A Cicatriz de Auerbach

Denny Marquesani
IEL-II, 2002

A partir do episódio bíblico sobre o sacrifício de Isaque (Gênesis 22) e a narrativa homérica da cicatriz de Ulisses (Odisséia, canto XIX) conforme apresentados em seu ensaio, Auerbach destaca algumas características que alternadamente vão constituir dois tipos fundamentais de propostas efetivas de representação literária da realidade de duas sociedades distintas que querem ser retratadas pela literatura: na Odisséia¸ o narrador busca a maior clareza possível, a descrição é modeladora, o todo é iluminado. A atitude e a fala dos personagens são unívocas sem ambigüidade, os personagens não se desenvolvem no tempo, aparecem com determinadas características e permanecem assim, Ulisses permanece Ulisses desde o princípio até o final, não vai adquirindo novas características no decorrer do tempo. A narrativa é apresentada como lenda na qual não há necessidade de interpretação, pois trata-se de um mundo fechado onde tudo que aparece é iluminado e exposto.

 

No episódio bíblico não há a busca por clareza, muito fica implícito. A descrição é sucinta e incompleta. O narrador realça a parte e obscurece o todo. Há uma multivocidade, uma ambigüidade. Os os personagens vão adquirindo novas características no decorrer do tempo. Não só no episódio do sacrifício de Isaque, como também em outros, como por exemplo, a narrativa sobre Jó, na qual é narrado, entre outras coisas, um desafio à soberania divina levantado pelo Diabo que teve fortes repercussões na forma de diversas provas sobre Jó que vai aprendendo e se modificando como reação a essas provas, embora preservando sua fé. Mesmo não fornecendo muitos detalhes, fazemos uma imagem do que é narrado. Esta narrativa tem uma pretensão à verdade, por isso se aproxima em muitos pontos da história. É narrada como se fosse a história verdadeira. No entanto exige do leitor interpretação, pois trata-se de um mundo aberto, onde apenas partes são a cada momento iluminadas, não temos uma noção do todo.

 

“Os dois estilos representam, na sua oposição, tipos básicos: por um lado (na Odisséia), descrição modeladora, iluminação uniforme, ligação sem interstícios, locução livre, predominância do primeiro plano, univocidade, limitação quanto ao desenvolvimento histórico e quanto ao humanamente problemático; por outro lado (na Bíblia), realce de certas partes e escurecimento de outras, falta de conexão, efeito sugestivo do tácito, multiplicidade de planos, multivocidade e necessidade de interpretação, pretensão à universalidade histórica, desenvolvimento da apresentação do devir histórico e aprofundamento do problemático.”