A Gnose de Princeton

Olavo de Carvalho
 Revista Planeta # 57, junho de 1977  

Os cientistas à procura de uma religião

 

 

O telescópio de Monte Palomar, Califórnia. (USIS)

Trinta anos atrás, quem quisesse argumentos contra a ciência materialista podia encontrá-los nas formas mais antiquadas — e mais frágeis — de conhecimento: na tradição religiosa, nos argumentos dos filósofos especulativos, no protesto subjetivo do artista, em tudo, enfim, que se englobava sob o nome de «humanidades».

Na opinião vigente — e tão vigente que provocou alterações nos nomes de algumas instituições de ensino superior —, a grande revolução mental do século 20 consistiu na liquidação dessas «humanidades» e em sua substituição pelas «ciências humanas», de base materialista. Inspirada em Marx, Freud e Saussure, a redução da revolução espiritual a uma superestrutura da história econômica; das normas éticas a superestruturas da repressão dos instintos; e do pensamento em geral a uma superestrutura da língua, teria fornecido a base material e objetiva que permitiu elevar as especulações sobre o ser humano ao nível do conhecimento científico. Na opinião geral da intelligentsia, a partir dessa redução das «ciências humanas» nada mais devem, em rigor e exatidão, ao. seu antigo modelo, a saber, a ciência física.

Bem, enquanto os antropólogos e lingüistas se ocupavam em modelar sua ciência pelo nível da ciência física, esta se ocupava de tarefa mais proveitosa: revia suas próprias bases. Assim, nas últimas décadas, operou-se, no interior do conhecimento físico do universo, uma verdadeira revolução — e, ao contrário da dos lingüistas, uma revolução silenciosa. No retiro dos seus laboratórios, a mais refinada elite da ciência norte-americana (que não inclui só norte-americanos, mas japoneses, russos, italianos etc.) chegava à conclusão de que não só a hipótese materialista não bastava para explicar uma quantidade crescente de fenômenos, mas que essa quantidade crescente de fenômenos convergia irremediavelmente em favor da hipótese contrária. Que a moderna astrofísica requeria uma teoria baseada na compreensão da totalidade do real, ou seja, uma teologia. Quem diz não sou eu. Extraio a afirmação de um livro recente do biólogo e filósofo francês Raymond Ruyer (1). Mas quem diz também não é Raymond Ruyer. Ele apenas reproduz o que ouviu de centenas de astrônomos e físicos agrupados nas universidades de Princeton, Pasadena e Stanford e nos observatórios de Monte Palomar e Monte Wilson. Nos últimos doze anos, as descobertas sucessivas da cosmologia levaram esses cientistas não só a formular explicações não materialistas, mas a agrupar essas explicações num sistema teológico coerente e, enfim, a fundar nada menos que uma seita religiosa: a gnose de Princeton.

Não se trata de uma metáfora destinada a sublinhar a coincidência fortuita de algumas crenças religiosas com algumas verificações da ciência experimental. Trata-se realmente de uma religião, com todos os elementos que compõem uma religião, que compõem todas as religiões existentes. A saber: (1) uma interpretação da totalidade, e do lugar do homem nessa totalidade; (2) uma história do universo, da sua criação e da criação do homem; (3) uma explicação dos fundamentos espirituais desse universo; (4) uma explicação das relações entre esses fundamentos espirituais e a matéria; (5) uma «teoria de Deus», ou seja, uma teologia; (6) uma teoria a respeito do homem: uma antropologia e uma psicologia filosófica; (7) uma teoria sobre como deve ser a vida humana para enquadrar-se harmonicamente no plano de Deus: uma ética; (8) normas práticas para a realização da vida harmoniosa: uma sabedoria e uma fé.

Uma religião, realmente. Com uma única diferença: nenhum dos conhecimentos que a fundamentam foi obtido pelos meios habitualmente considerados «mágicos». Derivam de observações estritamente científicas, — daí o nome, gnose — que começaram pela necessidade de ultrapassar os paradoxos implícitos da ciência materialista. Por exemplo, o famoso «paradoxo de Olbers».

