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Autobiografia de um Crápula Capitu, 6/3/2004
Livro de Jeanette Rozsas é uma inquietante combinação de ficção, realidade, romantismo e outras surpresas. Autobiografia de um Crápula, São Paulo, Limiar, 2003, 104 págs. De 1986 a 1996, o Brasil passou por várias turbulências peculiares. Plano Cruzado, Collor, plano Brasil Novo, impeachment, anões, Real e por aí vai. Tanto é que de lá para cá, não tivemos um só ano ao qual os consultores e economistas não imputassem a pecha de atípico para justificar seus malfadados conselhos e previsões. Seja como for, entendendo que nossos representantes políticos e líderes são um recorte daquilo que a sociedade é, será que conseguiríamos entender o que se passa no antítipo representado pelo tipo? Podemos tentar. Jeanette Rozsas tenta. Autobiografia de um Crápula é uma inquietante combinação de ficção, realidade, romantismo, suspense, tensão e surpresas ambientada nesse período O protagonista, Rivaldo, singelo moço do interior de Minas Gerais, envolve-se progressivamente com o crime, a ponto de revolver profundamente toda sua família. Ele é condenado e preso, sua mãe morre, seus irmãos tornam-se escravos, suas irmãs prostitutas. E são todos espalhados pelo Brasil. Rivaldo estuda na prisão e torna-se um advogado espetacular. A la Ira do Anjos ou O Reverso da Medalha de Sidney Sheldon, movido pelo ódio, resolve vingar-se, a si e sua família. E a la Na Corda Bamba de Desmond Bagley, metamorfoseia-se em doutor Enéas e depois no juiz João Paulo de Souza. É curioso que nessas reviravoltas todas, o competente acaso produz o prodígio de reunir em São Paulo, quase toda a família e os responsáveis por sua prisão e destruição, armando providencialmente um palco que põe em perspectiva todo seu ódio e intenção de vingança. Inverossímil? Pode ser. Isso me lembra dois episódios curiosos que nos ajudarão a formar um juízo. Conforme me lembro, um barco de pesca japonês é afundado; a guarda costeira salva alguns pescadores, outros não sobrevivem. Os que sobrevivem são presos porque contam a insólita história de uma vaca que caiu do céu e provocou o naufrágio. A libertação só seria considerada quando começassem a falar a verdade, e responder por que afundaram o barco. Tempo depois as agências noticiosas narram que uma vaca descontrolada fora lançada de uma aeronave russa sobre o mar do Japão. A vaca tinha todo um mar onde cair, preferiu cair sobre aquele barco. A outra história é um fragmento de Magnólia, um rapaz, que andava meio deprimido, resolve se matar. Seu pai tinha uma velha espingarda a qual nunca usava, o rapaz a municiona e guarda (planeja usá-la quando for se matar). Quando, de fato, decide o momento (e nem se lembra mais da espingarda), vai ao topo do prédio onde mora. Nesse momento, no apartamento, seus pais estão brigando (como sempre faziam). Ofendem-se, empurram-se, sua mãe pega a espingarda (que sempre estava descarregada, mas não dessa vez) e começa a ameaçar o marido. O rapaz no topo do prédio lança-se para baixo. Enquanto isso, no furor da briga, sua mãe dispara a espingarda. O projétil atravessa o espaço e atinge o coração do rapaz no sincrônico momento em que, caindo, passa pela janela do apartamento. Seu corpo inerte cai sobre um toldo que o salva da queda, mas não do tiro. Isso, sim, parece inverossímil, mas são histórias reais, aconteceram mesmo. Então, Autobiografia de um Crápula é inverossímil? Bem, depois de Matias Pascal, a «chuva de vaca» e Magnólia, ‘nada’ mais é inverossímil. Assim, a autora ‘verossimilmente’ parece construir uma espécie de narrativa que se vale do método alegórico de disfarçar a realidade em ficção para retratar esses elementos políticos, jurídicos e comerciais do Brasil contemporâneo. A cuidadosa escolha dos nomes das pessoas, nomes das empresas, as regiões por onde se dá a trama são escandalosamente reveladores. Ela logra êxito em sua tentativa. É possível entender o antítipo no tipo. Mas, será arte? Autobiografia de um crápula é literatura? É literatura. Tanto quanto Sidney Sheldon, Harold Robbins e tutti quanti o são. Diverte, entretém, informa também. Deveras, é um romance apropriado para ser vendido nessas revistarias e livrarias das estações rodoviárias e ferroviárias. Porque tem a extensão “exata” de uma viagem... Porém, e parece ser exatamente essa a intenção da autora, arte não é. A própria Jeanette indica pela voz de João Paulo, o original, “que adora Cortázar. Aliás, tem especial predileção pelos autores hispano-americanos: Borges, Casares, Garcia Márquez, Quiroga, Vargas Llosa, Puig, Rulfo e tantos outros. Como mesclam o fantástico e o real, que grandes contistas a América Espanhola vem produzindo! Sim, porque o veio não acabou. Tome-se Ernesto Piglia, por exemplo, ainda em plena efervescência criativa; e Fuentes, então! Retoma a leitura de A Auto-Estrada do Sul e mergulha no conto que cresce a cada linha.” É, João Paulo aprecia a literatura arte, não uma literatura “gris..., cor de garoa em dia de fim de outono...” Dizer isso acaba por suscitar uma perturbadora e antiqüíssima questão: que será arte literária, então? É, quem sabe a consideremos numa próxima oportunidade. Notem bem a expressão, “consideremos”, porque responder mesmo, definir o conceito, parece ser inefável. Alguém se habilita? |