Representação Teatral: a Comédia Antiga

Denny Marquesani
LG-IV, 26 de agosto de 2003

 

Procure a ordem secreta
 por de trás do caos!

Para Aristóteles mimhsiV (mímesis, imitação) é um postulado ou princípio evidente por si mesmo no sentido kantiano. É impossível definir mimhsiV, mas é possível refletir sobre esse conceito. “Toda poesia é mimhsiV”, diz Aristóteles.

A comédia mimetizou muitos procedimentos da tragédia, com uma finalidade distinta. Surgiu reaproveitando os elementos trágicos, reorganizando-os parodicamente.

A origem da tragédia e da comédia deita suas raízes na fonte popular: procissão do phallus, embriaguês dionisíaca, canto de estrofes líricas, sacrifício do tragoV (tragos, bode) e parressia (liberdade absoluta da palavra).

Uma primeira parte era o culto da morte do deus sparagmos representado no bode expiatório. A segunda parte celebrava o alegre renascimento do herói. E isto teria dado origem à Comédia.

 

As seis partes da representação teatral.

Aristóteles menciona as seis partes de uma representação teatral: dianoia, (diánoia, elemento intelectual conceptivo), muqoV (mýthos, epopéia, história, enredo — correspondendo ao romance de hoje), eqoV (ethos, caráter das personagens, índole), oyiV (ópsis, espetáculo), melos (música), lexiV (léxis, discurso poético). Demonstrando a superioridade do teatro com relação ao “romance”, porque o “romance” não tem música.

Ezra Pound (salto conceitual) substitui os três últimos elementos por conceitos que, para ele, estariam também na épica e na lírica: oyiV por fanopéia (apelo visual pela imaginação), melos por melopéia (audição), e lexiV por logopéia (o "balancê" das palavras escolhidas). Fernando Pessoa proporia também um outro elemento, a noopéia.

Para Aristóteles, o confronto da comédia com a tragédia inferioriza a primeira, pois a comédia pinta homens "inferiores", ao passo que tanto a tragédia quanto a epopéia objetiva a excelência na conduta humana. Northrop Frye segue de perto esse critério.

Partes da Comédia Antiga

1. prologouV (prólogo): introdução do problema que a narrativa vai desenvolver: contém um diálogo sobre questões preparatórias. É uma introdução à intriga da comédia. O prólogo termina quando entra em cena o coro.

2. parodoV (párodos): é a entrada festiva do coro em cena que vai multiplicar as cenas e verbalizar novos episódios. O coro faz evoluções na orquestra (círculo no centro do teatro) e representa uma personagem que possui geralmente um caráter alegórico, emblemático (ex.: as nuvens de As Nuvens de Aristófanes).

3. parabasiV (parábase): é uma espécie de intermezzo (intervalo) em que a intriga se suspende e o corifeu (representante do coro) faz um discurso longo em anapestos, em que ele mesmo representa o autor da peça, que fala sobre o valor do seu trabalho, fala de política, dos costumes sociais et cetera. Findado esse discurso anapéstico, uma parte do coro declama uma estrofe lírica e outra parte uma antiestrofe. Finalmente a parábase se encerra e a intriga se reenlaça em sua seqüência episódica.

4. agwn (agón, luta à agonia): trata-se de uma competição entre aqueles que serão definidos como herói e vilão. É claro que o herói vence, pois a comédia é um gênero moral, o coro provoca os contendores ou faz o mesmo tipo de intervenção poética que ocorre na parábase. Na verdade a guerra, a rivalidade estão no centro da representação helênica do mundo.

5. Depois do agwn temos mais alguns episódios para fechar a história.

6. exodoV (éxodos, êxodo: saída dos atores, geralmente com komos ("grupo carnavalesco").

