Do Coração que Distrai a Razão
IEL-I, primeiro semestre de 1990

Denny Marquesani

[Este foi o primeiro trabalho que fiz no curso de Letras em 1990. Horrível, ingênuo e medíocre. Mas valeu pela citação bíblica.]

A Poesia

A poesia é uma forma muito particular de se expressar a realidade.

Representar a realidade é algo impossível, nenhuma imagem, nenhuma palavra transmitiria ao leitor o sentido ideal que o poeta concebeu, mesmo que ele, o poeta, se valha de todos os recursos de que o discurso poético dispõe: ritmo, sonoridade, imagem et cetera. Nunca emergirá o signo ideal.

Portanto, só o silêncio poderia representar com total fidelidade a realidade percebida pelo poeta, mas o leitor não conseguiria decodificar esse silêncio, jamais penetrando na realidade do poeta. Em sendo assim, contentamo-nos com o discurso poético.

Um Poema, um Poeta, as Forças

Autopsicografia

O Poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,             05
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,                 10
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

Este poema de Fernando Pessoa foi publicado num livro chamado O Eu Profundo e Outros Eus (Pessoa, Fernando. 1888—1935. O Eu Profundo e Outros Eus: Seleção poética; seleção e nota editorial de Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1980).

[Estupidamente, não fiz distinção entre a publicação original e a republicação em antologias.]

O poema foi concebido quando da manifestação no autor de fenômenos paranormais como o próprio título “Autopsicografia” sugere.

O misterioso envolvimento do poeta com o ocultismo — Teosofia, Maçonaria, “Golden Dawn” — é refletido na sua obra: “Autopsicografia” enuncia o misteriosíssimo processo da criação poética que o próprio poeta sentiu.

É interessante salientar que muitos poetas admitiram que seu trabalho é produto da interferência de forças estranhas, desconhecidas: psicografia.

Fernando Pessoa muitas vezes, através de sua obra, fez referência à odeia de que não era dele o que ele escrevia, questionando de quem seria ele o arauto ou quem poderia estar vivendo dentro dele.

“...chegaram ao outro lado do mar, à região dos gerasenos. Logo que Jesus desceu do barco, caminhou ao seu encontro, vindo dos túmulos, um homem possuído por um espírito impuro: habitava no meio das tumbas e ninguém podia dominá-lo, nem mesmo com correntes. Muitas vezes já o haviam prendido com grilhões e algemas, mas ele arrebentava os grilhões e estraçalhava as correntes, e ninguém conseguia subjugá-lo. E, sem descanso, noite e dia, perambulava pelas tumbas e pelas montanhas, dando gritos e ferindo-se com pedras. Ao ver Jesus, de longe, correu e prostrou-se diante dele, clamando em alta voz: “Que queres de mim, Jesus, filho do Deus altíssimo? Conjuro-te por Deus que não me atormentes!” Com efeito, Jesus lhe disse: “Sai deste homem, espírito impuro!” E perguntou-lhe: “Qual é o teu nome?” Respondeu: “Legião é o meu nome, porque somos muitos”. E rogava-lhe insistentemente que não os mandasse para fora daquela região. Ora, havia ali, pastando na montanha, uma grande manada de porcos. Rogava-lhe, então, dizendo: “Manda-nos para os porcos, para que entremos neles”. Ele o permitiu. E os espíritos impuros saíram, entraram nos porcos e a manada — cerca de dói mil — se arrojou ao mar, precipício abaixo, e eles se afogaram no mar... E todos fuçaram espantados.” — Marcos 5.

[O que é que tem isso a ver com o poema?]

 

A Forma

Rudimentos Estruturais

O poema “Autopsicografia” está dividido em três estrofes, cada estrofe possui quatro versos. Trata-se, portanto, de três tetrásticos.

A Rima

Da rima, nota-se que cada um dos tetrásticos do poema contém duas rimas diferentes, uma das quais unifica as cláusulas dos dois versos ímpares, e a outra as dos dois versos pares de cada estrofe. Essa característica formal contribui para a simplicidade do poema. Simplicidade percebida também no plano do ritmo que nos faz lembrar de um poema dos tempos de criança: “batatinha quando nasce...”

O Ritmo

E por falar em ritmo, verifica-se que o metro é de sete sílabas; e que uma leitura silábica é suficiente para se penetrar no sentido porque, como é fácil perceber, o ritmo sugere quase que a ausência de movimento, lembrando-nos o suave ritmo de um mantra indiano ou os sutis e quase imperceptíveis movimentos produzidos pelo iogue quando em clássica posição de lótus, perscruta seu interior. O poema apresenta o sutil ritmo do movimento da autopercepção.

[Não haveria muito mais o ritmo que gira do “comboio de corda”?]

Alguns elementos de Sintaxe

Na primeira estrofe “poeta” é sujeito e “dor” é objeto. Na segunda estrofe “leitores” é sujeito e “dor” é objeto. Na terceira estrofe “coração” é sujeito e “razão” é objeto. O tempo do poema é predominantemente presente. Esses elementos formais de sintaxe começam a desvelar o sentido: poema no presente e várias dores.