Paradoxos

Para o cientista materialista, a crença de que o universo «foi criado» não passa de uma projeção da crença infantil de que tudo o que existe «foi feito» por alguém, no sentido em que a criança pergunta «quem fez» as batatas e os gatos e as nuvens. Em contraposição a essa crença infantil, a ciência ocidental desenvolveu a idéia de um universo eternamente estável. Acostumamo-nos, desde os gregos, à idéia de «leis eternas», em função das quais o universo pode sofrer alterações locais, permanecendo, no entanto, sempre o mesmo, com as mesmas leis valendo em toda parte, mal grado as diferenças na sua «aplicação» concreta, aqui e ali.

Entretanto, essa idéia leva a contradições. Por exemplo (e este é o paradoxo de Olbers), se o universo fosse estável, o céu, à noite, não seria preto; seria permanentemente branco em todas as direções. Já Mach e Einstein sabiam disso, e admitiam que as leis físicas não poderiam ser extrapoladas ilimitadamente, e que, de um ponto qualquer em diante, deveria terminar o que chamamos de «universo» e começar, digamos assim, outra coisa. Isto não era mais que uma previsão. Nos últimos 25 anos, ela foi confirmada. O astrônomo norte-americano Hubble descobriu que os astros mais longínquos se tornam progressivamente mais vermelhos, o que resulta no seguinte: a partir de uma certa distância, o avermelhamento é infinito, e nenhuma luz recebemos desses astros. Aí está por que o céu, de noite, é preto. E se as leis que valem dentro deste universo não valem para esse «além», conclui-se que as leis físicas não são ilimitadas nem eternas, que existe um fim e existiu um começo, que a história cósmica é um fato.

Mas é só um exemplo. O livro de Ruyer alinha dezenas de outros paradoxos que emanam do simples fato de que os postulados da ciência materialista, ultrapassados determinados limites de observação — no sentido do infinitamente grande ou do infinitamente pequeno —, conduzem a contradições. E que, na medida em que esse infinitamente grande ou infinitamente pequeno influencia, de um modo ou outro, os fatos ocorridos dentro do nosso campo de observação — e é forçoso reconhecer que o fazem, já que esse campo está dentro da realidade total —, então é preciso rever as nossas «leis eternas» em função dessa realidade total. E isto é fazer teologia.

É impossível resumir esses exemplos, de um livro que, por si, já resume um pensamento coletivo da mais alta complexidade. (Esperamos que o livro de Ruyer venha a ser traduzido em breve.) No entanto, também não é preciso muitos exemplos: basta mostrar por onde os neognósticos começam a atacar com vigor a ciência materialista. E não é em nenhum conhecimento específico e complicado, mas na base mesma, no fundamento metodológico da ciência materialista: na noção de «objeto» .

A noção de objeto

o conhecimento científico começa ao estabelecermos a objetividade da coisa examinada, despindo-a das qualidades que o nosso eu subjetivo lhe atribuiu sem estarem nela. Por exemplo, o animal ao qual atribuímos sentimentos de tipo humano. O primeiro requisito para conhecer esse animal e descascar esses sentimentos, descobrindo (no sentido etimológico) por baixo deles o animal-objeto.

 

O materialismo surgiu de um esforço desse tipo. Descascando projeções subjetivas, foi transformando em objeto todo o mundo em torno, todas as coisas e seres, inclusive o homem. Quer isto dizer que o único conhecimento científico é o objetivo? que tudo, realmente, ou é projeção ou é objeto? que a única opção é ser materialista ou não ser científico? Não. Pode-se ser mais científico do que materialista. Porque este leva seu esforço de depuração até um certo ponto, e pára. Se continuarmos, se levarmos o processo adiante, se examinarmos e depurarmos não só o mundo, mas nossa própria consciência, os pressupostos, os a priori, as projeções subjetivas da consciência materialista, então chegaremos a conclusões surpreendentes.