 

Natureza da Personagem Cômica

Bergson diz que onde o cômico aparece, desaparece a postura emocional e se cria a visão do automatismo da vida. Rimos quando alguma coisa dá no contrário do que deveria dar. O riso vê o mundo pelo avesso. A personagem cômica vive em função de desemocionalizar as relações humanas através das evasões de humor. A personagem cômica tem muita relação com o abstrato na medida em que a sua atitude busca sempre uma evocação fora do contexto. As pessoas riem dela ou por causa dela. O perigo que corre a personagem cômica, ao contrário da personagem séria é ser esvaziada pelo autor, na medida em que o autor a transforma num mero instrumento de riso. Essa personagem vive em função do exterior, não parece feita de carne e ossos. Por isso os heróis não podem cair no ridículo sob pena de se destruírem. Enfim, a personagem cômica tende a ser plana (não evolui) e não redonda (evolui). Entretanto, por outro lado, é nessa personagem que reside a combatividade satírica do autor, a razão de ser da comédia.

 

Tipologia das Personagens da Comédia

1. Eiron (daí ironia): é a personagem que esconde o seu real valor (o cara que se mostra muito inferior ao que é (ele é humilhado: o Incrível Hulk).

2. Bomolókhos: é o protagonista parlapatão (bobão, trouxa, bola-fora, canaleta) que só faz trapalhadas, algumas das quais dão certo.

3. spoudaiouV (spoudaíos): que se esforça, é o protagonista da iniciativa social, marcado por uma certa liderança.

4. ponhroV (ponerós): aquele que tem uma imagem superior de si mesmo e se esforça muito para não conseguir nada, (paquera pacas mas não ganha picas).

5. alazwn (alazón): é o próprio vilão, símbolo da dissimulação e da hipocrisia.

6. farmakoV (phármakos): é o bode expiatório que paga pelo que não deve.

 

Crítica de Aristófanes

O camponês Estrepsíades casou-se com uma mulher aristocrática. (Gente agrária não deve se misturar com gente da cidade.) Estrepsíades vê o mundo urbano ingenuamente. Na sua simplicidade acredita na ilusão de que poderia aprender com Sócrates o poder do discurso injusto para vencer as causas. Tolamente pensando ser capaz de dominar o discurso filosófico como ferramenta para não pagar suas dívidas. Ele sabe que quer fazer algo injusto, no entanto ele quer utilizar a palavra bem articulada do discurso e convencer seus credores.

Toda a trajetória de Estrepsíades no prólogo deixa transparecer uma crítica de Aristófanes à ordem do discurso. Argumento central de Aristófanes é a valorização da tradição, das formas consagradas de se resolver os problemas. Ele apela para o mito ao invés da lógica, é pratico e não teórico, tem uma concepção do mundo onde o que interessa são os fatos e não a aventura das idéias. Além disso, Estrepsíades em sua simplicidades de agroikos vai adulterar uma das idéias básicas do sofista Protágoras, para quem em toda causa havia dois discursos, o forte e o fraco. Protágoras pensa que em toda discussão há o discurso fraco e o discurso forte. O discurso forte é o que é capaz de vencer independentemente da moralidade da questão tratada.

O pensamento de Protágoras influenciou muito a cultura ocidental: Darwin, Hegel, Marx, luta dos opostos. No fundo esta idéia da expressão do mundo como guerra vem de Heráclito.

Estrepsíades julgava que havia uma fórmula do discurso forte. Que o discurso forte é dado por uma receita. Ele queria, com o discurso forte, não pagar suas dividas.

Toda história é uma desistória. Há caráter fragmentário em toda boa história. Não pagar a dívida vai ser substituído por uma ampla questão educacional em Atenas.

Os objetivos mesquinhos de Estrepsíades serão provisoriamente suspensos pela emergência duma questão mais ampla que é a educação, e que nós poderíamos simplificar na formula modernidade × tradição. Grécia às vezes é substituída pelo substantivo comum paidéia. Aristófanes estava do lado da Paidéia, defendendo o paideuma grego.

É sensível a mudança de Estrepsíades a partir do momento em que procura Sócrates. Até então não passava de um agroikos, de um bomolókhos (que corresponde ao bobão, ao parlapatão), ora, nas cenas epirrematicas (que são essas cenas dos episódios burlescos que não são propriamente conversa), ao contrário, ele se mostra capaz de argúcias, o que nega o postulado inicial do seu caráter e nos faz pensar em inverossimilhança.

