Análise e Interpretação
do Poema Barra
 de Alberto Martins

 

Edson Cruz
IEL-I, 2002

 

O poema abaixo é de Alberto Martins, editado no livro “Cais” deste ano de 2002. Poema recentíssimo, escrito em dísticos que nos remetem a estrutura tradicional da elegia (embora não se ajuste a métrica de 1 hexâmetro e 1 pentâmetro, próprios dos dísticos elegíacos), o que nos é reforçado pelo tom de lamento diante da possibilidade da morte anunciada, afirmativamente, no verso (1) e efetivada em imagens poéticas na conclusão do poema nos versos (7) e (8).

 

BARRA

 

1 Por aqui ainda se morre
2 de simples destempero
3 basta ignorar as lajes
4 o vento
5 basta romper a barra
6 em hora estreita:
7-vais-pescar-em-águas-turvas
8 ao som de nenhuma sereia.

(Cais, 2002)

 

O poema é permeado por uma sonoridade expressiva conseguida por meio de aliterações, ora a gerar a sensação de arrebentações freqüentes de ondas, com o uso das consoantes t (oclusiva), p e r ; ora o soprar sibilante do vento com o uso do s , presente em todos os versos , com exceção do (4), onde o vento não soa, mas semanticamente se explicita.

O ritmo do poema se impõe, de forma irregular, acentuado pelas aliterações oclusivas indicadas e pela ausência de rimas, que nos conduzem ao desregramento sonoro de uma arrebentação.

A disposição do poema em 4 dísticos segue a seguinte estruturação argumentativa, já sugerida: no primeiro dístico, versos (1) e (2), há o lamento pela morte, que se torna banal pelo despropósito e ausência de regras. Esse lamento é explicitado pela palavra ainda, como a sugerir que mortes deste tipo não deveriam mais ocorrer, que seriam, portanto, um disparate.

Nos dísticos internos, versos (3) e (4) e versos (5) e (6), enumera-se as razões para tão simples destempero numa enunciação causal que desemboca nos dois pontos do verso (6) e a explicitação do efeito nos versos (7) e (8), que em linguagem poética reverbera e aprofunda imageticamente a constatação do verso (1).

O verso (1), numa primeira leitura, nos remete ao título do poema como sendo o local onde as ações sugeridas se desenvolvem: uma linha de arrebentações de ondas ou a entrada de um porto e suas obstruções. Remissão esta que nos é reforçada pelas imagens distribuídas pelo poema: verso (3), as pedras; verso (4) o vento; o próprio título no verso (5); verso (7) pescar e águas sujas ou profundas; sereia, no verso (8). A imagem criada no verso (6) pode nos sugerir, por uma contaminação de sentidos (espacial x temporal), um momento de maré cheia onde as arrebentações seriam exacerbadas. Por fim, o próprio título do livro em que se insere este poema: Cais.

Ao ignorar ou não se aperceber de avisos naturais que se apresentam aos órgãos dos sentidos (visão e audição), neste lugar marítimo, pode se desembocar no fundo do mar, na morte, sem ao menos vislumbrar uma sereia.

Sabemos que as sereias são seres mitológicos, metade mulher, metade peixe que pela suavidade do canto atraía os navegantes para o fundo do mar, onde eram devorados. Nas imagens suscitadas pelos versos (7) e (8), o incauto é levado a pescar em águas profundas ao som do vento, como um canto hipnótico não percebido conscientemente, mas ao fim, sem nenhuma sereia.

Por outro lado, se considerarmos a palavra barra na acepção de estado de coisas, ou numa situação com algum peso, outros sentidos poéticos se nos apresentam. O poema pode estar se referindo não a um lugar marítimo específico, mas também ao nosso próprio país ou a cidade que o autor habita (São Paulo), ou do momento histórico-social que vivemos.

A complexidade da linguagem poética é que todos estes sentidos se interpenetram no tecido do poema. O poema não diz isto ou aquilo. O poema diz isto, aquilo e tudo o mais que poderia ser apreendido esteticamente do mesmo.

O texto literário exprime a visão do mundo de quem o escreve. Neste sentido, pela imersão atualizante do texto (afinal o livro é deste ano) e de seu “jovem autor” podemos inferir que o lamento que se ergue desta “elegia moderna” é um grito contra o estados de coisas em que estamos imersos (para usar outro termo marítimo). Um grito contra a banalização da morte e por conseguinte da própria vida.