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Como escrever com estilo
Kurt Vonnegut Revista
do Livro nº 51, outubro/novembro/dezembro de 1983
O autor de Um pássaro na gaiola e tantos outros livros de sucesso explica neste artigo especial como colocar estilo e personalidade em tudo o que você escreve.
Repórteres
de jornais e redatores técnicos aprendem a ser impessoais em seus textos.
Isso os torna uma espécie estranha no mundo dos escritores, pois quase
todos os outros infelizes que lidam com canetas, papel e máquinas de
escrever — habitantes desse mesmo universo — revelam muitas características
pessoais por meio de suas obras. Intencionais ou não, tais revelações,
são denominadas “elementos de estilo”.
Eles nos
permitem saber, na condição de leitores, algo sobre o tipo de pessoa a
quem estamos dedicando tempo. O autor pode nos parecer ignorante ou
bem-informado, tolo ou brilhante, vigarista ou honesto, sem senso de humor
ou brincalhão, e assim por diante.
E você?
Por que analisar seu próprio estilo de redação, com o objetivo de
aprimorá-lo? Bem, isso é um sinal de respeito por seus leitores,
qualquer que seja o tema de seus textos. Caso você garatuje seus
pensamentos sem maior cudado, seus leitores com certeza sentirão que você
não se preocupa muito com eles. E vão marcá-lo como um ególatra ou
obtuso — ou, possibilidade ainda mais trágica, simplesmente deixarão
de ler seus escritos.
A revelação
mais comprometedora que um autor pode fazer sobre si mesmo é demonstrar
que não sabe distinguir entre o que é ou não interessante. Isso também
acontece quando você lê, não é verdade? Ou seja, você gosta ou não
de determinados autores em função, principalmente, do que eles escolhem
para lhe contar ou para lhe oferecer como material de reflexão. Algum dia
você sentiu prazer em ler um escritor sem idéias, apenas pelo domínio
que ele demonstra sobre a linguagem? Decerto não.
Por
conseguinte, a fim de desenvolver um estilo de efeito, você precisa tomar
como base suas idéias
pessoais.
1. Ache um tema de seu interesse
Descubra um tema capaz de lhe
despertar interesse e com o qual você
sinta, no fundo, que os outros também deveriam se preocupar. É
esse interesse autêntico, e não suas brincadeiras inteligentes com a
linguagem, que virá a constituir o elemento mais convincente e agradável
do seu estilo.
Não estou espicaçando o
leitor deste artigo para que escreva um romance — embora viesse a me
sentir feliz com isso. Uma petição dirigida ao
administrador da cidade referente a um buraco à porta de sua casa
ou uma carta de amor preencheriam esse requisito.
2. Mas não divague sobre o
assunto
Não farei divagações no
tocante a este conselho.
3. Seja simples
Agora, quanto ao uso da
linguagem: lembre-se de que dois expoentes como William Shakespeare e
James Joyce escreviam frases com traços de infantil inocência,
discorrendo sobre assuntos dos mais profundos. O “Hamlet” de
Shakespeare pergunta: “Ser ou não ser?” E a palavra mais comprida da
frase tem apenas três letras! Joyce, quando se
sentia propenso a fazer brincadeiras era capaz de elaborar uma
frase tão intrincada e resplandecente quanto, por exemplo, um colar
destinado a adornar Cleópatra. Entretanto, minha frase predileta no conto
“Eveline”, de sua autoria é: “Ela estava cansada”. Àquela altura
da narrativa, não havia outras palavras que pudessem atingir tão a fundo
o coração do leitor quanto esses três simples vocábulos.
A simplicidade da linguagem não
é apenas meritória, mas, talvez até mesmo sagrada. O texto da Bíblia
começa com uma frase que não foge aos limites de domínio de redação
próprios de um adolescente de catorze anos: “E no início criou Deus o
céu e a terra” . . .
4. Tenha coragem de cortar
Talvez você tenha também a
capacidade de, por assim dizer, tecer colares para Cleópatra. Contudo,
sua eloqüência deve ser colocada a serviço das idéias que lhe ocorrem.
Valha-se das seguinte regra, fundamental em se tratando de estili: se uma
frase, por excelente que seja, não lança sobre
seu tema uma luz que revele um aspecto novo, corte-a.
