levanta, ou a Lua que se levanta enquanto o Sol se põe, formam
a imagem perfeita de equilíbrio dos contrários, com a Terra no meio como
fiel da balança.
É uma imagem que nos ocorre naturalmente, quando queremos evocar a
idéia de equilíbrio, a propósito, digamos, do ativo e do passivo, do
masculino e do feminino, do claro e do escuro, de tudo quanto, enfim, a
cultura chinesa resumiu sob os conceitos de yang e do yin.
Sendo uma imagem fácil de gravar, e dotada de grande poder
evocativo e mnemônico (proveniente, aliás, da homologia estrutural entre
a psique humana e a esfera celeste, como veremos), era natural que, em
nosso tempo, os meios de comunicação se apossassem dela, utilizando-a
como instrumento para fixar na imaginação do consumidor a mensagem das
novas dietas, programas de ginástica e outros gadgets ideológicos
que entraram no mercado através da naturismo hippie e das
doutrinas pseudo-orientais. O abuso do emblema luni-solar veio junto com a
vulgarização do yin e do yang.
Apesar da vulgarização, a imagem e o conceito que evoca são
perfeitamente adequados à realidade que pretendem expressar; a lei da mútua
compensação dos contrários não é uma pura fantasia, mas algo que
efetivamente vigora em muitos planos e setores da experiência, e que aliás
pode ser observado e deduzido da natureza, por exemplo no caso dos vasos
comunicantes ou do equilíbrio ácido-básico. Dentro dos seus limites, é
um princípio explicativo perfeitamente válido, que funciona para um
certo número de casos.
Tão logo passamos, porém, do conceito abstrato de equilíbrio
para a tentativa de equilibrar alguma coisa concreta — por exemplo,
quando aprendemos a andar de bicicleta —, verificamos que a nossa imagem
de perfeita simetria se esboroa ao solavanco de sucessivas desilusões: de
fato, não existe equilíbrio perfeitamente estático em parte alguma do
mundo sensível. Uma vez atingido o momento de equilíbrio, o ponto
central desliza, o conjunto escapa da simetria fugaz e cai; e voltamos a
enfrentar a oscilação dos contrários. Notamos assim que, na experiência
vivida, o ponto de equilíbrio não é propriamente um ponto, mas uma
linha; e não é mesmo uma linha reta, mas uma linha sinuosa, que,
gingando aos lados de um eixo meramente ideal, vai compensando as tensões
de cá e de lá compondo com o jogo de desequilíbrio das partes o padrão
do equilíbrio instável do todo.
Na homeopatia, por exemplo, raciocina-se freqüentemente assim. Um
sintoma aparentemente alarmante — febre, sangramentos, supurações —
manifesta certamente um desequilíbrio, mas o homeopata poderá não medicá-lo
de maneira alguma se julgar que esse desequilíbrio parcial terminará por
reconstituir o equilíbrio do organismo total. Inversamente, ele poderá
receitar um medicamento que rompa um estado de equilíbrio aparente, para
induzir desde o fundo das tendências orgânicas a formação de um novo e
mais arraigado padrão de equilíbrio.
Convenhamos que esse raciocínio é bem mais sutil e completo do
que o anterior. Ele permite ir mais fundo na compreensão do real. Por
exemplo, se nossos “naturalistas” pseudo-orientais estudassem um pouco
do método hahnemanniano, acabariam constatando — antes tarde do que
nunca — que não existem alimentos yin nem alimentos yang,
mas sim alimentos que, nem certo quadro preexistente, assumem
provisoriamente um papel yin ou yang, o qual também pode
inverter-se com a evolução do quadro; aliás a tradição chinesa é
categórica ao afirmar que a dualidade yin-yang é “o extremo
limite do cosmos”; que, portanto, um e outro só existem como tais no
plano do cosmos total[1];
e que os entes individuais não somente são compostos de distintas
dosagens desses dois princípios, mas que essa dosagem vai sendo
progressivamente mais complexa e indireta à medida que descemos do plano
universal para os planos mais particulares; de modo que para avaliar se um
ente qualquer — digamos, um nabo — é yin ou yang, seria
preciso ponderar uma quantidade praticamente indefinida de variáveis,
entre as quais obviamente, o momento e o lugar. Tais finuras jamais
escaparam aos chineses. É somente a tola grosseria da nossa “cultura de
massas” que imagina poder espremer conceitos cosmológicos em quadros e
tabelinhas dietéticas de correspondências rasas, lineares e, ademais,
puramente fictícias.