 

Por exemplo: que o materialista privilegia, sem justificar-se, a percepção visual sobre todas as outras formas de conhecimento, e a transforma em juiz de todas essas outras formas. De fato, para o olho, tudo o que não é olho é objeto. Então, ser objeto não é necessariamente o modo de existir das coisas mesmas, mas o modo de elas surgirem diante dos nossos olhos. Ou seja: as coisas são objetos para o olho, mas podem não ser objetos em e para si mesmas. Para si mesmo, o objeto pode ser exatamente o que o olho é para o próprio olho: consciência.

Tudo o que podemos ver com o olho é objeto. O erro do materialismo consiste em concluir, daí, que tudo é efetivamente objeto, ou seja, nas palavras de Ruyer, ele «transforma o mundo num subproduto da nossa maneira de construí-lo». O materialista transforma tudo em objeto pelo simples fato de que ele é um observador, alguém que está de fora, um sujeito exterior. O que não se compreende é por que a visão de fora seria mais verdadeira ou legítima do que a visão de dentro. Assim, o materialista não pode perceber a existência de nenhuma outra consciência além da sua mesma, que se transforma no único sujeito. Ê só por comparação e dedução que ele pode conceder aos outros a possibilidade (mas não a certeza) de possuírem uma consciência semelhante à sua.

Delírio materialista

Para a gnose de Princeton, isso é um delírio solipsístico, que só vê, do mundo, aquilo que o nosso raciocínio construtivo consegue projetar nele: sua objetividade. A neognose, inversamente, começa quando descascamos o mundo dessa objetividade fabricada e passamos a pensá-lo em sua efetiva realidade concreta.

Que realidade é essa? A consciência? Então a pedra pensa, o gato pensa como o homem? Evidentemente não, se por «gato» e «pedra» queremos dizer o gato e a pedra que a ciência e a visão objetiva descrevem. O exame objetivo estabelece um gato objetivo — um mamífero, de quatro patas, dotado de um cérebro assim e assado, de um sistema nervoso assim e assado etc. etc. Esse gato, evidentemente, não é consciência. Mas este é o gato para a ciência, o gato para a consciência objetiva humana, o gato abstrato e genérico, e não este gato específico, único, irredutível a outro gato. O gato genérico é um gato universal e necessário, redutível a certas uniformidades com os outros gatos. Este gato específico e único, ao contrário, resulta de um agrupamento altamente improvável de fatores constituintes; ele é único justamente porque não se reduz a leis, objetivas, e genéricas; neste sentido, é um «eu». Tudo quanto é real e concreto, individual, irredutível, é um «eu», algo que não só emite, mas recebe significados. Todas as coisas reais são assim. As coisas da ciência é que não. Mas a ciência não se ocupa com «as coisas» e sim com «o lado objetivo das coisas» que é precisamente o que elas não são em si mesmas. A ciência não descreve «o mundo», descreve «o avesso do mundo». Nas palavras de Aimé Michel: A dferença que há entre os «seres» desprovidos de um «eu» e os verdadeiros seres é a mesma que há entre 500 mil caracteres tipográficos espalhados sobre uma mesa e os mesmos caracteres sucedendo-se ordenadamente num romance de Tolstoi.

O «ser» descrito pela ciência é um agrupamento de caracteres ordenados não segundo a sua organização real e concreta, mas segundo a organização da mente humana. O «ser» verdadeiro tem os mesmos caracteres, mas ordenados na e pela realidade de modo diverso. A ordem da realidade efetiva e concreta está para a descrição científica assim como o romance está para os caracteres espalhados, ou seja: abstraídos. Os caracteres abstratos são «objetos»; o ser verdadeiro é um aqui-agora, irredutível e irrepetível, uma totalidade significante, uma consciência, um eu.

A gnose — escreve Raymond Ruyer — toma a contrapêlo o cientificismo materialista. Todos os seres são conscientes, significantes, ou, antes, cheios de sentidos, recebem e passam informação. Não somente seu «corpo» (seu avesso visível) não passa de um aspecto superficial que se oferece a um observador exterior, como também, na verdade, eles não têm corpos, eles não são corpo. Eles se vêem uns aos outros e, vendo-se, transformam-,re mutuamente em coisas vistas.

