As
Características Fundamentais do Gênero Lírico
IEL-I, 16 de setembro de 2002
Denny
Marquesani
[Este
ensaio foi amplamente baseado na obra Os Gêneros Literários: Seus
Fundamentos Metafísicos de Olavo de Carvalho.]
Os
Gêneros Literários
As
obras literárias, conforme seu conteúdo e estrutura, apresentam
predominantemente características de um dos gêneros literários
fundamentais: épico, dramático e lírico.
O
gênero épico, grosso modo, caracteriza-se pela narrativa (quando
uma “estória” é contada) em verso ou prosa. Por exemplo: epopéia,
mito, lenda, romance, novela e conto. Expressa o modo temporal ou
sucessivo, trata-se de um discurso contínuo. O tempo é o fator
estrutural mais importante do gênero épico.
O
gênero dramático, grosso modo, caracteriza-se pelos diálogos; é
planejado para ser encenado num palco por meio de gestos e discursos dos
atores. Por exemplo: tragédia, comédia, farsa e tragicomédia. Embora
apresente uma ação metaforicamente colocada no passado, a reproduz no
presente pelo desempenho dos atores nos palco.
Quanto
ao gênero lírico, trataremos mais detalhadamente depois dessas considerações
gerais sobre os gêneros.
A
questão dos gêneros literários está em discussão faz séculos. É uma
das mais importantes questões em Teoria Literária.
Muitos
autores, Aristóteles por exemplo, expuseram regras que definem os gêneros
literários. E muitos escritores durante séculos seguiram essas regras de
modo que as encontramos exemplificadas em suas obras.
René
Wellek e Austin Warren afirmam, em sua obra Teoria da Literatura, que
“a espécie literária é uma ‘instituição’ – tal como a Igreja,
a Universidade, o Estado, são instituições. Existe, não no sentido em
que se diz que existe um animal ou mesmo um edifício, seja capela,
biblioteca ou assembléia, mas sim naquele em que uma instituição tem
existência. Uma pessoa pode actuar, expressar-se, por meio das instituições
que existem, ou criando novas instituições, ou prosseguindo, tanto
quanto possível, sem comparticipar na política ou nos rituais; podemos
também aderir a instituições e depois dar-lhes nova forma. A teoria dos
gêneros é um princípio ordenador: classifica a literatura e a história
literária não em função da época ou do lugar (por épocas ou línguas
nacionais), mas sim de tipos especificamente literários de organização
ou estrutura.”
Isto
distingue entre uma modalidade física, individual, de existência, e uma
modalidade não–física, ou “institucional”, catalogando os gêneros
literários na modalidade institucional.
Mas
de onde provêm os gêneros literários? Massaud Moisés diz que “os gêneros
literários nascem por uma espécie de imposição natural, qualquer coisa
como a adequação do indivíduo ao ritmo cósmico, marcado por uma
regularidade inalterável... Por outro lado, a reiteração dum módulo
expressivo e, correspondentemente, dum modo de conteúdo (o que significa,
de resto, uma específica visão do mundo) obedece a uma tendência inata
do homem para a ordem.”
Concordemente, Emil Staiger diz que “os conceitos lírico, épico e dramático
são têrmos da Ciência da Literatura para as virtualidades fundamentais
da existência humana.”
Assim
entendemos que os gêneros literários são esquemas de possibilidades de
organização literária que existem antes e independentemente das obras
literárias. Enquanto possibilidades são esquemas puros. Nas obras
encontramos a predominância de um com traços de outros.
Aprofundando
um pouco mais sobre a predominância e os traços, Anatol Rosenfeld em sua
obra O Teatro Épico, explica que quando nos referimos aos gêneros
do ponto de vista ideal, como categorias literárias, associamos o gênero
lírico ao substantivo “A Lírica”; o épico, “À Épica”; e o
dramático, “À Dramática”. Mas ao analisarmos as obras individuais
que a história registra, e que o teórico pode agrupar por suas semelhanças
e diferenças, notamos que elas não se encaixam perfeitamente num
determinado gênero. Por isso, ainda conforme Rosenfeld, a importância
dos significados adjetivos dos gêneros.