Mas, voltando atrás, qual é a diferença precisa entre os dois
raciocínios que acabamos de presenciar? No primeiro, os dois termos eram opostos
estaticamente pela eqüidistância a um centro. Mas, se passarmos da idéia
de equilíbrio estático à de equilíbrio dinâmico, isto é, se passamos
do conceito abstrato à experiência concreta e assim verificamos que o
equilíbrio não é feito somente de simetria e eqüidistância, mas também
interação, de conflito e de colaboração entre os dois pólos, então
estes já não são opostos, e sim complementares. Já não
são apenas as extremidades de um contraste, mas as matrizes de uma
harmonia, tão adequadas e complementares entre si quanto o sêmen e o óvulo,
o arco e a corda, a vibração sonora e a resistência do tímpano. Já não
nos falam somente pela sua eqüidistância fixa, por assim dizer
cristalizada no céu, mas por seu convívio amoroso, grávido de tensões
e possibilidades.
Aprofundando mais a diferença, verificamos que, ao trocarmos de
ponto de vista, introduzimos a variável tempo. Em
termos de lógica, podemos dizer que o primeiro raciocínio é um raciocínio
de identidade e diferença, enquanto o segundo é um raciocínio dialético
(no sentido hegeliano do termo). Os hegelianos sempre acusaram a lógica
de identidade de ser puramente estática, de visar antes abstrações
formais do que a coisas concretas, imersas no fio do tempo, submetida a
transformações incessantes. O raciocínio dialético pretende apreender
o movimento — por assim dizer, vital — das transformações reais
fenomênicas. A verdade, segundo este método, não está no conceito fixo
dos entes isolados, mas no processo lógico-temporal que ao mesmo tempo os
revela e os constitui. É o sentido da famosa fórmula de Hegel: Wesen
ist was geworden ist. “A essência (de um ente) é aquilo em que
(esse ente) se transformou”. Ou, em outros termos: ser, é devir.
Na astrologia, o símbolo que evoca esse segundo enfoque é o do
ciclo lunar. Este projeta na tela dos céus o espetáculo da permanência
na mudança, do ser que se revela e se constitui no devir. De fato, são
as mutações da face lunar que acabam por mostrar ao homem a unicidade da
fonte de luz: o Sol. Ora, o Sol quase nunca pode ser olhado diretamente.
Na fórmula preciosa de Chesterton, “a única coisa criada à luz da
qual olhamos todas as coisas é a única coisa para a qual não podemos
olhar”. O Sol é, assim, uma invisível luminosidade. A Lua, por seu
lado, pode ser vista com seu claro perfil recortado no céu, mas, para
compensar, este perfil não é constante. Assim, cada uma das luminárias
aparentes tem algo de esquivo, para não dizer de equívoco: um foge ao
olhar direto por seu brilho excessivo, outra foge à cristalização
conceitual, por sua forma cambiante. Ora, esta forma atravessa nitidamente
três fases, ou faces (a quarta face, a Lua nova, é invisível): na
primeira, ela parece crescer como fonte de luz progressivamente
independente. Aí atinge uma plenitude: temos a equivalência plena de
dois círculos luminosos de meio grau de arco. Se ela se detivesse nesse
ponto, diríamos: há duas fontes de luz no céu. Mas o momento da sua
plenitude já anuncia o declínio, já contém o germe da sua supressão;
e vem a minguante, e enfim a Lua desaparece: o Sol, que durante todos esse
tempo permanecera constante sob a sua capa luminosa, revelou-se — para o
intelecto observador: constituiu-se — como fonte única real de
luz, expressa e desdobrada temporalmente pelo compasso ternário da sua
superfície refletante, a Lua.
Pelo simbolismo astrológico tradicional astrológico[2], o Sol representa a
intelecção, a verdade, e a Lua a mente, o raciocínio: na dialética,
uma verdade latente se constitui no espírito humano pelo processo do
devir que a patenteia, que a veri-fica.
Se a balança do Sol e da Lua no horizonte, contemplada
estaticamente na ocasião da Lua cheia, figurava o equilíbrio estático
dos contrários, e portanto, a lógica de identidade e diferença, o ciclo
lunar integral, contemplado na sua sucessão temporal, estampa nos céus a
andadura ternária do pensamento dialético e o “sempiterno fluir” das
coisas da natureza.
