Leitura, Análise, Comentário e Interpretação do Poema Consideração do Poema à Luz do Procura de Poesia de Carlos Drummond de Andrade

Denny Marquesani
LB-I, 8 de agosto de 2003

“Furto a ‘Wisnik’
sua mais límpida ‘interpretação’. Bebo em ‘Achcar’.
Que ‘Antonio Candido’ me dê sua ‘caneta’
chamejante.”
 

 

Desde o início Drummond trouxe à luz poemas que impactaram crítica e leitores, porque boa parte deles não obedecia às poéticas tradicionais paradigmáticas. De maneira a explicar essas suas peculiaridades, sua poesia está permeada de reflexões teóricas que constituem uma verdadeira poética de Carlos Drummond de Andrade, o caminho das pedras para a compreensão de sua poesia. Uma dessas reflexões é o metapoema “Consideração do Poema”, abaixo transcrito, que integra o livro Rosa do Povo de 1945. Livro que apresenta parte de sua poesia engajada, que repercute suas reflexões sobre o nazismo, o fascismo, a guerra, a influência política e cultural da Revolução Russa. Poemas que envolvem o desejo de participação, de solidariedade, resistência antifascista.

Rosa do Povo é, portanto, um livro extremamente complexo onde uma poesia engajada se faz de maneira não-panfletária ao lado de poemas líricos, memórias de infância, metapoemas, poemas reflexivos e densos, poemas sobre acontecimentos do momento mundial e nacional. O momento político brasileiro, que vivia sob o Estado Novo, ressoa também nesse livro.

De maneira nada unívoca, nem simplesmente monocórdica, o livro explicita uma multiplicidade de questões e de tons muito fortes. Nele encontramos um Drummond que experimentando a nova linguagem modernista, leva o Modernismo a dimensões além daquelas alcançadas com Mário e Oswald de Andrade. Um Drummond que se torna a grande voz da expressão do sujeito no mundo, do sujeito solitário da massa ao mesmo tempo voltado para solidarizar-se, embora cético em relação às possibilidades dessa solidariedade humanista, ele a assume, mesmo com todas as dúvidas.

CONSIDERAÇÃO DO POEMA

 

Não rimarei a palavra sono
com a incorrespondente palavra outono.
Rimarei com a palavra carne
ou qualquer outra, que todas me convêm.
As palavras não nascem amarradas,                                            [05]
elas saltam, se beijam, se dissolvem,
no céu livre por vezes um desenho,
são puras, largas, autênticas, indevassáveis.

Uma pedra no meio do caminho
ou apenas um rastro, não importa.                                            [10]
Estes poetas são meus. De todo o orgulho,
de toda a precisão se incorporaram
ao fatal meu lado esquerdo. Furto a Vinicius
sua mais límpida elegia. Bebo em Murilo.
Que Neruda me dê sua gravata                                                  [15]
chamejante. Me perco em Apollinaire. Adeus Maiakovski.
São todos meus irmãos, não são jornais
nem deslizar de lancha entre camélias:
é toda minha vida que joguei.

 

Estes poemas são meus. É minha terra                                       [20]
e é ainda mais do que ela. É qualquer homem
ao meio-dia em qualquer praça. É a lanterna
em qualquer estalagem, se ainda as há.
— Há mortos? Há mercados? Há doença?
É tudo meu. Ser explosivo, sem fronteiras,                               [25]
por qual falsa mesquinhez me rasgaria?
Que se depositem os beijos na face branca, nas principiantes rugas.
O beijo ainda é um sinal, perdido embora,
da ausência de comércio,
boiando em tempos sujos.                                                        [30]

 

Poeta do finito e da matéria,
cantor sem piedade, sim, sem frágeis lágrimas,
boca tão seca, mas ardor tão casto.
Dar tudo pela presença dos longínquos,
sentir que há ecos, poucos, mas cristal,                                     [35]
não rocha apenas, peixes circulando
sob o navio que leva esta mensagem,
e aves de bico longo conferindo
sua derrota, e dois ou três faróis,
últimos! Esperança do mar negro.                                            [40]
Essa viagem é mortal, e começá-la.
Saber que há tudo. E mover-se em meio
a milhões e milhões de formas raras,
secretas, duras. Eis aí meu canto.