Consciência de ser

O homem é o exemplo mais flagrante dessa nova concepção de «ser». Ele se vê interiormente, ele tem consciência de ser. Ao mesmo tempo, pode ver seu corpo como objeto exterior, assim como vê os outros homens e as realidades do universo. Mas, para a gnose, a consciência humana não é uma exceção num universo de meros objetos, mas a chave, o caso exemplar de toda a realidade universal, que obedeceria à mesma lei de um interior-em-si-e-para-si e um exterior-para-o-outro (ou para si enquanto observador). Se a ciência descreve o exterior, o «avesso» das coisas — do mesmo modo como pode descrever o avesso, o exterior do homem, sem por isto negar-lhe um interior —, então, é preciso reconhecer que as coisas, cada coisa, possui seu interior, seu «direito» .

Ora, esse «direito» é difícil de perceber. Não se pode ver uma consciência. Pode-se apenas participar dela. A participação é uma idéia fundamental da gnose. Exemplo: o animal que cumpre ferozmente os ditames do seu instinto. Quando os filhotes de certas aves caem do ninho e, do galho vizinho, piam desesperados, a mãe imediatamente os estraçalha: o instinto lhe determina tão violentamente que deve exterminar tudo quanto se mova perto do ninho, que ela obedece cegamente, sem perceber que está matando os próprios filhos. Ela participa de uma lei geral, mas não tem a menor consciência dos objetivos dessa lei no plano mais amplo da natureza; sabe apenas cumpri-Ia, participar dela de maneira feroz e direta. O observador sabe que essa maneira é desastrada — mas ele não participa da lei. Ele vê apenas o avesso do comportamento do pássaro (sua relação com uma norma exterior), mas não o seu direito: a compulsão irresistível de cumprir cegamente a lei do instinto. Konrad Lorenz sabe mais sobre o avesso dos gansos do que todos os gansos do mundo. Mas nunca foi ganso. Não tem a menor idéia do «direito», do interior do ganso, deste ganso específico. Neste sentido, o pressuposto objetivista tem de ser completado pelo pressuposto subjetivista: tudo tem um interior. O interior do ganso não é nem mais nem menos inacessível ao observador do que o interior do homem. Escreve Aimé Michel:

Dois jovens que se olham sorrindo e se tomam as mãos têm, acaso, consciência do eterno impulso que os une? Romeu, subindo em sua escada, tem acaso consciência da infinitude dessa outra escada onde tudo o que existe não cessa de subir desde a explosão inicial? Entretanto, é bem o plano desta última escada que ele cumpre, sem saber, e com tal ardor que termina por morrer. No breve clarão de sua vida, terá participado, com todo o seu ser, da gestação cosmo lógica que o ultrapassa infinitamente.

Para ter uma consciência, um interior, basta existir, pois existir é cumprir um propósito que transcende um objeto isolado, é participar de um propósito, é assumir, incorporar, encarnar um significado. Observar é relacionar um propósito com outro propósito, e isto seria impossível se cada ato de cada ser, se cada objeto não estivesse pleno de sentido, não recebesse e transmitisse informação, não tivesse um aqui-agora, um «eu» por baixo da sua objetividade superficial.

   

Raymond Ruyer, autor de A Gnose de Princeton

O panpsiquismo renovado

Esse é o ponto básico da gnose de Princeton: o panpsiquismo renovado. O universo, segundo os neognósticos, não é composto de objetos materiais, nem de energias, mas de campos de consciência. E isto é, na realidade, uma transcrição, em termos modernos, da gnose tradicional. Nas palavras de Ruyer:

A tese fundamental da nova gnose é a de toda gnose. O mundo é dominado pelo Espírito, feito pelo Espírito, ou por Espíritos delegados. O Espírito encontra (ou antes cria para si mesmo) uma resistência, uma oposição: a Matéria. O homem, pela ciência, mas por uma ciência superior, transposta ou espiritualizada, pode chegar ao Espírito cósmico e, se for sábio e inteligente, encontrar a Salvação.