O raciocínio dialético tem um parentesco próximo com o raciocínio
de causa e efeito, com a idéia de continuidade da mesma causa latente por
sob a processão dos efeitos. O ciclo lunar pode, assim, representar
indiferentemente o enfoque dialético ou o enfoque causal.
Se o raciocínio de identidade e diferença[3]
é simples, direto e baseado na constatação de correspondências
imediatamente oferecidas aos sentidos ou à inteligência, o raciocínio
dialético demanda operações bem mais complexas, e o acompanhamento de
todo um ciclo de transformações.
Houve, assim, uma passagem de plano, uma subida de nível:
ao passarmos da oposição estática à complementaridade dinâmica, do
raciocínio estático ao dialético, mudamos de posto de observação e um
novo sistema de relações se evidenciou no espetáculo das coisas.
Parecemos ter chegado mais perto da realidade efetiva, abandonando os
esquemas meramente formais e as armadilhas da nossa própria
subjetividade.
Parecemos, assim, ter chegado a uma solução para a oposição
colocada inicialmente: ao introduzirmos a variável “tempo”, a oposição
resolveu-se numa complementação.
Mas, bem examinadas as coisas, verificamos que a dialética só
resolveu um problema à custa de criar outro: ao resolver a oposição
entre o Sol e a Lua instalou em seu lugar a oposição entre o estático e
o dinâmico. Se é uma fatalidade que todas as oposições estáticas
possam se resolver pelo raciocínio dinâmico, não é menos verdade que
elas só podem se instalar, inicialmente, pela formulação estática e
abstrata dos conceitos de seus elementos. Como poderíamos
“fluidificar” dialeticamente a oposição entre o Sol e a Lua se não
soubéssemos o que é Sol nem o que é Lua, isto é, se os conceitos
destes dois astros não fossem estáticos? Doravante estamos condenados a
uma dualidade radical, que separa com um biombo de ferro o pensamento e a
realidade: nossos conceitos serão sempre estáticos, a realidade será
sempre dinâmica. A dialética desemboca no dualismo metodológico de
Bergson[4]
e Bachelard[5].
Para piorar ainda mais as coisas, a própria dialética, para
entrar em ação, tem de introduzir novos conceitos, que serão igualmente
estáticos, inclusive o próprio conceito de dialética. Estes conceitos
poderão ser em seguida dialetizados por sua vez, e assim por diante
interminavelmente. Se, na sentença de Heráclito, avô da dialética,
“nunca nos banhamos duas vezes no mesmo rio”, podemos perguntar se
esta sentença de Heráclito chega a ter duas vezes o mesmo sentido.
A dialética vê-se, desse modo, ante um trágico dilema: optar por
um discurso interminável — o qual, não possuindo limites, deixa de ter
qualquer conteúdo identificável, como bem o assinalaram os críticos
neopositivistas de Hegel[6]
— ou determinar arbitrariamente, e irracionalmente portanto, um ponto
final qualquer para o processo dialético. Hegel, como se sabe, fez de si
mesmo o ponto final da história da filosofia, e a filosofia teve o
desplante de continuar existindo depois dele.
Urge, portanto, passar acima da dialética, galgar mais um degrau,
subir a um enfoque mais vasto e abrangente. E, novamente aqui, será o
modelo celeste que vai nos socorrer, seguindo a advertência de Platão de
que, sem nos orientarmos pelos lineamentos de inteligência divina
cristalizada nos ciclos planetários, nossos pensamentos não cessam de
vagar de erro em erro.
Ocorre que os dois pólos da nossa oposição inicial só podem ser
ditos contrários — ou, em seguida, complementares —, quando vistos no
mesmo plano, isto é, quando, medidos pelo mesmo padrão, resultam em
grandezas similares. Na passagem do raciocínio estático ao dinâmico,
algo certamente se alterou — o modo de representação —, mas algo
permaneceu tal e qual: o ponto de vista do observador; em ambos os casos,
supusemos que este estava instalado na Terra; primeiro, contemplando o
momento do equilíbrio do Sol e da Lua no horizonte; depois, acompanhando
o ciclo de transformações durante um mês lunar; mas sempre desde o
mesmo lugar.