Acontece algo muito curioso com Estrepsíades. porque depois da primeira parte do prólogo, a conversa com os discípulos nas cenas epirrematicas porque são propriamente versos, o discurso do Estrepsíades se modifica. Por exemplo, quando ele diz "ah então o rabisteco do mosquito é uma trombeta? Seja ele três vezes bem aventurado..." Que mais a estranhar? Quando ele vê um mapa, parece conhecer um pouco de Geografia e de Política. "...sim eu vos venero augustíssimas, tanto que desejo responder com flatulências aos vossos trovões ... quer seja licito, quer não seja licito, tenho vontade de aliviar-me agora mesmo."

Apesar de toda grosseria, é um Estrepsíades inteligente que está' em cena agora diferente do Estrepsíades do prólogo. Então o que aconteceu? Quando uma coisa dessas acontece, nos perguntamos: ah, então a personagem é redonda? Porque quando a personagem muda, dá saltos, ela sai do plano e começa a se arredondar. Será que Estrepsíades virou personagem redonda? Na comédia isso é muito difícil. A comédia pode ter personagem redonda? O que será que aconteceu? será que Aristófanes resolveu mudar de tática? De qualquer forma, mudando de tática ou não, seja qual for a causa, Estrepsíades teve uma mudança inesperada; e as mudanças inesperadas num contexto de uma peça não são bem-vindas. Em raros casos as mudanças já são aguardadas, não uma mudança bruta e absoluta no caráter, mas uma mudança que já esteja nos prognósticos, nos postulados lançados na peça. Nós não podemos ver uma obra literária entrar em contato com uma personagem inicial estabelecendo um postulado de caráter, de comportamento e lá pelas quantas, essa personagem, por exemplo, faz uma coisa que ninguém esperava que fizesse, não estava no prognóstico, de tal maneira que a atuação fica inverossímil, produz um mau efeito artístico. Então, por incrível que pareça o bom efeito artístico se dá quando a personagem sempre faz coisas que nós de certa forma já estávamos precavidos para saber, quando a personagem faz uma coisa que nos surpreende totalmente, o efeito estético não é bom. Estrepsíades mostrando-se agora tão astuto, tão inteligente como ele não se havia mostrado antes, ele é um agroikoi que não consegue entender nada e quer aprender o discurso justo e o discurso injusto, ele é muito ingênuo,e de repente dá' esses saltos, e nós chamamos esses saltos provisoriamente de uma certa inverosimilhança.

Como é que podemos entender essa mudança de Estrepsíades? Estamos entendendo provisoriamente como uma coisa inverossímil no contexto da comédia. E de que outra forma poderíamos ainda entender? Porque se nós dissermos que por certo é inverossímil, temos que imaginar que Aristófanes falhou, e As Nuvens é uma das obras-primas dele, não falhou em nenhum momento, ele escreveu duas vezes esse trabalho, não falhou, mas estamos usando uma palavra que indica falha por parte de Aristófanes que é a palavra inverossimilhança.

A inverossimilhança acontece quando algo ocorre e não deveria ocorrer no contexto da obra. Então, digamos que aí ocorre um estranho caso de Dialogismo, não inverossimilhança, mas um estranho caso de Dialogismo.

Agora temos que transportar a questão da inverossimilhança para o Dialogismo, na verdade não é inverossimilhança, é um efeito semelhante que pode ser explicado através do Dialogismo.

O Dialogismo, segundo consta, foi formulado pelo filosofo e teórico da literatura Mikhail Bakhtin. Bakhtin é talvez a figura mais importante do século, junto com Jakobson nos estudos da linguagem, do chamado formalismo russo.

