Agora, o que Será da Minha Vida?

Elyseu Mardegan Junior
 

Entender a realidade ajuda a encarar a meia-idade como fase produtiva, não de crise

“Eu não costumava me sentir assim, não sei... Trabalhei duro durante toda a minha vida. Foi assim que me ensinaram: trabalhe duro que você vai em frente. E, agora, que eu tenho tudo com que sonhei, não me sinto tão feliz quanto acreditava que deveria ser, e não sei por que...

Na empresa, cheguei até onde foi possível chegar. Não serei o presidente, mas financeiramente estou tranqüilo. O difícil vai ser segurar esses caras mais jovens que agora os diretores decidiram empregar. No meu tempo não era tão fácil assim. Você tinha que ser realmente bom. Agora, basta um diploma de qualquer universidade... Há alguns anos, eu adorava meu trabalho, mas hoje parece tudo sem sentido, sem motivação... As crianças cresceram, mal posso acreditar! Queria passar mais tempo com elas, como antigamente. Mas, agora, elas mudaram muito. Não me dão mais atenção. Só querem os amigos e ficam em seus quartos ouvindo aquelas músicas... Queria falar com elas sobre drogas, Aids. Mas que diabos! Elas não me ouvem. Se falo alguma coisa elas dizem: “Eu quero viver a minha vida; não quero acabar como você, pai.” De onde eles pensam que vem o dinheiro para todas as mordomias? E eu me sacrifiquei a vida toda para ouvir isto!!!

Na última convenção da empresa eu conheci uma mulher... ela só tem 19 anos... acho que me apaixonei por ela. Com ela eu posso conversar, contar-lhe meu dia, meus problemas. Ela me faz sentir jovem e me acha bonito e inteligente. Nunca exige nada. A mulher com quem eu me casei há vinte anos, agora se parece mais com a minha mãe... Só sabe reclamar que eu vivo nervoso e bebendo muito...

Minha saúde? Vou levando. Às vezes eu fico suando frio, meu coração dispara e meu estômago dói. Fui procurar um médico e ele disse que não é nada. Parece que estou estressado... ele mandou eu relaxar... Relaxar! Com todos estes problemas e responsabilidades? Ainda mais com meu pai no hospital. Tenho ido lá todos os dias, após o escritório, e corta-me o coração vê-lo naquela cama, sem poder fazer nada.

Às vezes, tenho vontade de falar com alguém, mas com quem? Lá na empresa não dá para conversar sobre isto. Com certeza usariam isto contra mim mais tarde.

Meu sonho era abrir meu próprio negócio e jogar tudo para o alto, mas não posso destruir tudo o que consegui nestes anos. Eu sempre pensei que estaria feliz nesta altura da minha vida: uma boa casa, carro novo, filhos e um bom salário. Mas eu não sei o que fazer. O que vai ser da minha vida?” Fiz questão de estender-me um pouco neste depoimento, pois tenho a certeza de que ele reflete os sentimentos de muitos homens que se encontram num período muito particular da vida –– a chamada “crise da meia-idade”.

Fomos induzidos, por vários anos, a considerar esses distúrbios como a “menopausa masculina” ou “climatério”, e que, portanto, seriam passíveis de serem tratados pela terapia hormonal. Esta crença, aliada à tendência dos médicos de encontrar uma cura rápida para os sintomas psicológicos no homem, serviu apenas para o aumento das vendas de hormônios pelas indústrias farmacêuticas. Afinal, este diagnóstico elimina a necessidade de se entrar em detalhadas explicações, ou de se encarar incômodas realidades, o que o torna muito conveniente para o consumo numa sociedade, onde o homem tem medo de encontrar-se consigo mesmo e é ensinado a reprimir seus sentimentos desde a infância.

Mais recentemente, foram direcionadas para o stress todas as desculpas dos sintomas psicológicos vivenciados na meia-idade. Então, observou-se que esses processos não são excludentes, mas sim interdependentes e que o stress é um agente agravante das mudanças ocorridas neste período da vida adulta.

