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Leitura, Análise, Comentário e Interpretação do Poema Consideração do Poema à Luz do Procura de Poesia de Carlos Drummond de Andrade Denny
Marquesani “Furto
a ‘Wisnik’
Desde o início Drummond trouxe à luz poemas que impactaram crítica e leitores, porque boa parte deles não obedecia às poéticas tradicionais paradigmáticas. De maneira a explicar essas suas peculiaridades, sua poesia está permeada de reflexões teóricas que constituem uma verdadeira poética de Carlos Drummond de Andrade, o caminho das pedras para a compreensão de sua poesia. Uma dessas reflexões é o metapoema “Consideração do Poema”, abaixo transcrito, que integra o livro Rosa do Povo de 1945. Livro que apresenta parte de sua poesia engajada, que repercute suas reflexões sobre o nazismo, o fascismo, a guerra, a influência política e cultural da Revolução Russa. Poemas que envolvem o desejo de participação, de solidariedade, resistência antifascista. Rosa do Povo é, portanto, um livro extremamente complexo onde uma poesia engajada se faz de maneira não-panfletária ao lado de poemas líricos, memórias de infância, metapoemas, poemas reflexivos e densos, poemas sobre acontecimentos do momento mundial e nacional. O momento político brasileiro, que vivia sob o Estado Novo, ressoa também nesse livro. De maneira nada unívoca, nem simplesmente monocórdica, o livro explicita uma multiplicidade de questões e de tons muito fortes. Nele encontramos um Drummond que experimentando a nova linguagem modernista, leva o Modernismo a dimensões além daquelas alcançadas com Mário e Oswald de Andrade. Um Drummond que se torna a grande voz da expressão do sujeito no mundo, do sujeito solitário da massa ao mesmo tempo voltado para solidarizar-se, embora cético em relação às possibilidades dessa solidariedade humanista, ele a assume, mesmo com todas as dúvidas. CONSIDERAÇÃO DO POEMA
Não
rimarei a palavra sono
Uma
pedra no meio do caminho
Estes
poemas são meus. É minha terra
[20]
Poeta
do finito e da matéria,
Ele
é tão baixo que sequer o escuta
[45]
Como
fugir ao mínimo objeto
Já
agora te sigo a toda parte,
Este poema é constituído de sete estrofes cujos versos variam de 6 a 14, o número de sílabas poéticas é completamente irregular. Essa configuração não se encaixa no que é conhecido como forma fixa, como o soneto, a balada, a sextina etc. É o verso sem medida silábica fixa, de metro livre. Assim, o ritmo vai se modificando e multiplicando, construindo harmonias, melodias, dissonâncias e efeitos intensificadores de sentido. Faz um contra-ponto ao poema “Procura da Poesia”, onde uma estética poética se prenuncia e, neste (Consideração do Poema) se explicita. Os dois são metapoemas, referindo-se à matéria da própria poesia. No “Procura da Poesia”, o poema se estrutura como considerações a alguém que busca apreender o ofício do poetar. Os toques dados a este “tu” imaginário podem ser vistos como um verdadeiro manifesto do que seria o fazer poético, rompendo com as estruturas do convencional. No “Consideração do Poema”, começa com o “eu” lírico explicitando qual seria a matéria de sua própria poesia: seus versos são livres, não amarrados pelas rimas; as palavras bailam num céu com horizontes amplos. Na primeira estrofe é observada essa ruptura com os modelos rígidos que obedecem às formas tradicionais de rima[1], metro e palavras belas, poéticas ou apropriadas, porque, sob essa visão da ruptura, todas as palavras valem. Na segunda estrofe há uma apologia à autotextualidade e à intertextualidade. “Uma pedra no meio do caminho” (verso 9), isto é, uma citação direta, “ou apenas um rastro”, uma influência. Aqui o poeta começa citando a si mesmo[2], mas não apenas, admite incorporar à sua obra outros poetas como se a poesia fosse um continuum intertextual, daí a imperiosa presença do elemento das citações, influências e apropriações, porque tudo, no final das contas, é imitação[3]. Indicando que a poesia é uma “força ativa” que vaza pelos poetas. Como é sempre a mesma força, ou tradição poética, elementos comuns vazam por poetas diferentes que vão parecer poemas paralelos, imitações, influências. Depois, na terceira estrofe, elenca os prospectivos conteúdos de sua poesia: coisas comuns, homens comuns, qualquer um em qualquer lugar, alguém do povo em qualquer circunstância. Do jeito que for, do jeito que estiver. Como as coisas e os homens são mesmo. O que desemboca no início da quarta estrofe “Poeta do finito e da matéria” que retrata a nossa realidade ‘real’ do povo do cotidiano, anônimo e simples: nós. Esse verso 31 “Poeta do finito e da matéria” fica vibrando meio reticente, mas fecha com os dois últimos e socialmente engajados versos. A seguir, na quarta estrofe, o poeta tece considerações sobre a efemeridade do poeta e dos homens e a perenidade da poesia. Como se a poesia fosse essa amalgamação de elementos irreconciliáveis: a temporalidade e a eternidade. O poema é o encontro desses dois reinos, o eterno que é o continuum poético e o temporal que são seus assuntos. Essa combinação “antagônica” situa-se num terceiro reino que não é nem eterno nem temporal, mas é o reino da perenidade que só existe no momento em que o leitor lê o poema, atribui sentido às palavras e retira sentido das palavras. O leitor do poema lê a poesia em estado enigmático e faz com que as mil faces de cada palavra apareçam porque ele dá sentido a ela no momento em que a usa. Prosseguindo, na quinta e sexta estrofes, o poeta considera o reflexo desses aspectos temporais e atemporais mais detalhadamente na estrutura do poema pela conjugação de dois elementos: o assunto e a forma. Forma, não no sentido de ‘formas fixas’ como soneto, elegia etc., mas na maneira, no jeito de compor o poema, a escolha e a ordenação das palavras, uma espécie de invenção de linguagem. Portanto, o seu “canto ... é tão baixo que sequer o escuta ouvido rente ao chão” (versos 44, 45 e 46), enquanto assunto; e “tão alto que as pedras o absorvem” (versos 46 e 47), enquanto “forma”, invenção de linguagem. “Os temas” (verso 53), os assuntos “passam”, “mas tu resistes” (verso 54), isto é, a forma, a invenção de linguagem permanece. Até agora o poeta se referiu aos assuntos e à ‘forma’ (no sentido de invenção de linguagem), na sétima estrofe ele passa a considerar a relação do próprio poeta com o poema. Como se uma força poderosa o impelisse ardentemente ao poema. O poeta está em desequilíbrio e deseja ardentemente o poema, mas quando o tem não se equilibra, mas ativa outra força que produz outro desequilíbrio que só se equilibra quando o poeta o perde, então se completa, mas novo ciclo recomeça. Este é o dilema de quem lida com elementos da eternidade, vivendo no domínio da temporalidade: a temporalidade imita a eternidade através do eterno retorno, a eternidade é experimentada em alguns momentos. Por fim, após reticências, o poeta encerra o poema com versos socialmente engajados reiterando sua solidariedade aos elementos do “finito e da matéria”, isto é, da realidade comum, da qual ele próprio também faz parte, embora tenha acesso a esses outros elementos da eternidade. Encarando os dois poemas como sendo uma reflexão teórica, uma prescrição poética, entendemos que a essência da poesia é constituída pela escolha e ordenação das palavras, palavras que antes da consideração de seus significados têm suas sonoridades e vibrações próprias que ao lado de outras produzem efeitos melódicos, onomatopaicos, contrastes, relações de atração e repulsa, nuances que remetem ao sagrado, ao profano, ao majestoso, à música, ao ruído etc., e por outro lado, como as palavras têm “mil faces”, isto é, trazem consigo uma infinidade de significados e possibilidades de combinações, fazem, portanto, referência a elementos da realidade, construindo esse imbricamento de ‘forma’ e significado que captura por um instante a eternidade. Conseqüentemente, a poesia não é só o que o poeta diz, mas é também a ‘forma’ como ele diz.
Bibliografia Andrade, Carlos Drummond de. Poesia Completa & Prosa. 4ª edição. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1977. Achcar, Francisco. Carlos Drummond de Andrade. São Paulo: Publifolha, 2000. — (Folha explica) Candido, Antonio. Vários Escritos. 3ª ed. ver. e ampl. São Paulo: Duas Cidades, 1995. Wisnik,
José
Miguel. Literatura
Brasileira: aula do curso de Letras da FFLCH da USP proferida em 9 de
junho de 2003. [1]
Diz isso explicitamente nos versos de 1 a 4, embora, de fato rime
“sono” com “outono”. [2]
Cita seu próprio poema “No meio do caminho” de Alguma Poesia
de 1930. [3]
Para justificar essa afirmação haveria a necessidade de um profundo
estudo da obra de Drummond, o que não dá para fazer num simples
trabalho de avaliação semestral. Entretanto, é possível citar
alguns exemplos que ilustrem essa afirmação: Drummond retoma textualmente
a si mesmo (autotextualidade) quando cita “No meio do caminho” que
aparentemente é uma citação de Dante Alighieri; e semanticamente
porque “Consideração do poema” é de certa forma também o próprio
“Procura de poesia”. Num outro poema do próprio Rosa do povo,
“Nova canção do exílio”, cita (intertextualidade) Gonçalves
Dias. |