Bakhtin foi amigo e recebeu influência de um grande pensador judeu do século passado chamado Martin Bubber. Bubber era um erudito judeu preocupado muito com a questão do construção de um mundo, de uma sociedade, pan-semítica em que fizessem parte os árabes e os judeus numa confraternização total, depois as suas idéias não vingaram e a coisa acabou se transformando. Mas a tese fundamental do Bubber, a idéia de que essa crença louca que temos no sujeito está' errada, sobretudo a partir de Descartes, nós temos uma crença no baluarte do sujeito a ponto de acharmos que a categoria fundamental da Cultura e da História, ou é o nosso social ou é o eu. O nosso social para doutrinas como do marxismo, do evolucionismo num plano mais grosseiro que acha sempre que o conjunto pressupõe os indivíduos e os indivíduos são mediados pelo conjunto. Quando não é isso. Seria o eu sempre como mediação constituindo a sociedade: eu constituo os meus amigos, eu faço as minhas escolhas, eu organizo minha vida, eu tenho o meu projeto. O existencialismo, ainda, veio dar uma força muito grande a essa dimensão cartesiana da análise da consciência baseada no eu, e sem duvida, o capitalismo moderno valorizou muito essa visão de que o eu é que constitui a vida. O existencialismo diz que quem morre sou eu. Há uma experiência da morte que só o eu pode sentir, da doença que só o eu pode sentir. O eu na Psicologia, nas Ciências Sociais estava muito solidificado como organizador do mundo, quando Freud começou escrever trabalhos sobre a Patologia Mental, já' começa a haver uma implosão nessa certeza de que o eu é tão forte assim, já começa a se falar em id, em inconsciente, em superego; categorias que mostrariam que esse eu, se ele reina, reina sobre um porão de lixo que é o nosso inconsciente . Ele (o eu) não é tão grandioso assim.

Mas a idéia de Bubber era mais arrojada que a de Freud. Porque Freud estava simplesmente negando o eu sem propor nada em seu lugar, estava mostrando apenas os porões do ego. Bubber, ao contrário, vai mostrar que o eu só existe na parte de uma estruturação interna dada pelo tu. Fazemos esforço a nossa vida toda para mostrar nosso perfil, para imprimir nossa personalidade em tudo, às vezes na crença de que esse eu é realmente soberano, mas esse eu não é soberano, estruturalmente ele (o eu) depende do tu, tanto quanto o tu depende do eu. E se nós temos a impressão contrária é apenas por uma questão alienante, apenas porque alienamos da nossa esfera a presença do tu, ou afirmamos a supremacia do eu, mas estruturalmente não é assim. Então, Bubber vai dizer que a única solução política para todo o problema do desentendimento humano (problema da alienação, problema da eclosão de guerras, crises internacionais, tudo isso por falta do diálogo, por falta do exercício do diálogo) é o diálogo, o exercício do diálogo. Mas, não o diálogo em que eu me aproximo de alguém e falo: “vamos agora dialogar sobre alguma coisa”, não interessa sobre o que você vai dialogar, o referente, como se diz em linguagem. O que importa é o diálogo impensado em que você esteja interessado em ouvir, em fazer o tu atravessar você, seja que assunto for, o importante é que esse tu recupere a dimensão que ele merece no seu eu. E assim nós teríamos uma possibilidade de começar a mudar esse planeta. Bela idéia!

Essas idéias vão ser até desenvolvidas (embora um pouco à contra-mão) pela Escola de Frankfurt através da noção de Discurso Comunicativo tentando resolver essa questão que as revoluções não conseguiram resolver.

Bakhtin já tinha a noção do Dialógico estabelecida que é a noção do Bubber. Ele vai partir para a Literatura já fazendo uma drástica seleção na História da Literatura Mundial. A História da Literatura Mundial está completamente dominada pela primeira pessoa, é o chamado narrador em primeira pessoa. Ou então da terceira pessoa, o narrador em terceira pessoa. Ou eu falo de mim, como narrador num romance ou poema lírico, ou eu falo dos outros e não com os outros; eu falo dos outros em terceira pessoa, eu falo da coisa.