Todas as oposições (e todas as complementaridades portanto)
fundam-se em alguma característica comum, que se polariza inversamente
num elemento e no outro; isto é, as oposições são diferenças
acidentais que resultam de um fundo de identidade essencial; a
complementaridade consiste apenas em reconstituir, em seguida, esse fundo
de identidade essencial, que um momento do processo havia velado, e que o
acompanhamento do processo todo volta a desvelar, tal como o Sol e a Lua
podem velar-se um ao outro no momento do eclipse, voltando depois a
mostrar-se como são realmente. Este jogo que vai da identidade à diferença
e novamente à identidade só se desenrola perante um observador estático,
firmemente instalado no seu posto de observação.
Ora, o homem não pode normalmente abandonar seu posto de observação;
não pode transportar-se corporalmente para fora da Terra. Pode apenas
viajar mentalmente; mas, deixada a si mesma, a imaginação vaga entre os
espaços celestes e cai na fantasia informe. A astronomia (que é a
parte descritiva e substancial da qual a astrologia é a parte
interpretativa e essencial), a astronomia é o antídoto de tais errâncias.
Pela correta medição, o homem restabelece na sua representação a
figura correta dos céus. E já tem o apoio de um novo modelo intelectual
calcado, segundo Platão, na inteligência divina — para buscar um ponto
de vista que lhe permita ultrapassar a dialética vulgar, penetrando num
enfoque que poderíamos denominar a dialética simbólica.
Se, na dialética vulgar, havíamos introduzido o fator
“tempo”, aqui lançaremos mão do elemento “espaço”, completando,
portanto, o modelo em que se apoiavam nossas representações. Podemos
dizer que o ponto de vista dialético, correspondia a uma observação
meramente “agrícola” dos céus: tudo quanto captava era a idéia de
transformação e de ciclo. A dialética simbólica, agora, vai partir de
um entendimento propriamente astronômico, e lançar-se à compreensão do
entrelaçamento espacial dos vários pontos de vista dos vários ciclos
que eles desvelam.
Ora, se abandonamos o ponto de vista terrestre e levamos em
consideração o sistema solar como um todo[7]
— isto é, o quadro maior de referências no qual se estatuem e se
diferenciam os vários elementos em jogo — verificamos que, na
realidade, a Lua não está nem oposta ao Sol, como no raciocínio de
identidade estática, nem coordenada a ele, como no raciocínio dialético,
mas sim subordinada. Aliás está até mesmo duplamente
subordinada, desde que é o satélite de um satélite. A Terra está para
o Sol com a Lua está para a Terra. Formamos assim uma proporção,
e aqui pela primeira vez atingimos um enfoque racional de pleno
direito, desde que “razão”, ratio, não quer dizer
originariamente nada mais que proporção. É a proporção entre
nossas representações e a experiência, que assegura a racionalidade dos
nossos pensamentos.
Imediatamente a oposição inicial e a complementação que a
seguiu revelam-se aspectos parciais — e portanto insuficientes — de um
conjunto de proporções, que se reabsorve no princípio unitário que as
constitui. Porque todas as proporções, como veremos adiante, são variações
da igualdade, do mesmo modo que os jogos entre os ângulos e posições
dos vários planetas entre si se reabsorvem e resolvem no posicionamento
de todos em torno do seu eixo único central, que é o Sol.
Esta terceira modalidade denomina-se raciocínio de analogia.
Há muitos equívocos correntes hoje em dia sobre o que seja o raciocínio
analógico. Por exemplo, muitos autores acreditam que se trate da constatação
da mera semelhança de formas.[8]
Outros supõem que seja uma forma primitiva e vagamente “poética” de
assimilação da realidade, distinguindo-se radicalmente da apreensão
racional e lógica.[9]
Na verdade, nenhum dos filósofos modernos jamais demonstrou possuir um
domínio do raciocínio analógico tal como o praticava a Antigüidade;
por isto, nenhum deles é autoridade para dizer o que ele seja. O raciocínio
analógico, como veremos adiante, sintetiza numa visão integrada o raciocínio
de identidade e o de causa e efeito, e é portanto, superior a estes.