Ele é tão baixo que sequer o escuta                                          [45]
ouvido rente ao chão. Mas é tão alto
que as pedras o absorvem. Está na mesa
aberta em livros, cartas e remédios.
Na parede infiltrou-se. O bonde, a rua,
o uniforme de colégio se transformam,                                     [50]
são ondas de carinho te envolvendo.

Como fugir ao mínimo objeto
ou recusar-se ao grande? Os temas passam,
eu sei que passarão, mas tu resistes,
e cresces como fogo, como casa,                                               [55]
como orvalho entre dedos,
na grama que repousam.

Já agora te sigo a toda parte,
e te desejo e te perco, estou completo,
me destino, me faço tão sublime,                                             [60]
tão natural e cheio de segredos,
tão firme, tão fiel . . . Tal uma lâmina,
o povo, meu poema, te atravessa.

 

Este poema é constituído de sete estrofes cujos versos variam de 6 a 14, o número de sílabas poéticas é completamente irregular. Essa configuração não se encaixa no que é conhecido como forma fixa, como o soneto, a balada, a sextina etc. É o verso sem medida silábica fixa, de metro livre. Assim, o ritmo vai se modificando e multiplicando, construindo harmonias, melodias, dissonâncias e efeitos intensificadores de sentido.

Faz um contra-ponto ao poema “Procura da Poesia”, onde uma estética poética se prenuncia e, neste (Consideração do Poema) se explicita. Os dois são metapoemas, referindo-se à matéria da própria poesia.

No “Procura da Poesia”, o poema se estrutura como considerações a alguém que busca apreender o ofício do poetar. Os toques dados a este “tu” imaginário podem ser vistos como um verdadeiro manifesto do que seria o fazer poético, rompendo com as estruturas do convencional.

No “Consideração do Poema”, começa com o “eu” lírico explicitando qual seria a matéria de sua própria poesia: seus versos são livres, não amarrados pelas rimas; as palavras bailam num céu com horizontes amplos. Na primeira estrofe é observada essa ruptura com os modelos rígidos que obedecem às formas tradicionais de rima[1], metro e palavras belas, poéticas ou apropriadas, porque, sob essa visão da ruptura, todas as palavras valem.

Na segunda estrofe há uma apologia à autotextualidade e à intertextualidade. “Uma pedra no meio do caminho” (verso 9), isto é, uma citação direta, “ou apenas um rastro”, uma influência. Aqui o poeta começa citando a si mesmo[2], mas não apenas, admite incorporar à sua obra outros poetas como se a poesia fosse um continuum intertextual, daí a imperiosa presença do elemento das citações, influências e apropriações, porque tudo, no final das contas, é imitação[3]. Indicando que a poesia é uma “força ativa” que vaza pelos poetas. Como é sempre a mesma força, ou tradição poética, elementos comuns vazam por poetas diferentes que vão parecer poemas paralelos, imitações, influências.

Depois, na terceira estrofe, elenca os prospectivos conteúdos de sua poesia: coisas comuns, homens comuns, qualquer um em qualquer lugar, alguém do povo em qualquer circunstância. Do jeito que for, do jeito que estiver. Como as coisas e os homens são mesmo. O que desemboca no início da quarta estrofe “Poeta do finito e da matéria” que retrata a nossa realidade ‘real’ do povo do cotidiano, anônimo e simples: nós. Esse verso 31 “Poeta do finito e da matéria” fica vibrando meio reticente, mas fecha com os dois últimos e socialmente engajados versos.

A seguir, na quarta estrofe, o poeta tece considerações sobre a efemeridade do poeta e dos homens e a perenidade da poesia. Como se a poesia fosse essa amalgamação de elementos irreconciliáveis: a temporalidade e a eternidade. O poema é o encontro desses dois reinos, o eterno que é o continuum poético e o temporal que são seus assuntos. Essa combinação “antagônica” situa-se num terceiro reino que não é nem eterno nem temporal, mas é o reino da perenidade que só existe no momento em que o leitor lê o poema, atribui sentido às palavras e retira sentido das palavras. O leitor do poema lê a poesia em estado enigmático e faz com que as mil faces de cada palavra apareçam porque ele dá sentido a ela no momento em que a usa.

