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“Colaboração Hostil” na Empresa
Elyseu Mardegan
Júnior Esta não é minha função! Eu não sou pago para fazer este trabalho! Certamente, você já ouviu pelo menos uma destas frases na sua empresa, que ilustram exemplos de atitudes hostis que temos vivenciado diariamente, não importando o nível hierárquico do trabalhador. Por que no momento em que as empresas mais necessitam de colaboração, cooperação e criatividade, solicitando a todos que “vistam a camisa da empresa”, ainda encontramos situações, e não raras, em que permeiam a má vontade para ajudar, ou o que é ainda pior, a atitude que denominaremos daqui por diante de “colaboração hostil”? Refiro-me à situação em que a cooperação e a colaboração são impostas por hierarquia, poder, dinheiro etc. e que cria ambientes tensos de trabalho, a ponto de fazer surgir atitudes extremas e opostas ao objetivo pretendido, como a desconfiança, desarmonia e hostilidade. Por que as empresas começaram a supervalorizar características pessoais que sempre foram a “marca registrada” da mão-de-obra no Brasil, que nos deram, em muitas ocasiões, vantagem competitiva importante em nível mundial? Hoje, o país que sempre se orgulhou de possuir o famoso “jeitinho brasileiro”, que presume alta criatividade e colaboração, que eram características perfeitamente identificáveis nos profissionais brasileiros no início de nossa industrialização, precisa redescobrir tais valores tão carentes nos profissionais. Por que saímos desse estágio de evolução da nossa capacidade de acreditar, de ajudar e de colaborar e evoluímos para nos tornarmos doentes crônicos da “síndrome de Gerson”? Quais as alterações que ocorreram nesse período, que acabaram por resultar nessa modificação de comportamento das pessoas na sociedade, e também, nas empresas, que é o objeto de análise deste artigo? A questão pode ser analisada sob três enfoques interdependentes: (1) sindical, (2) estrutural e (3) social. É inegável que o crescimento do movimento sindical no Brasil retirou grande parte da característica escravagista existente na relação capital × trabalho, na medida em que estabeleceu limites de direitos e deveres para os trabalhadores e patrões e com isso enrijeceu o campo de ação do trabalhador na empresa, tornando-os menos flexíveis, mas em contrapartida mais conhecedores das regras do jogo. Por outro lado, algumas alterações estruturais ocorreram nas empresas, contribuindo, e muito, para o crescimento da “colaboração hostil”. A alteração mais marcante se deveu à infinita especialização das funções do trabalhador na empresa. Hoje e por longo tempo, a sociedade criou necessidades que impulsionaram as empresas num processo crescente de especialização e descentralização das funções. Tivemos como conseqüências a rotinização do trabalho e o declínio do estabelecimento de características individuais na execução de tarefas. Perdemos a visão global e nos tornamos acéfalos no processo de produção. Por trás de todo este cenário, resta-nos ainda a questão da divisão de poder resultante da especialização, agravada pela crescente competição por melhores salários e posição, alimentada pela maioria das empresas. Se por um lado fomos incentivados cada vez mais a nos tornarmos especialistas, por outro observamos ao nosso redor um aumento da competição, resultante da divisão do poder nas empresas e, evidentemente, seria utópico acreditar na coexistência pacífica e harmônica nesse ambiente. Mas, sem dúvida, foram as mutações ocorridas em nossos valores morais e sociais que agiram de forma mais decisiva na formação deste estereótipo. Passamos os nossos dias pensando em como vencer, progredir e fazer sucesso no trabalho e na nossa vida social e nos esquecemos de ser fiéis às nossas crenças e valores mais íntimos e só quando estes são ameaçados explicitamente é que clamamos por uma sociedade mais humana, menos materialista e violenta. Mas continuamos a alimentar o egoísmo, o individualismo e a indiferença que imperam hoje em nossa vida cotidiana, preocupando-nos apenas em levar vantagem em tudo e sobre todos. Os problemas que vivenciamos nas empresas são apenas reflexos deste consciente coletivo degenerativo que permeia a nossa sociedade e que ajudamos diariamente a construir, com pequenas atitudes e exemplos que nos passam despercebidos, mas que nos tornam cúmplices da cruel realidade social que enfrentamos hoje como nação. –– Elyseu Mardegan Júnior é engenheiro com pós-graduação em Administração de Empresas na FGV.
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