Se os filósofos acadêmicos fazem confusões a esse respeito, não
as fazem em menor quantidade seus adversários, isto é os astrólogos
profissionais. Só que a fazem com a intenção contrária, enfatizando a
superioridade do raciocínio analógico. De fato, eles usam e abusam de
uma famosa “lei de analogia”, chamada a justificar sua arte, e que
deve unir, em pulsação síncrona, o todo e a parte, o universo e o indivíduo,
o distante e o próximo, tudo, enfim, o que cabe na fórmula clássica do
micro e do macro.
Não é aqui o lugar de criticar os astrólogos profissionais, mas
o fato é que eles interpretam essa “lei” em modo plano, raso, linear,
como se entre o macro e o micro não existisse uma relação de analogia
apenas, mas de identidade; por exemplo, ao lerem horóscopos individuais,
a correspondência que eles vêem entre as configurações celestes e os
eventos da vida individual humana é praticamente direta, sem as modulações
e mediações que o bom-senso requer, e sem as inversões de significado
que a própria regra do raciocínio analógico, quando bem compreendida,
exige. Tendo estabelecido, por exemplo, uma ligação simbólica entre
Saturno e a paternidade, e entre a Lua e a maternidade, interpretarão
diretamente um ângulo inarmônico entre Saturno e a Lua, no mapa natal,
como indicação de um conflito entre a mãe e o pai do consulente. Essa
forma de raciocínio grosseiro foi muito bem caricaturada num
“silogismo” inventado pelo astrólogo espanhol Rodolfo Hinostroza:
“Saturno = pedra. Sagitário = fígado. Portanto, Saturno em
Sagitário = pedra no fígado. Ou, se quiserem, pedrada no fígado”.[10]
Do mesmo modo, estabelecem correspondências
diretas entre a Libra, como símbolo do equilíbrio cósmico, e a justiça
comum e a corrente dos nossos tribunais; e muitas outras no mesmo sentido.
Ora, a astrologia é uma ciência cosmológica, e não psicológica: o
plano onde se desenrolam os fenômenos, o cenário onde se representa o
deu drama, é o cosmos total, e não apenas a mente do indivíduo. Entre
esses dois planos, separados por muitos “mundos”, deve haver
necessariamente muitas transições e atenuações; explicaremos isso mais
adiante. O que interessa assimilar é que o raciocínio analógico é uma
ferramenta sutil, de precisão: não resiste a um achatamento que comprima
o macro no micro e o empastele.
Que significa, de fato, analogia? Em primeiro lugar,
qualquer dicionário grego assinalará, no verbete !anavlogo",
análogos,
a acepção de “proporcionalidade”, no sentido da fórmula a
x ——
= —— b
y ou
no sentido das harmonias entre os distintos comprimentos das cordas de um
instrumento musical e os sons que respectivamente emitem quando vibradas.
Tais proporcionalidades, como qualquer um pode perceber, consistem
precisamente na razão das diferenças entre os distintos valores.
Portanto se não há diferenças, não há analogia, há pura e
simplesmente identidade, no sentido da fórmula 1
1 ——
= —— 1
1 ou,
para resumir, 1 = 1. Isto deveria revelar, desde logo, que um símbolo
astrológico — planeta ou signo, ângulo ou casa — não pode jamais
ter o mesmo significado quando considerado em dois planos diferentes de
realidade, por exemplo no plano do cosmos total e no da psicologia
individual. Em segundo lugar, o prefixo aná, anav,
que constitui essa palavra, designa um movimento ascensional: me/lanej
d' a)na\ bo/truej h)=san
[Sgreek] Traduz-se como “sobre”, “acima”, “a montante”, “para cima”, como em avnagwgh, [bwgrkl], anagogê, “elevação”, “ação de elevar, de arrebatar para o alto”, ou ainda como em anábasis, anáfora, etc. O termo “analogia”, portanto, dá a entender que se trata de uma relação em sentido ascendente. Melhor dito: os dois objetos unidos por uma relação de analogia estão conectados por cima: é em seus aspectos superiores, e por eles, que os entes podem estar “em analogia”. Uma analogia é tanto ,ais evidente quanto mais nos afastamos da particularidade sensível para considerar os entes sob o aspecto da sua maior universalidade. Correlativamente, essa relação se desvanece quanto mais encaramos os entes por seus aspectos inferiores, isto é, pela sua fenomenalidade sensível. O que estabelece uma analogia entre dois entes, portanto, não são as similitudes que apresentem no mesmo