O Bakhtin vai procurar então valorizar em seu estudo aquelas obras literárias e aquele tipo de tradição em que o eu é fantasmagoricamente atravessado pelo tu, ou seja, ele vai prestigiar as literaturas dialógicas. Um autor que desmonte o eu é sempre bem-vindo por Bakhtin. Mas como desmontar o eu ? Um autor que mostra os abalos na certeza do eu, a imoplosão do eu e a emergência de um tu, esse é o autor que o Bakhtin prestigia como achando que pertença a um tipo de literatura mais realista, mais atenta à Verdade do mundo. Por exemplo, o autor que ele prefere é o Dostoievski. Ele não conhecia o Machado de Assis, então ele preferia o Dostoievski.

No Dostoievski é comum, por exemplo, o discurso monocêntrico, uma personagem faz um discurso bonito que nós admiramos e estamos prontos a aplaudir. Mas o próprio método do Dostoievski, chamado método polifônico faz com que Sonja quando toma a palavra faça um discurso tão belo e tão negador desse primeiro discurso que o implode. Aí, Raskolnikov faz um outro discurso que implode o da Sonja, então todo mundo, parece, quando faz um discurso tem a sua grande razão, a grande vitória do ego, mas aí vem um outro discurso que implode o anterior que implode o anterior, então, em Dostoievski, há um Verdadeiro território minado no âmbito da personalidade. São minas que explodem, que arrebentam aquilo que parecia o Esplendor do ego, mostrando que a Verdade está mais abaixo, a Verdade está numa interação polifônica dos discursos de todas as pessoas. A grande personagem é uma personagem dialógica, demonstra Dostoievski.

Para ter uma idéia rudimentar dessa personagem dialógica, imagine um indivíduo possuído por um espírito, ele fala do seu eu, mas de repente o eu do espírito aparece e fala pela boca do indivíduo possuído e contradiz o que o indivíduo está falando. Isso é o Dialogismo. Ou o esquizofrênico, o esquizofrênico tem duas falas ou mais. Como Rubião, no Quincas Borba, tem duas falas. O Rubião está falando com o Frei, também com outras pessoas e de repente cede sua fala a Napoleão III, e Napoleão III faz um discurso. Isso é o Dialogismo no nível da esquizofrenia (que é estimulado pelo capitalismo). Nós já conhecíamos há séculos o discurso de um indivíduo endemoninhado, possuído pelo Demônio, possuído por um espírito, o Dostoievski vai quebrar essa tradição e vai mostrar que não precisa necessariamente nem de esquizofrenia nem espírito algum, basta uma assumpção do discurso alheio dentro de si. Isso é Dialogismo.

 

No Brasil quem melhor o praticou foi Machado de Assis. Em qualquer um dos seus romances percebemos que a fala de Machado de Assis não é uma fala monocêntrica, não é uma fala todo-poderosa, ela é sempre invadida por uma outra fala que vem do porão, e que é alheia à primeira fala. Mas, não apenas, encontramos esse dialogismo de várias maneiras. Por exemplo, em El Patriarca de Gabriel García Marques, o ditador (el Patriarca) faz discursos todo-poderosos, mas através desses discursos parenteticamente vão surgindo discursos do próprio povo, discursos que se opõem ao dele. Ele faz o discurso para se defender, vai xingar, vai dar ordem, mas no meio do discurso de trambulhada vem o discurso daqueles que o odeiam. É irônico, é dialógico.

Machado teve sempre a fama de ser um autor interior, voltado para a subjetividade, mas não é bem assim. Ao focalizar o interior da personagem, o romancista da subjetividade se vale duma liberdade absoluta, há uma arbitrariedade muito grande no fluxo de consciência dessa personagem. Machado não é essa liberdade do mundo interior, quando a personagem está pensando com seus botões, está naufragada em seu próprio ego. Mas o que é pensa nesse momento? Está sempre pensando nos valores, nas representações sociais que se colocam diante de si em termos de mais e de menos, mais rico—menos rico, mais bonito—menos bonito, nos valores sociais que estão introjetados nela. Essa polêmica dos valores sociais e econômicos se dá no interior da personagem, então o interior da personagem não é mais o ego que se espelha solitariamente num quarto fechado de sua solidão. A Sociedade está lá dentro dela. E esse estar da Sociedade dentro dela, nas cogitações do seus pensamentos, isso tudo é dialógico também. Traz a personagem para fora, lá onde ela mergulha mais dentro de si, sempre dando uma lógica para a personagem.

