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Épica Homérica: a Oralidade, a Relação entre Divino e Humano Denny
Marquesani
Ao
lermos os poemas homéricos, uma das primeiras coisas que nos saltam aos
olhos é o fato de o texto apresentar muitas repetições. Por exemplo, o
verso 487 do primeiro canto da Ilíada: hmoV
d¢hrigeneia fanh rododaktuloV HwV,
(quando de manhã surgiu a aurora de dedo de rosa) é uma fórmula que vai
se repetir vinte vezes na Ilíada e duas vezes na Odisséia.
Esse é apenas um exemplo, nos poemas há milhares de fórmulas que são
reorganizadas e repetidas pelo aedo. Essa
repetição é uma característica da poesia oral. O poeta lança mão de
um arcabouço cultural que é transmitido de geração a geração através
dos seus cantos. Isso leva a crer que Homero não criou os poemas atribuídos
a ele. Certamente em sua época havia vários outros rapsodos que cantavam
esse mesmo conteúdo, embora havendo variações de um rapsodo para outro. Tudo
o que está nos poemas era domínio público, as crianças cresciam
ouvindo essas histórias, não foi Homero quem as criou. Havia sessões públicas
de recitação de versos, e aquilo que era cantando o público já
conhecia desde criança. Essa
repetição é um elemento central na questão da oralidade do poema homérico.
Os estudiosos a chamam de estrutura formular. É um recurso do qual
o poeta se utiliza valendo-se da memória. O poeta tinha acesso a um
estoque de fórmulas, as quais o poeta ia re-arranjando ao contar a história.
A técnica do rapsodo é muito circunscrita porque ele não inventa nada,
seu engenho está nesse re-arranjo de fórmulas prontas. Com
base nessa característica, fica difícil sustentar que Homero tenha sido
um rapsodo real, ou uma única pessoa. É muito mais coerente enxergá-lo
como uma tradição, mas essa é uma questão antiga e aberta que
provavelmente nunca se resolverá. Outra
questão importante é a relação do poeta com o divino. Observemos o
primeiro verso do primeiro canto da Ilíada: “Canta-me a Cólera
– ó deusa! – funesta de Aquiles Pelida ...”. Aqui percebemos
claramente uma relação entre o poeta e a deusa. A musa canta para o
poeta a Ira de Aquiles. O poeta faz uma mediação entre o divino e o
humano. Outro ponto importante aqui, é que quem tem o conhecimento não
é o poeta, mas sim a Musa, e através do poeta as Musas comunicam esse
conhecimento aos humanos. E esse conhecimento tinha que ser mantido vivo
na memória através de recursos mnemônicos. Por isso na mitologia as
Musas são filhas de Mnhmosunh
(a deusa Memória) apresentando uma alegoria do conhecimento que é
transmitido oralmente fundado na memória. O conhecimento divino é
conservado pela memória que garante que esse divino conhecimento seja
transmitido de geração a geração. O
fato de o rapsodo (ou poeta) fazer essa mediação entre o divino e o
humano confere-lhe um estatuto diferenciado na sociedade grega: o estatuto
do sábio. É
interessante observar também, que havia uma continuidade entre o humano e
o divino, ou seja, não existia uma separação absoluta entre o humano e
o divino. Os deuses interferem diretamente no mundo humano, interferência
esta que por sua vez gera uma reação no Olimpo, uma discórdia porque
tal deus protegeu tal humano e modificou os acontecimentos de tal maneira
e assim por diante. Esses dois âmbitos estão misturados e se influenciam
mutuamente. Zeus garante a ordem e é a fonte do poder do rei, as Musas
presidem a poesia dos aedos, e Apolo, os citaristas. O
cetro, símbolo de poder régio, foi confeccionado por Hefestus para Zeus
que o passa para Hermes que passa para Pelops (avô de Agamêmnon) que
passa para Atreu que passa para Tiestes que passa para Agamêmnon. O cetro
que era de Zeus vai parar nas mãos de Agamêmnon. O poder régio tem
origem em Zeus. Observemos
novamente os primeiros versos da Ilíada: “Canta-me a Cólera - ó
deusa! - funesta de Aquiles Pelida, causa que foi de os Aquivos sofrerem
trabalhos inúmeros e de baixarem para o Hades as almas de heróis
numerosos e esclarecidos, ficando eles próprios aos cães atirados e como
pasto das aves. Cumpriu-se de Zeus o desígnio desde o princípio
em que os dois, em discórdia, ficaram cindidos, o de Atreu filho, senhor
de guerreiros, e Aquiles divino.” Notamos aqui que a causa da contenda
é “de Zeus o desígnio”, é porque Zeus quer. Assim, o motivo da
contenda não pode ser uma coisa pessoal, é algo motivado pelo deus. Se
há uma peste, Apolo é quem mandou, não há razões físicas, mas sim a
ação de um deus. Isso é próprio da concepção que o homem homérico
tinha dos deuses. Todos os fenômenos naturais eram manifestação dos
deuses, por exemplo, o raio e o trovão eram manifestação de Zeus, o
terremoto e a tempestade de Posido, e assim por diante. Também os fenômenos
psíquicos eram divinizados: Afrodite é a deusa do amor, quem sente amor
“sabe” que Afrodite é quem está produzindo esse amor. Assim eles
pensavam. O homem homérico está sujeito aos caprichos dos deuses. Na
Ilíada, I, 62, se diz que Zeus dá origem ao Sonho (com inicial maiúscula
porque também é um deus). Portanto, o sonho que, para nós, é uma coisa
psíquica, íntima e pessoal, para o homem homérico é algo mandado por
Zeus, tal é o grau de integração entre o humano e o divino. Os
momentos decisivos da guerra de Tróia se dão por meio da vontade divina.
