Denny Marquesani

 

Comentário a um Fragmento da Poética de Horácio


IEC-II, 2002

Fragmento:

“Não basta serem belos os poemas; têm de ser emocionantes, de conduzir os sentimentos do ouvinte aonde quiserem. O rosto da gente, como ri com quem ri, assim se condói de quem chora; se me queres ver chorar, tens de sentir a dor primeiro tu; só então, meu Télefo, ou Peleu, me afligirão os teus infortúnios; se declamares mal o teu papel, ou dormirei, ou desandarei a rir. Se um semblante é triste, quadram-lhe as palavras sombrias; se irado, as carregadas de ameaças; se chocarreiro, as joviais; se severo, as graves”.

Horácio. Arte Poética, 99-107

 

Comentário:

Seguindo o preceito do decorum, o poeta deve escolher palavras adequadas aos personagens, não basta que os poemas sejam belos, nem basta que agradem, é preciso também que comovam. E para que o poema comova é preciso adequação entre as palavras escolhidas e a representação do ator. O personagem tem que estar composto verossimilmente de acordo com uma situação triste para que o público sinta tristeza. Um personagem com o semblante triste fala palavras tristes. Isso não quer dizer que o poeta deve falar daquilo que ele está sentindo. Deve haver uma relação entre as palavras e as paixões que o personagem está ficcionalmente passando, e as paixões que o poeta quer produzir no público. Estas palavras devem estar de acordo com o caráter do personagem. Um herói deve falar como um herói, um jovem como um jovem, um velho como um velho. Isto é, deve haver uma articulação entre o ethos e o pathos. Ao escolher as palavras o poeta tem que pensar em qual gênero está compondo e como são os personagens que vão interpretar no gênero que ele está compondo.