Prosseguindo, na quinta e sexta estrofes, o poeta considera o reflexo desses aspectos temporais e atemporais mais detalhadamente na estrutura do poema pela conjugação de dois elementos: o assunto e a forma. Forma, não no sentido de ‘formas fixas’ como soneto, elegia etc., mas na maneira, no jeito de compor o poema, a escolha e a ordenação das palavras, uma espécie de invenção de linguagem. Portanto, o seu “canto ... é tão baixo que sequer o escuta ouvido rente ao chão” (versos 44, 45 e 46), enquanto assunto; e “tão alto que as pedras o absorvem” (versos 46 e 47), enquanto “forma”, invenção de linguagem. “Os temas” (verso 53), os assuntos “passam”, “mas tu resistes” (verso 54), isto é, a forma, a invenção de linguagem permanece.

Até agora o poeta se referiu aos assuntos e à ‘forma’ (no sentido de invenção de linguagem), na sétima estrofe ele passa a considerar a relação do próprio poeta com o poema. Como se uma força poderosa o impelisse ardentemente ao poema. O poeta está em desequilíbrio e deseja ardentemente o poema, mas quando o tem não se equilibra, mas ativa outra força que produz outro desequilíbrio que só se equilibra quando o poeta o perde, então se completa, mas novo ciclo recomeça. Este é o dilema de quem lida com elementos da eternidade, vivendo no domínio da temporalidade: a temporalidade imita a eternidade através do eterno retorno, a eternidade é experimentada em alguns momentos.

Por fim, após reticências, o poeta encerra o poema com versos socialmente engajados reiterando sua solidariedade aos elementos do “finito e da matéria”, isto é, da realidade comum, da qual ele próprio também faz parte, embora tenha acesso a esses outros elementos da eternidade.

Encarando os dois poemas como sendo uma reflexão teórica, uma prescrição poética, entendemos que a essência da poesia é constituída pela escolha e ordenação das palavras, palavras que antes da consideração de seus significados têm suas sonoridades e vibrações próprias que ao lado de outras produzem efeitos melódicos, onomatopaicos, contrastes, relações de atração e repulsa, nuances que remetem ao sagrado, ao profano, ao majestoso, à música, ao ruído etc., e por outro lado, como as palavras têm “mil faces”, isto é, trazem consigo uma infinidade de significados e possibilidades de combinações, fazem, portanto, referência a elementos da realidade, construindo esse imbricamento de ‘forma’ e significado que captura por um instante a eternidade. Conseqüentemente, a poesia não é só o que o poeta diz, mas é também a ‘forma’ como ele diz.

 

Bibliografia

Andrade, Carlos Drummond de. Poesia Completa & Prosa. 4ª edição. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1977.

Achcar, Francisco. Carlos Drummond de Andrade. São Paulo: Publifolha, 2000. — (Folha explica)

Candido, Antonio. Vários Escritos. 3ª ed. ver. e ampl. São Paulo: Duas Cidades, 1995.

Wisnik, José Miguel. Literatura Brasileira: aula do curso de Letras da FFLCH da USP proferida em 9 de junho de 2003.



[1] Diz isso explicitamente nos versos de 1 a 4, embora, de fato rime “sono” com “outono”.

[2] Cita seu próprio poema “No meio do caminho” de Alguma Poesia de 1930.

[3] Para justificar essa afirmação haveria a necessidade de um profundo estudo da obra de Drummond, o que não dá para fazer num simples trabalho de avaliação semestral. Entretanto, é possível citar alguns exemplos que ilustrem essa afirmação: Drummond retoma textualmente a si mesmo (autotextualidade) quando cita “No meio do caminho” que aparentemente é uma citação de Dante Alighieri; e semanticamente porque “Consideração do poema” é de certa forma também o próprio “Procura de poesia”. Num outro poema do próprio Rosa do povo, “Nova canção do exílio”, cita (intertextualidade) Gonçalves Dias.