plano, mas o fato de que emanam de um mesmo princípio, que cada qual representa simbolicamente a seu próprio modo e nível de ser, e que, contendo em si um e outro, é forçosamente superior a ambos. É nesse nível de universalidade que se celebra no céu o liame de analogia que vai unindo, numa cadeia de símbolos, o ouro ao mel, o mel ao leão, o leão ao rei, o rei ao Sol, o Sol ao anjo, o anjo ao Logos. Visto desde cima, desde o princípio que os constitui, eles revelam a proporcionalidade entre as funções simbólicas que desempenham para a manifestação desse princípio, cada qual no nível cosmológico que lhe corresponde, e é essa proporcionalidade que constitui a analogia. Visto desde baixo, desde a fenomenalidade sensível, ao contrário, eles se desmembram na multilateralidade das diferenças. Assim, a analogia é simultaneamente evidente e inapreensível; óbvia para uns, inconcebível para outros. Utilizamo-nos, portanto, das analogias, para subir da percepção sensível à apreensão da essência espiritual, para ir do visível ao invisível, ou, nos termos de Hugo de São Vítor,[11] para ir da natureza à graça: a natureza, o mundo sensível, “significa” o invisível; a graça espiritual o “exibe”, no topo da escada. A escada das analogias — evocada, por exemplo, na escada de Jacó, nos degraus do Paraíso em Dante, e em todas as hierarquias de conhecimentos espirituais — é um meio de acesso ao princípio e, por outro lado, vem abaixo se este lhe é retirado do tipo. Sendo, então, um liame vertical e ascensional, a analogia é diferente das simples relações de similitude — complementaridade, contigüidade, contraste, etc. — que relacionam, juntam, separam e ordenam os entes no mesmo plano horizontal. Esta distinção, por elementar que seja, escapa tão facilmente ao observador de hoje, que mesmo um historiador competente como Michel Foucault se equivoca, ao classificar a analogia como uma das formas da similitude na ciência medieval. Na realidade, a diferença de planos entre essas relações não permite enfocá-las como espécies do mesmo gênero, tal como as classificações hierárquicas em geral se distinguem das classificações tipológicas: a distinção entre capitão, major e coronel não é do mesmo tipo da distinção entre infantaria, artilharia e cavalaria.[12] E muito menos se poderia, então, submeter a analogia à similitude, como a espécie ao gênero, tal como não se poderia dizer que a classificação das patentes militares fosse uma espécie da qual a divisão das três armas constituísse o gênero. Isso deveria bastar para evidenciar que certas relações de semelhança que os astrólogos apontam entre planetas (ou mitos planetários) e entes e eventos do mundo terrestre — como, por exemplo, o fato de que Marte e o sangue são igualmente vermelhos — não são analogias, porque não remetem ao princípio que constitui esses dois entes e que é a razão comum das suas semelhanças e diferenças. Trata-se, portanto, de meras similitudes, discernidas no mesmo plano (no caso, o das qualidades sensíveis cromáticas). E como, no sentido plano ou descendente, a relação de proporcionalidade se dilui progressivamente na multiplicação das diferenças, as meras similitudes podem ser bem pouco significativas, e até mesmo inteiramente casuais; e ninguém pensaria que um conhecimento sério se pudesse obter mediante a coleta de curiosas coincidências. No esquema simbólico que estamos estudando, a passagem do particular ao universal é simbolizada pela passagem do ponto de vista geocêntrico a ponto de vista heliocêntrico. Este último, por sua maior abrangência, permite captar relações — analogias — que o particularismo da visão terrestre ocultava. Resumindo as fases percorridas, atravessamos: 1a fase. Ponto de vista: aparência sensível momentânea. Raciocínio: identidade e diferença. 2a fase. Ponto de vista: temporal e cíclico. Raciocínio: casual ou dialético. 