Conflitos nas Relações Humanas

Luiz Oliveira Rios
 

O silêncio é o confronto mais produtivo que existe: basta saber quando e como usá-lo

Não são apenas as características físicas que diferenciam uma pessoa da outra. Cada pessoa é diferente da outra em absolutamente tudo. Semelhanças existem, às vezes incluindo os traços físicos, porém, cada indivíduo é um ser único.

No que diz respeito à maneira como cada pessoa percebe o mundo ao seu redor, conviver com aqueles que professam os mesmos pontos de vista que os nossos é muito fácil, até romântico, mas altamente desestimulador, principalmente quando a convivência já se acomodou tanto que nem mais um singelo questionamento é ousado por qualquer um dos agentes. Já que o outro também percebe como eu percebo, ótimo. É melhor continuar navegando em águas tranqüilas a gerar conflitos.

Nem sempre isso é ótimo, pois acaba gerando estagnação.

O confronto é necessário para o crescimento do indivíduo como pessoa e como profissional.

O confronto, nesse contexto, não significa –– como talvez pareça –– ter-se animosidade contra alguém, ou contra as idéias desse alguém. Mas infelizmente quase sempre estamos indo contra quem pensa ou age diferente de nós, daí o surgimento do confronto litigioso (o que gera conflitos) ao invés do confronto produtivo (o que gera soluções). Mas, que diabo, qual é a diferença? É muito simples a identificação de um e de outro. O confronto litigioso –– o fator bem comum em quase todas as reuniões empresariais (e familiares) ––, ocorre quando nos posicionamos contra outra pessoa, ou contra determinada idéia, pelos seguintes motivos:

¾ nunca fui “com a cara do João” (portanto, tudo o que ele disser será usado contra ele);

¾ a idéia ventilada agride a minha maneira de pensar, logo devo ser visceralmente contra;

¾ nunca vi (ou ouvi) isso antes, portanto é melhor manter a minha “velha opinião formada sobre tudo”.

No confronto litigioso a dose de agressão mais forte é dirigida contra a outra pessoa (passe a observar, por exemplo, algumas reuniões na sua empresa e você verá como os ataques, velados ou abertos, são endereçados a alguém). No meio político, então geralmente cada um está armado até os dentes contra o outro.

E qual é, então, o perfil do confronto produtivo? Temos as seguintes características que formam essa modalidade de confronto:

¾ abordagem positiva ao oponente (ex.: ao invés de dizer “não concordo com a sua opinião”, pondero sobre a opinião alheia e, ao emitir meus comentários, introduzo o meu próprio ponto de vista e imediatamente questiono o outro sobre a forma como ele vê esse mesmo assunto, agora enfocado sob outro ângulo. Essa maneira de agir também recebe o nome de “abordagem assertiva”),

¾ refuto as afirmativas do outro utilizando-me de provas cabais do contrário, ajudando o outro a enxergar o seu erro de raciocínio e deixando-lhe uma saída honrosa para reformular o seu ponto de vista (ex.: numa reunião de vendas, o meu subordinado “a” diz que não vendeu mais porque os concorrente tinham melhores preços. No entanto, meu outro auxiliar, “b”, realizou ótimas vendas, provando justamente o contrário. Num confronto litigioso, eu simplesmente diria: “a”, você é uma besta! Isso é desculpa para não vender?” (às vezes dá vontade de dizer isso, não é mesmo?) Como sei que a melhor alternativa é partir para o confronto positivo, digo algo mais ou menos assim: “a”, tenho em mãos o relatório de vendas de “b” e, conforme constatei, o volume de vendas foi ótimo. Vamos ouvir o que “b” tem a dizer sobre isso. Creio que eu e você vamos aprender muito”.

Devemos também ter a coragem de, numa troca de questionamentos, eventualmente reconhecermos que os argumentos do outro são melhores que os nossos. Às vezes a besta de carga somos nós! Precisamos, então, aceitar o jogo da verdade e admitir que estamos errados. Afinal, certo pensador já disse há muito tempo: “todo homem, ao longo do dia, tem cinco minutos de completa imbecilidade”.

O problema maior é que muita gente, infelizmente, passa as 24 horas do dia em transe hipno–idiota.

Não é o seu caso, pois não?

Quando for o caso de fazermos confrontos duríssimos –– e há ocasiões nas quais não devemos contemporizar mesmo ––, devemos fazê-lo sem atos ou palavras que maculem a nossa dignidade. A sabedoria milenar nos ensina que a “boa palavra, no tempo certo, é como maçãs de ouro numa bandeja de prata”.

Essa mesma sabedoria também nos ensina que, às vezes, o silêncio é o confronto mais produtivo que existe.

Saiba quando usá-lo.

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Luiz Oliveira Rios é presidente da Associação Comercial e Industrial de Descalvado (SP)