5. Seja você mesmo
Seu estilo de redação mais
natural há de ecoar coisas que você ouviu na sua infância. O idioma
inglês era a terceira língua do romancista Joseph Conrad, e grande parte
do que parece pungente em seu uso do inglês foi, sem sombra de dúvida,
influenciado por sua língua materna — o polonês. Quanto a mim, cresci
na cidade de Indianápolis, onde a fala popular soa como uma serra de fita
cortando estanho galvanizado, e o vocabulário empregado tem o efeito estético
de um pingüim em cima da geladeira. Em algumas regiões mais afastadas
dos montes Apalaches, nos Estados Unidos, ainda há crianças que crescem
ouvindo canções e expressões da era elisabetana (assim como, nas regiões
rurais do Brasil, muito do que se chama “a fala caipira” traz reminiscências
do português castiço dos colonizadores)
Todas essas variedades de
discurso são belas, assim como são belas as diversas espécies de
borboletas. Não importa qual seja a sua língua materna, você deve
sempre dar-lhe grande valor. Se, por acaso, seu idioma não for o do país
em que você vive hoje, e se sua língua materna transparecer naquilo que
você escreve, o efeito final, via de regra, será encantador.
Eu mesmo percebo, e os outros
também, que acredito mais em meus textos quando as palavras soam, com
maior fidelidade possível, como o discurso de uma pessoa de
Indianápolis — ou seja, exatamente aquilo que sou. Qual a
alternativa? Só aquela insistentemente recomendada pelos professores e,
sem dúvida, também imposta ao leitor: a de escrever como um refinado
cavalheiro que viveu há um século ou mais.
6. Diga o que pretende dizer
Antigamente, eu costumava me
sentir exasperado com professores desse gênero. Agora não mais. Entendo
que todos aqueles textos antigos, com os quais eu deveria comparar meus
trabalhos, não eram magníficos por serem de
interesse permanente, ou por terem sido escritos por estrangeiros,
mas sim porque transmitiam, com precisão, aquilo que seus
autores pretendiam transmitir. Segundo meus professores, eu
deveria escrever com precisão, selecionando sempre os vocábulos de
melhor efeito e concatenando-os sem dar margem à ambigüidade como peças
de uma máquina.
Meus mestres não queriam me
transformar num nobre inglês, mas nutriam esperanças de que eu me
fizesse entender, e assim fosse entendido. E lá se foi meu sonho dourado
de realizar, com as palavras, o que Pablo Picasso fez no campo da pintura,
ou que um número incalculável de ídolos do jazz realizou em
termos musicais. Se desobedecesse às regras de pontuação, se desse às
palavras um significado incomum, e ainda por cima as dispusesse ao acaso,
simplesmente não seria compreendido. Portanto, seria aconselhável que
você também evitasse um estilo de redação à moda de Picasso ou dos músicos
de jazz, na hipótese de ter algo que valha a pena ser dito, e de querer
ser compreendido.
Os leitores desejam que as páginas
por nós escritas não sejam muito diferentes das páginas que já leram.
Por quê? Porque eles próprios têm uma tarefa espinhosa a cumprir, e
necessitam de toda a ajuda que pudermos dar.
7. Tenha pena dos leitores
Eles são obrigados a
identificar milhares de pequenos símbolos impressos no papel e a
compreender, de imediato, seu sentido. São obrigados a ler — uma
arte tão complexa que a maior parte dos seres humanos não consegue dominá-la
completamente, mesmo depois de estudá-la durante todo o curso primário e
secundário — doze longos anos! Assim, esta análise deve ser encerrada
com o reconhecimento de um fato: nossas alternativas estilísticas não são
abundantes nem glamurosas, uma vez que nossos leitores estão fadados a
ser muito imperfeitos. Nosso público exige que sejamos professores
compreensivos e pacientes, eternamente dispostos a simplificar e
esclarecer — enquanto nós, escritores, por nossa vez, preferíamos alçar
altos vôos.
São essas as más notícias.
Mas, de outro lado, protegidos pela Constituição americana, podemos
escrever o que desejarmos, sem receio de punição.
Essa falta de limites para a
escolha de um tema é o aspecto mais significativo de nossos estilos literários.
8. Para conselhos mais
detalhados
Aos leitores interessados em
uma discussão mais específica sobre estilos literários, sob um enfoque
mais técnico, informo que há boas obras sobre o assunto, como, em inglês,
The elements of style, de William Strunk Jr. e E. B. White.
(Em português, existem os
livros de Silveira Bueno, A arte de escrever, e de Marcel Cressot, O
estilo e suas técnicas, entre muitos outro.) Todos têm coisas
fascinantes a dizer.
Kurt
Vonnegut
Série: O poder da palavra impressa. International Paper Company.
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