3a fase. Ponto de vista: espaço-temporal, abrangente, universalizante, ascensional. Raciocínio: analogia. * * * Por outro lado, se as analogias levam ao conhecimento do princípio, é que este já residia em nós de modo virtual. Esta presença latente, este guia invisível que com mão segura nos conduz pela “via reta” das analogias em meio à floresta de similitudes, é simbolizado por Virgílio, Beatriz e São Bernardo nas três etapas da ascensão do poeta na Divina Comédia de Dante. Ora, os princípios universais geralmente chegam ao nosso conhecimento unicamente através de fórmulas abstratas, de modo que nos encontramos sempre divididos entre uma verdade universal e abstrata e uma experiência concreta destituída de verdade, destituída de sentido. A escalada das analogias visa justamente a transpor esse hiato, levando, na medida do possível, a um conhecimento vivido e concreto do universal. Através da analogia e do simbolismo, bem como das muitas artes, ciências e técnicas tradicionais que objetivam cristalizar e condensar esse simbolismo na psique do estudante, o que se procura pe justamente transformar e alargar essa psique de modo que ela mesma assuma uma envergadura universal, à imagem do Homem universal [13] que é compêndio e modelo do cosmos inteiro. No simbolismo numérico, todas as proporções são, em última análise, formas e variantes da identidade. A identidade é uma fórmula única, simples e abstrata, 1 = 1, que contém em si, sinteticamente, todas as proporções do universo, isto é, todas as “dosagens” todas as coisas e seres. Ao conhecer o princípio de identidade, conhecemos, de certo modo, a razão de todas as razões; é o conhecimento universal, mas ainda em modo virtual, como a semente que, potencialmente, contém em si uma floresta inteira. A escala das analogias dá concreção vivida a esse princípio, recapitula, por assim dizer, em modo abreviado, o orbe todo das possibilidades contidas no princípio de identidade e, no topo da escada, reencontramos esse princípio, já não como fórmula abstrata, mas como realidade plena, como sentido da verdade e verdade do sentido. É o que a escolástica denominava o universal concreto, a síntese da universalidade lógica e da plenitude existencial.[14] Esse reencontro, esta re-ligação, ressoa como a efetivação plena da felicidade. É a reunificação do homem consigo mesmo, preliminar ao reencontro com Deus. Na filosofia de Hugo de São Vítor,[15] é o reencontro do homem exterior, ou carnal, com o homem interior, ou espiritual. Hugo, seguindo uma tradição mas traduzindo-a com gênio e originalidade, distingue no homem, primeiramente, quatro faixas: na parte corporal, sensus (sentidos) e imaginatio (imaginação); na parte espiritual, ratio (razão) e intelligentia (inteligência). Então pergunta: não haverá uma faixa intermediária, um vínculo entre o espírito e o corpo? A essa faixa intermediária, Hugo denomina affectio imaginaria, e seu discípulo Ricardo de São Vítor, imaginatio medoatrix; “afecção imaginária” e “imaginação mediadora”. É nesta faixa intermediária que se dá o conhecimento das analogias e do simbolismo em geral, e é nela que se dá o reencontro da verdade universal com e na experiência concreta. A contrapartida ontológica dessa faixa psicológica é o denominado mundus imaginalis, o mundo das formas imaginais, que não se confundem com o imaginário (Hugo atribui o imaginário à parte corporal) e que constituem o elo perdido entre o mundo dos sentidos e as “formas puras (ou abstratas) do entendimento”; é aí que se celebra a reunificação do homem consigo mesmo, e é para aí, que devemos voltar nossa atenção de queremos romper o divórcio alma-espírito a que nos acostumaram quatro séculos de cartesianismo. Se o raciocínio de analogia é tão incompreensível para o homem moderno, é porque este perdeu a visão desse mundo intermediário, acostumando-se a entender como “abstração” tudo o que escape do orbe dos sentidos. Mas esse mundo intermediário é não só o mundo dos símbolos, e sim também de entes imaginais simbolizados por eles, pois não se poderia conceber uma faculdade cognoscitiva que não tivesse uma contrapartida objetiva, seu objetivo de conhecimento próprio e independente. E é no mundo imaginal que reencontramos então os anjos e os personagens das narrativas bíblicas e mitológicas, como formas de realidade que não se reduzem nem ao nosso psiquismo subjetivo, nem a uma objetividade meramente exterior. * * * A escalada termina aí. Tendo encontrado o princípio superior que organiza os vários planos de uma seqüência analógica, parece que