No Quincas Borba, Machado diz lá num capítulo que poderia perfeitamente ser cortado, não porque é inútil, mas porque não faz parte da essência do drama que ele está contando: uma vez uma senhora estava chorando muito na estrada, porque a sua casa estava pegando fogo, a coitadinha sentada mirava as labaredas lambendo a sua casinha e chorava. Daí chega um senhor que fala: "Dona, essa casa é sua?" “Sim, era tudo o que eu tinha e agora o fogo está levando embora." "Nossa! Então a senhora me dá licença de eu acender um charuto no fogo?"  Jamais esperaríamos que o homem dissesse isso, "a senhora me dá licença de eu acender um charuto no fogo", mas sim talvez, "coitadinha, eu vou rezar uma missa pela sua casa." Mas ele vem e diz uma coisa dessas. Ficou chocante. Dá vontade de mandar o Machado às favas. Acontece que ele, como narrador, dispõe de um neutralizante para esse choque, o autor de teatro não tem isso, no teatro aconteceu besteira, é besteira mesmo, não dá para consertar, no romance pode, porque o narrador está por trás de tudo, ele encosta o rosto na situação e diz por que aquilo aconteceu. Machado diz que quem lhe contou essa história foi um padre que o educou, e que estava bêbado quando contou. Obviamente foi uma emenda que ele fez na história original, este homem não deveria estar bêbado porque pela cabeça desse bondoso prelado não passaria a idéia de que alguém em sã consciência pudesse tirar vantagem da desgraça alheia. Pobre padre, ele falava, pobre padre, quer dizer, então aquilo que ficou decepcionante, o Machado traz para si e diz: não vá se assustar, tem a sua explicação e diz uma coisa que teria sido traumático durante a leitura e nós poderíamos pensar que seria uma algo inverossímil nessa pena tão delicada do Machado. Mas no teatro não existe isso, no teatro não há narrador para entrar em cena e falar como gostava de fazer D. Miguel de Unamuno. Pirandelo, "Seis Personagens em Busca de um Autor", nem pensar. O que aconteceu está acontecido. Numa Tragédia ou num Drama, de Ésquilo ou de Sófocles ocorre que a personagem já tem o seu caráter, ela começou a sua função, qualquer coisa que acontecer errada, não vai ter narrador para sustentar a barra dela, então ela tem que fazer tudo com uma certa lógica, e o leitor tem que perceber imediatamente essa lógica.

Na Comédia parece que é possível infringir essa lei, ou seja, a lei de que a personagem da Tragédia tem que ser coerente (como no Romance), caso contrário produz o inverossímil, na Comédia pode. Por que na Comédia pode?

 

Perdi um pouco o foco. Depois arrumo melhor.

 

 

Adrados, Francisco Rodrigues. Fiesta, Comédia y Tragedia.

Aristófanes.                           As Nuvens.

Aristófanes.                           As Aves.

Aristóteles.                            Arte Poética.

Assis, Machado de.                 Quincas Borba

Bakhtin, Mikhail

Bergson

Brecht

Bubber, Martin.                       Dialogismo.

Descartes

Dostoievski

Forster

Freud

Frobenius, Leo

Frye, Northrop.                     Anatomia da Crítica. Cultrix.

Galilei, Galileu.

Hegel.                                 Estética (parte de poesia, lições sobre poesia trágica e comédia).

Jakobson, Roman

Joyce

Kafka

Kant

Marques , Gabriel García.        El Patriarca.

Marx.                                     Dialética.

Pessoa, Pessoa

Pirandelo

Pound, Ezra

Rodrigues, Antonio Medina.

Sócrates.                             Coleção Pensadores volume Sócrates.

Unamuno , D. Miguel de

Wittgenstein

Sofística. Dialética. Retórica.

"Rock"

Escola de Frankfurt -- Discurso Comunicativo

Sob o Prisma Russo. Edusp. Biografia do Bakhtin