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Fontes
da Comédia no Espírito
da Epopéia 1991 Para
apaziguar Apolo ofendido na figura de seu sacerdote Crises, que Agamêmnon
humilhara, os aqueus não só têm de restituir Criseida, mas agradar ao
deus na forma de um sacrifício: A
perfeita hecatombe então colocam (Il.,
443-474) O deus
que castiga impiedoso os homens do acampamento aqueu, mas que sabe também
neles infundir o saber e as artes, esse deus quer reposição total do
dano. É comum que os homens de Homero comam e bebam em silêncio. Não
apenas porque a concentração da guerra exige, mas sobretudo porque a
duração do sacrifício abrange muito mais que os protocolos previstos. O
deus estende em torno um témenos, espécie de circuito de comunicação
que não pode ser profanado até que o último gesto necessário não se
complete. Tudo que se faz converge para o deus, que recebe com coração
alegre os peans entoados jovens dânaos. A palavra témenos indica
não só o espaço ou o território prenhe de energia sagrada, mas os
lances prescritos do sacrifício. Sua raiz é tem, presente no
verbo témno, «cortar», «dividir» (cf. lat. templum). Não
só as partes do animal sacrificado são «cortadas», segundo o conferível
ao deus e aos homens. Também a vida é parenteticamente suspensa, como
que pelo ato de um corte que a divide em dois territórios, o sacrificial
e o guerreiro. Esta oposição, porém, não é privativa, mas gradual,
mostra que o profano, em Homero, constitui também um círculo em que a
relação do homem com a divindade não se interrompe. Ele é apenas mais
mediado pela mundaneidade do homem, o que dá ocasião a uma resposta mais
arredia, e, por isso, mais cruel da divindade. O sacrifício quer falar ao
coração do deus e com ele estabelecer participação maior na
bem-aventurança. O
sacrifício não consiste apenas num movimento de doação do homem ao
deus. Pode ser também determinado pela intervenção abrupta do deus no
mundo da guerra, exigindo vidas em expiação à honra divina ofendida,
como faz Apolo-arqueiro no abrir-se a Ilíada. Este último sacrifício,
bem o sabemos, não é cultual, corresponde a uma resposta sem pergunta,
que intervém tragicamente no destino. Os homens de Homero correm esse
risco, principalmente quando não falam a linguagem em que os deuses se
mostram piedosos: oi(\
de\ panhme/rioi molph=? qeo\n i(la/skonto [hoi
de panêmerioi molpêi theon hilaskonto (472-474) Que em
tradução latina pode dizer-se: Illi
vero per-totum-diem cantu deum placabant, Essa
linguagem de canto peônio, entoada pelos kouroi, é o que aplaca a
cólera de Apolo, falando-lhe docemente, de modo que o deus se deleita de
ouvi-la (ho de phrena terpet akoun). Apolo é assim reconvertido à
dimensão propiciatória, por força do mesmo cantar de aletheia
que as musas ensinaram a Hesíodo no monte Hélicon. Tudo, na passagem de
Homero, leva à concentração e continuidade. Os cantos duram um dia
inteiro e mais parecem fruto do dever do que da espontaneidade. Os gestos
são prescritos e nada pode estar fora do lugar. Os homens desse tempo não
teriam condição de dialogar de outra forma com um deus. Não estão a
altura de dizer nada aos deuses, que não seja o próprio voto e pedido: “Se
a meus rogos, No
mundo de Homero, a cotidianidade possui um caráter descontínuo, mas
integrador, sem espaço para a formação do abstrato enquanto preocupação
temática do sujeito. A gramatologia da existência já se compreende nos
fatos e nas ações que interagem. Há nestes uma pré-ciência capaz de
dar a cada coisa sua significação e particularidade necessária, como se
vê na gestualidade ordenada do sacrifício. Na instância épica da vida,
representada em Homero, a essência é imanente à vida. Mas a lenta
separação de ambas vai definir, tempos após, a estrutura máxima de
composição da tragédia. Separação,
porém, não é destruição. A ontologia do sacrifício, que abarcava a
vida inteira numa totalidade, e em que os deuses se davam em sua imediatez,
vai ser no V século reprogramada numa nova dimensão, que inclui uma espécie
de crise civilizacional, marcada pela constituição definitiva das
cidades, pelos novos modelos políticos, pela introdução do alfabeto,
pelo aparecimento da ciência jônica, etc. Tudo isto aumenta a
descontinuidade e quebra de ritmo: o pensamento emerge para suprir as
falhas e as interrogações. Esta crise, contemporânea da filosofia dos
pré-socráticos e da ciência de jônios e eleatas, vai constituir um
saber profano que sedimenta no homem a alvorada da individualidade.
Individualidade que não é só contorno pessoal do sujeito, mas forma de
apercepção “preferencial” das coisas, estimulada pela fragmentação.
A nova ironia trágica é justamente a exposição desta crise num nível
de elaboração artística tão elevada que chega a escondê-la. [1]
Homero, Ilíada. Tradução de Manuel de Odorico Mendes. Rio,
Tipografia Guttemberg, 1874, p. 18. [2]
V, Homeri Carmina et Cycli Epici Reliquiae. Parisiis,
Editoribus Firmin-Didot et Sociis, MCMXXX, p. 9.
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