Sentido

Imagens: Sentido

No primeiro verso “O poeta é um fingidor”, a palavra fingidor já prenuncia que o poeta “fingi—dor”, isto é, o poeta finge uma dor. “Finge tão completamente” (segundo verso), finge tão “completa-mente”, tão completa a mente... Aqui nesse segundo verso percebemos a palavra mente que confirma o ato de fingir porque quem finge, de certa forma, mente; mas, por outro lado, a palavra mente, mente enquanto consciência, estabelece paralelo com a palavra razão do décimo verso; mas que também, retomando o pensamento anterior, mente (enquanto verbo mentir) estabelece paralelo com a palavra coração do décimo-segundo verso; coração, este, que entretém a razão. O coração entretém a razão: o coração engana, mente para, distrai, anestesia a razão, a mente, completamente.

Na terceira estrofe, percebe-se a antítese entre o sentir e o pensar, o coração e a razão, “calhas de roda” e “comboio de corda”.

É nessa terceira estrofe que se obtém a chave para a compreensão “total” do sentido: a razão (décimo verso) é comparada às calhas de roda (nono verso) evocando a idéia de algo mecânico, sistemático que tem um funcionamento lógico como um trilho—guia projetado para guiar uma roda; ao passo que coração (décimo—segundo verso) é comparado com comboio de corda (décimo—primeiro verso) que “gira, a entreter a razão”, o coração—comboio—de—corda gira nas calhas de roda da razão.

Aqui as imagens tornam-se menos nebulosas quando associamos esses novos elementos com o que já foi possível perceber do sentido. Uma possível sinonímia para “comboio de corda” seria trem de corda, trem de dar corda, um trenzinho de brinquedo que, como um relógio de corda, é necessário enrolar-lhe a corda, a fim de que o trenzinho comece a andar.

Assim, comboio de corda é trem de corda, que é também trenzinho de brinquedo, isto é, um trenzinho de mentira (de mentirinha). Novamente percebemos a repetição do elemento fingir—mentir.

O poema dá espaço para inesgotáveis considerações dessa natureza, pois os semas são também inesgotáveis. Portanto, partamos para as considerações sobre o sentido propriamente dito.

Sentido

Podemos dividir o poema em duas partes. A primeira parte engloba as duas primeiras estrofes, onde o poeta explica a relação entre e emissor (poeta) e o receptor (leitor) de forma racional e denotativa; a segunda parta engloba apenas a terceira estrofe (que é também a última), a terceira estrofe simplesmente ratifica a primeira parte do poema (as duas primeiras estrofes) só que de modo conotativo e metafórico.

O assunto referendado pelo poema é o processo de construção poética, como é facilmente percebido após uma leitura atenta. Trata-se de um metapoema.

As duas primeiras estrofes (a primeira parte) suscitam um imediato, porém aparente, paradoxo ou contradição: o poeta finge que sente a dor que sente realmente; o leitor sente uma dor, não as duas que o poeta teve (a que ele sente e a que ele não sente) mas a que o leitor não tem. São muitas as dores. Para compreendermos esse cruzamento de elementos que no plano semântico parece evocar uma contradição recorreremos ao recurso da paráfrase.

Paráfrase

O poeta sente a dor, (a dor sentida [1]), o tempo passa, o poeta resgata em sua mente a dor sentida (a dor resgatada, recuperada, trazida à consciência [2]) e registra-a no poema (a dor escrita, registrada no papel, “o que escreve” [3]), o leitor lê “o que escreve” (a dor escrita) e tem percepção da dor do poeta (a dor lida, “na dor lida sentem bem” [4]), o leitor sente não as duas dores do poeta, mas a que ele (o leitor) não tem (a dor sentida pelo leitor, “a que o leitor não tem”, um vislumbre, a pontinha do iceberg da dor que o poeta sentiu). E depois, encerrando, é como se o poeta dissesse que “o coração tem razões que a própria razão desconhece”.

Conclusão

O poema “Autopsicografia” nos é apresentado como verdadeira arte poética e Fernando Pessoa, cuja intenção é referendar no próprio objeto criado o processo de criação da arte em geral, mas essencialmente o seu próprio.

“Autopsicografia” é metapoema. O poeta se propõe a psicografar o processo de elaboração poética de um outro eu que é ele mesmo (ou talvez seu “daemon” pessoal), apresentado na feição de um eu lírico que se distancia do próprio eu existencial, numa referência à problemática do desdobramento (“meu nome é Legião”) tão sua cotidiana. Este desdobramento que está na gênese da dispersão heteronímica do poeta pode ser entendido como versão amplificada do fingimento que fundamente o ato da manifestação poética, ou pode ser entendido como a manifestação direta de vários “daemons” diferentes com personalidades diferentes, mas por outro lado, o fingimento em que se constituem os heterônimos de Fernando Pessoa, se processa exatamente a partir da operacionalidade promovida pelo poeta na intersticialidade do eixo pensar/sentir sobre o qual organiza o projeto do seu universo poético.

[Você nem sabe do que está falando, meu filho!]