Empresas Buscam Eficiência
para Reduzir Custos


Folha de São Paulo

O fim do controle do governo sobre os preços da maior parte dos produtos e a expectativa de aumento da concorrência, através das importações, está fazendo com que alguns empresários voltem a pensar em busca de eficiência e de redução de custos. A movimentação já chegou às empresas de consultoria em São Paulo. Mas a decisão empresarial de efetivar o processo de aumento de produtividade ainda aguarda uma queda na inflação.

“Os empresários ainda duvidam que a inflação vai cair”, diz Edson Hatamura, diretor da Área de Finanças e Mercado de Capitais da Trevisan & Associados, empresa de consultoria. Se a inflação continuar, afirma, a procura por redução de custos “perde o sentido” e o empresário volta à ciranda financeira.

Hatamura diz que está ocorrendo um maior volume de conversas informais com empresários no sentido de elevar a eficiência. “Na verdade, não aumentou o nível de procura efetivo”, observa. Ou seja, as consultorias, como a Trevisan, ainda não estão fechando mais contratos com empresas para melhorar a administração de seus custos.

O executivo da Trevisan diferencia esse processo “mais profundo” do ocorrido logo após o Plano Collor. “As empresas adotaram soluções caseiras para a falta de liquidez posterior ao choque”, diz. Nesse caso, as decisões foram “rápidas e grosseiras”, como cortes no cafezinho, por exemplo. Mas o quadro da economia ainda não levou o empresário a proceder de forma mais “dramática” quanto à eficiência, diz Hatamura.

Mas esse problema virá à tona se a inflação realmente cair para um patamar de 3% ao mês, como declarou o presidente Fernando Collor em entrevista na semana passada. “O empresário não conhece a inflação do seu negócio”, diz o consultor de empresas José Milton Dallari, ex-secretário de abastecimento e preços que assessora, por exemplo, a Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (Abia).

A falta de conhecimento da sua estrutura de custos, provocada pela longa exposição a altas taxas de inflação, fez com que os empresários se acomodassem em trabalhar com a inflação oficial, relata Dallari. O consultor diz que alguns segmentos que começaram a elaborar índices próprios para avaliação de custos –– uma inflação interna –– se deram conta de que a taxa oficial tinha muito pouco a ver com o coletado dentro da empresa.

A acomodação dos empresários provocou por muito tempo distorções como aumento de preço no chuchu que influíam no sistema financeiro e no custo das vassouras, diz Dallari. “A cultura empresarial brasileira inclui o trabalho com indexadores”, afirma o economista. “Quando o empresário fica solto, sem um indexador oficial, ele tem dificuldade para trabalhar.”

“A queda da inflação é fundamental para a transparência no mercado”, diz Celio Lora, diretor da Price Waterhouse. Devido à inflação, as pessoas não sabem mais qual é a relação entre qualidade e preço de um produto, o que prejudica as empresas competentes, afirma. “A ineficiência se confundiu com a inflação”, resume.

Do lado empresarial, a queda da participação do salário na renda nacional, e a conseqüente redução no consumo e na produção, destacou a importância da margem de lucro, individual sobre a total nas vendas. Os empresários esqueceram que vender mais vezes um produto, com uma margem individual menor, pode gerar uma margem de lucro total maior, observa o consultor da Price.

Lora diz que um dos fatores que medem a eficiência é a proximidade de tempo entre a entrada de matéria-prima em uma empresa e a conclusão do produto, com o respectivo custo financeiro necessário para financiar o estoque. Dessa forma, quem apostou na formação de estoques depois do Plano Collor, como o setor de máquinas, por exemplo, pode passar apertado se a inflação cair.