nada mais há a conhecer, ao menos dentro desse domínio em particular. No entanto, quanto mais nos aproximamos de um princípio universal, mais vão ficando para trás e cada vez mais longe as realidades concretas cuja explicação buscávamos. E, ao voltarmos do topo, às vezes parecemos ter perdido de vista o propósito da viagem. O momento do reencontro passa, e nada nos resta nas mãos senão o enunciado abstrato e sem vida de um princípio lógico, que é a recordação melancólica de uma universalidade perdida. É preciso, portanto, descer novamente do princípio às suas manifestações particulares, e depois subir de novo, e assim por diante. De modo que a alternância sim-não, verdade-erro, que constitui para nós o início da investigação, é finalmente substituída pela alternância alto-baixo, universal-particular. Passamos, assim, da oscilação horizontal para a vertical. E é justamente o despertar da capacidade de realizar em modo constante esta subida e descida, que constitui o objetivo de toda educação tradicional. Mas a última etapa,
que absorverá o raciocínio analógico do seu último ranço de
abstracionismo, é precisamente a forma suprema de raciocínio, forma essa
tão superior a todas as outras, que já representa praticamente uma
entrada no mundo da intuição e do conhecimento imediato. A essa forma de
raciocínio, denominamos convenientia, “conveniência”, pois
designa aquilo que convém, o ponto central para onde convergem
todos os raios de um círculo, e de onde eles partem novamente em todas as
direções, representando o movimento duplo de contração-expansão do
particular ao universal e deste ao particular. Quando nosso intelecto
chega a essa forma de raciocínio, podemos então começar a compreender a
doutrina hindu dos “dias e noites de Brahma”, ou a doutrina islâmica
da “inspiração e expiração de Deus”, como retroação de todos os
mundos ao seu princípio, seguida de nova expansão multilateral de
manifestação universal. Estamos, assim, às portas da metafísica pura,
mas isto será assunto para uma outra ocasião.
[1]
René Guénon, La Grande Triade, Paris, Gallimar, 1957, pp.
39-45 (Cap. IV, “Yin” et “Yang”). [2]
René Guénon, Symboles de la science sacrée, Paris,
Gallimard, 1962, pp. 395-405 (Cap. LXX, “Coeur et cerveau”). [3]
Algo de bem parecido com a seqüência de passagens de plano a plano
que estamos oferecendo pode ser encontrado no livro de Phillipe
D’Arcy, La Réflexion, Paris, P.U.F. As quatro etapas que
mostramos correspondem respectivamente ao que ele denomina: 1º, estágio
do objeto; 2º, estágio do sujeito; 3º, estágio do Eu
Transcendental; 4º, estágio do Sol ou estágio do meio luminoso;
estes correspondem aos quatro tipos de raciocínio — identidade,
causa e efeito, analogia, conveniência — assinalados por Eugène
Caslant em Lês bases élemtaires de l’astrologie, Paris, Éditons
Traditionalles, 1976, Vol. I, Cap. II, pp. 21-22. [4]
Henri Bergson, Introduction à la métaphisique, em Oeuvres,
Paris, P.U.F., 1970, pp. 1392 ss. [5]
Gaston Bachelard, Lê nouvel esprit scientifique, Paris, P.U.F. [6]
Como, por exemplo, Bertrand Russell na sua História da filosofia
ocidental, trad. bras., São Paulo, Nacional, t. III. [7]
A questão da diferença entre um simbolismo geocêntrico e um
simbolismo heliocêntrico será abordada mais adiante. [8]
Susanne K. Langer, An introduction to symbolic logic, New York,
Dover, 1967, p. 21 ss. [9]
Gaston Bachelard, A poética do espaço, trad. bras., São
Paulo, Abril. [10]
Rodolfo Hinostroza, El sistema astrológico, Madrid, Alianza
Editorial. [11]
Em Edgard de Bruyne, Estudios, op. cit., vol. II, o.
216. [12]
Michel Focault, Lês mots et lês choses, Paris, Gallimard,
1966, pp. 32-59. [13]
O homem universal é o protótipo da humanidade, o modelo pelo
qual, segundo todas as tradições, foi estruturado o universo. No
cristianismo, ele é tanto o velho Adão quanto o “novo Adão”,
Jesus Cristo. V., a propósito, René Guénon, Lê symbolisme de la
croix, Paris, Vega, e, do ponto de vista das doutrinas islâmicas
exclusivamente, ‘Abd ak-Karim El-Jíli, De l’homme universel,
trad. e comentários de Titus Burckhardt, Paris, Dervy-Livres, 1975. [14]
V. De Bruyne, op. et loc. cit. [15]
id., ibid.
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