Mas, felizmente, a crise existe e o colapso ocorre na meia-idade, entre os 40 e 50 anos, quando a maioria dos homens descobre que o padrão pelo qual sempre se espelharam foi abstraído de uma realidade que agora começa a desmoronar. Fomos educados acreditando que nossa masculinidade depende do nosso sucesso pessoal profissional, do dinheiro e do poder, e, portanto, todos os esforços e sacrifícios para subir a escada são perfeitamente válidos. Nesta época, o homem se vê frente a frente com o resultado de seu sucesso, ou fracasso, e uma sensação de desespero toma conta do momento da verdade que se aproxima. Acostumados a buscar sempre o primeiro lugar, agora é a hora do tudo ou nada. As oportunidades e o tempo para realizá-las se estreitam. Mas, se o esforço e o trabalho árduo não foram suficientes para levá-los ao topo, tampouco o são, lá estando, para garantir-lhe uma vida feliz e cheia de realizações. O sentimento de desilusão e desapontamento que acompanha o fracasso não raro atinge de modo semelhante aquele que obteve sucesso, pois é o sonho realizado perde todo o esplendor ao se perceber que os sacrifícios exigidos não compensaram a vida que deixou de ser vivida plenamente. Nossa vida foi toda estruturada em cima do que resta para viver, ao invés do tempo decorrido desde a infância, e, agora, este tempo parece ínfimo se comparado ao anseio por realizar todos aqueles sonhos abandonados da juventude. Os desvios do caminho originalmente traçado parecem agora atalhos muito longos e sem sentido para uma vida que se aproxima do final.

A finitude da vida torna-se real com o surgimento dos primeiros problemas de saúde, com o declínio físico, com a morte de alguns amigos e dos próprios pais, que agora estão totalmente dependentes dos filhos.

No trabalho, a rotina diária e a falta de motivação sufocam toda e qualquer possibilidade de realização pessoal e, não raro, questionam-se até mesmo a carreira e a profissão escolhida, quando, então, abandonam tudo em favor de algo que eles próprios não sabem o que é, pois não são mais capazes de se encontrar consigo mesmos.

Sentem-se assustados por estarem envoltos em sentimentos que aprenderam reprimir por toda uma vida e que não são permitidos aos adultos. Afastados de todos os outros sentimentos, restam-lhes apenas o medo do fracasso ou da morte, que procuram sufocar no trabalho alucinante, na bebida, no sexo alienado ou no suicídio. A solidão os domina, pois suas vidas encontram-se na contramão daquela tomada pela mulher e filhos.

Por que, então, me referi à crise como algo positivo, se as perspectivas e a própria experiência de vivê-la são tão marcantes e, muitas vezes, sentimentalmente arrasadoras?

Porque estamos aprendendo que as pessoas crescem e mudam durante toda a sua vida, às vezes passando por períodos de calma e estabilidade e em outras ocasiões por períodos turbulentos e de grande envolvimento sentimental. É aí que elas estão expandindo suas personalidades e, portanto, crescendo como seres humanos.

Devemos banir de nossas crenças a idéia de que as pessoas atingem a vida adulta e assim devem permanecer até a morte. Não chegamos à maturidade com todas as certezas e verdades do mundo. Devemos nos permitir ampliar nossa personalidade e nossa vida afetiva, dando espaços para que as dúvidas possam sugerir possibilidades de mudanças e de crescimento pessoal. Os caminhos traçados na juventude não são irrevogáveis, e raramente teremos que conviver com eles por toda a vida. A estagnação significará a morte do espírito humano.

Aqueles que se fecham a estas possibilidades de expansão neste período são os mesmos que se recusam a abandonar um sonho irrealizável. Só será possível uma abordagem de crescimento durante os distúrbios da meia-idade na medida em que sejamos capazes de lamentar a perda de um sonho com pesar e não com rancor, compreendendo que a recusa em abandonar um sonho impossível acabará por destruir a nós mesmos.

Na nossa sociedade a falta de progresso tem o mesmo sabor do fracasso e, como fomos educados para uma escalada constante, acreditamos que o fracasso na vida profissional implica necessariamente num fracasso na nossa vida pessoal.

Esta ética do trabalho contemporâneo tem nos levado a conclusões desastrosas sobre a amplitude de nossas vidas. Esta é repleta de altos e baixos e a compreensão desta realidade é que nos ajudará a enfocar o período da meia-idade, como uma época de crescimento e não de crise existencial.

Somente nesses períodos de “crise” é que poderemos nos afastar da realidade alienante do dia-a-dia e buscar no nosso íntimo o verdadeiro sentido para uma vida plena e feliz.

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Elyseu Mardegan Junior é mestrando em Administração de Empresas na Fundação Getúlio Vargas