A contenda que se dá no plano humano é um reflexo da que se dá no plano
divino. Quando
Agamêmnon ultraja o sacerdote de Apolo, desencadeia toda uma reação
sobre os Atridas. Assim, o humano também participa dessas influências,
embora a ubriV
de Agamêmnon tenha motivação divina. Curioso que Apolo fica irado,
mostrando que os deuses estão sujeitos às mesmas emoções que os
homens. Na
Ilíada, canto II, a partir do verso 153, há um momento em que
Atena fala com Odisseu, ele ouve a voz dela. O homem tem uma percepção
sensível dos deuses, não uma contemplação intelectual. Odisseu
compreende tratar-se de uma deusa pelo tom da voz dela. A diferença aqui
entre o divino e o humano não é de natureza, mas sim de qualidade, o
deus é mais nobre que o humano. No verso 278, Atena aparece na forma
humana e o exército a vê e ouve. Em 344 há a manifestação divina por
meio de fenômeno natural: um relâmpago. Grosso
modo, há três
tipos de intervenção divina sobre os humanos: (1) pela ordem dos fatos
— a guerra é conduzida pelos deuses — (2) pelos aspectos fisiológicos
— sonho, medo, amor — e (3) pelos fenômenos naturais. Aparentemente,
tudo o que sucede no âmbito humano se dá por intervenção divina. De
fato, isso acontece, mas não é algo absoluto porque existe uma
possibilidade embora pequena de o homem agir por si próprio e tomar decisões.
A partir do verso 188 do canto I da Ilíada, temos o relato onde
Agamêmnon toma de Aquiles, Briseida (seu espólio de guerra). Aqui
encontramos Aquiles ultrajado refletindo sozinho se mata ou não mata Agamêmnon;
aparentemente ele tem escolha. No momento em que decide matá-lo, Atena
aparece: "Filha de Zeus
tempestuoso, que causa te trouxe até Tróia? Ver os ultrajes que o Atrida
Agamémnone me faz neste instante? Ora te digo com toda a clareza o que
vai realizar-se: Vai a existência custar-lhe essa grande arrogância de
agora”. A de olhos glaucos, Atena, lhe disse o seguinte, em resposta:
"Para acalmar-te o furor, tão somente, ora vim do alto Olimpo; caso
me atendas, enviada por Hera, de braços muito alvos que, por igual, a
ambos preza e dos dois, cuidadosa, se ocupa. Vamos, refreia tua cólera,
deixa em repouso essa espada. Mas, quanto o queiras, com termos violentos
o cobre de injúrias. Ora te digo com toda a clareza o que vai
realizar-se: Prêmios três vezes mais belos virás a alcançar muito em
breve, por esse insulto de agora. Contém-te, portanto, e obedece”. A
expressão “caso me atendas” (208) é, no grego, ai
ke piqhai, é
uma condicional que marca possibilidade, “se tu me obedeceres”,
“caso me atendas”. Isso abre a possibilidade de Aquiles agir por conta
própria. Nas outras manifestações, o deus intervém e age, independente
da vontade do homem. Aqui o homem pode escolher. Porém depois de abrir a
possibilidade, Atena passar a usar imperativos, mas ela argumenta, tenta
persuadir Aquiles. Ele acaba agindo em conformidade com a vontade da
deusa, mas ela o persuade, ele tinha a possibilidade de agir diferente. Por
outro lado, encontramos no XI canto da Ilíada, versos 401 a 414, um
relato complementarmente esclarecedor. Vejamos: “Fica sozinho o lanceiro
galhardo Odisseu; nenhum Dânao perto se achava, que o Medo de todos se
havia apossado. Cheio de angústia, desta arte falou ao magnânimo peito (qumoV):“Pobre
de mim, que farei? Se fugir, com receio da turba, é grande mal; mas
vergonha maior é vir eu a ser preso sem mais ninguém, que nos Dânaos o
Crônida medo ora infunde. Mas para que, coração (qumoV),
entregares-te a tais pensamentos? Sei que somente as pessoas covardes a
pugna abandonam. Quem valoroso se mostra, só tem de conduta uma norma,
que é resistir decidido, quer fira, quer seja ferido”. Enquanto no coração
(qumoV)
e no espírito (frhn)
assim refletia, turbas de Troas guerreiros, armados de escudos, chegaram e
vieram pôr-se-lhe à volta, entregando-se à Morte a si mesmos.” Aqui
é um exemplo que escapa completamente desse determinismo dos deuses
porque Odisseu decide sem a intervenção dos deuses. É a mesma situação
de Aquiles: ele mata ou não. Uma situação de aporia, tem que tomar uma
decisão. Aquiles, quando resolve matar, recebe a visita da deusa que e o
dissuade. No caso de Odisseu não tem o elemento divino, ele decide
enfrentar e mata toda a turba, sozinho. Portanto
podemos discernir três categorias nessa relação entre o humano e o
divino: intervenção divina direta (a absoluta maioria), a motivação
dupla (parece haver uma negociação) e a decisão própria do herói (sem
o elemento divino). Bibliografia
Homero.
A Ilíada (em versos). Tradução de Carlos Alberto Nunes. Rio de
Janeiro: Ediouro, 2001. Lesky,
Albin. Motivação Divina e Humana na Épica Homérica. 1961. Lopes,
Daniel R. N. Aspectos da Literatura Grega: Aula do Curso de Língua
Grega da FFLCH da USP proferida em 19 e 26/03/2003. Snell,
Bruno. A Cultura Grega e as Origens do Pensamento Europeu. Trad. Pérola
de Carvalho. Dão Paulo: Editora Perspectiva, 2001 (1955), pp. 23-29.
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