Neste momento, alguns dos mais avançados pesquisadores das universidades norte-americanas estão empenhados precisamente em construir essa ciência superior, que já não é um simples apanhado de observações sobre objetos exteriores destituídos de sentido, mas — como a ciência dos estóicos — um. caminho para a sabedoria, a vida harmônica e a salvação.

Eles não recorrem à intuição mágica, e permanecem firmemente atados ao método científico. Eles não fazem proselitísmo, e mantêm sua seita num estado, segundo Ruyer, «discreto, se não secreto» (o livro de Ruyer é até o momento a única informação a respeito). Não crêem que seja possível popularizá-la, nem que isto consistisse, no momento, um remédio eficaz contra as misérias do mundo. Ao contrário da maioria dos intelectuais americanos, não se julgam especialmente dotados de uma mensagem apta a salvar o gênero humano. Unicamente, à maneira dos estóicos, constroem pacientemente, e em silêncio, uma cidadela invencível contra o cinismo e o caos.

Reinventar a regra

Para os neognósticos, esse silêncio é fundamental. Eles repudiam todo simbolismo e todo ritualismo, e julgam que a iniciação religiosa deve ser de iniciativa individual, que cada um, por si, deve redescobrir ou reinventar a Regra. Com um humor tipicamente norte-americano, chegaram a inventar um jogo de cartas que simboliza essa situação: o banqueiro de jogo estabelece uma regra a escreve num papel; os demais jogadores vão depositando cartas sobre a mesa, que são aceitas ou recusadas pelo banqueiro, conforme se enquadrem ou não na regra, até que um deles descubra que regra é esta e possa, assim, vencer o jogo. Não havendo fórmulas explícitas, o indivíduo tem de dar o máximo de si e agir com independência — o que torna a gnose de Princeton, de certo modo, uma seita aristocrática, que só serve para aqueles poucos que aceitam o risco e a incerteza — precisamente as coisas contra as quais o dogmatismo das religiões populares oferece proteção.

Por outro lado, a recusa do objetivismo é também uma recusa do antropocentrismo: o mundo deixa de ser «um subproduto da nossa maneira de construí-lo» e passa a ter uma existência própria, que transcende o homem, antes exigindo que este se submeta às leis universais. Para os neognósticos, o pensamento humanístico mais avançado, representado na psicanálise e no marxismo, é ainda um antropocentrismo, que põe um fato humano — a dialética histórica, a libido — no centro da interpretação da realidade, ao invés de situar o homem em seu posto humilde de símio bem-sucedido no imenso conjunto das leis cósmicas.

Salvação individual

Tanto esta recusa do antropocentrismo quanto o caráter «aristocrático» da gnose de Princeton levam-na a insistir antes na salvação individual (cada indivíduo tem de aprender por si a obedecer a lei cósmica) do que na reforma social. Os neognósticos julgam que não se pode inventar uma sociedade, como não se pode construir um organismo em laboratório. Mas pode-se fabricar moléculas pré-orgânicas, o rudimento de um organismo, mediante a «sopa de Miller» (mistura de hidrocarburetos e amoníaco no qual Urey e Miller conseguiram produzir aminoácidos). Do mesmo modo, pode-se, mediante uma religião básica como a gnose, experimentar em dimensão microscópica novas formas de convivência humana — uma espécie de «sopa de Miller» social — que talvez amanhã sirvam para a orientação de toda a sociedade, para a construção de uma política cosmocêntrica, o inverso da cosmovisão politicocêntrica que hoje justifica todas as tiranias e todas as misérias.

Esse é o sentido da sabedoria prática desenvolvida pelos neognósticos: experimentar, como em laboratório, uma vida plena e dotada de sentido transcendente, (entretanto, sem misticismos nem ritualismos): a verdadeira religião, a verdadeira ligação entre o homem e o cosmos. E isto é certamente mais proveitoso do que fabricar mais uma ideologia, ou seja, mais uma teoria falsa.

1. La Gnose de Princeton, Ruyer Raymond, Fayard, Paris.