Por
exemplo: “certas peças de Garcia Lorca, pertencentes, como peças, à
Dramática, têm cunho acentuadamente lírico (traço estilístico). Poderíamos
falar, no caso, de um drama (substantivo) lírico (adjetivo). Um epigrama,
embora pertença à Lírica, raramente é “lírico” (traço estilístico),
tendo geralmente certo cunho
“dramático” ou “épico” (traço estilístico). Há numerosas
narrativas como tais classificadas na Épica, que apresentam forte caráter
lírico (particularmente da fase romântica) e outras fases de forte caráter
dramático (por exemplo as novelas de Kleist).”
Podemos
dizer que os gêneros são as diferenças extremas das possibilidades de
estruturação literária que, apesar de suas diferenças, é possível
combiná-los formando tecidos mistos. Entretanto, mesmo na mais criativa
mistura, as categorias sempre permanecerão como princípios articuladores
e elementos mínimos de que se compõe a mistura. Os gêneros literários
são realidades arquetípicas que ordenam a multiplicidade dos fatos da
história literária.
As Características
Fundamentais do Gênero Lírico
O
gênero lírico não configura nitidamente personagens, caracteriza-se
pela predominância de uma voz central, um “eu” lírico (que não é
um “eu” individual) que se funde com o mundo e exprime a plasmação
imediata de seus próprios estados de alma, emoções, disposições psíquicas,
concepções, reflexões, visões, sentimentos, intensamente vividos e
experimentados através de um discurso breve, conciso, denso e
extremamente expressivo, construído com ritmo, musicalidade e imagens
como o canto, a ode e a elegia.
No
que se refere ao tempo o gênero lírico ultrapassa a temporalidade,
porque se estrutura segundo a aspiração da eternidade, e seu modo formal
é o conceito de “momento”, cujo equivalente espacial é o
“ponto”. A lírica destaca um momento do tempo, um ponto do espaço, e
os projeta no não–tempo e no não–espaço. Mas para fazê-lo recorre
a instrumentos verbais derivados do espaço e do tempo, que marcam os
limites do humanamente expressável e a mútua anulação do espaço e do
tempo ao cruzar-se no “ponto” ou “momento”. A lírica é a expressão
mais pura da relação da dimensão que articula, abrange e contém o espaço
e o tempo cristalizando numa obra a experiência universal.
Rosenfeld
apresenta a primeira estrofe do soneto número IV dos Quatro Sonetos de
Meditação de Vinícius de Morais, por tratar-se de um verso
acentuadamente lírico onde encontramos as características fundamentais
da Lírica:
Apavorado
acordo, em treva. O luar
É
como o espectro do meu sonho em mim
E
sem destino, e louco, sou o mar
Patético,
sonâmbulo e sem fim.
(Vinícius
de Morais, Livro de Sonetos)
Aqui
vemos o “eu” lírico cantando a experiência angustiante da solidão.
A fusão do “eu” com o mundo (sujeito e objeto) é percebida no
terceiro verso “(...) sou o mar”. No quarto verso essa característica
também é percebida porque as qualidades de um e de outro se misturam:
“Patético, sonâmbulo e sem fim”, já não sabemos mais onde acaba o
sujeito e começa a paisagem. “O universo se torna expressão de um
estado interior”. Perceba o caráter imediato que se manifesta no tempo
verbal (presente) que caracteriza um momento eterno que permanece.
Conclusão
Os
gêneros literários são, como dissemos, realidades arquetípicas que
enquadram e orientam a multiplicidade dos fatos da história literária,
sem jamais manifestar-se em toda a sua íntegra pureza — pois a
temporalidade imita a perenidade, sem poder identificar-se com ela — e
também sem nunca desaparecer totalmente de cena, por mais irreconhecíveis
que os torne a multidão dos fatos e variações particulares. A
dificuldade que o homem moderno contemporâneo sente em compreender os gêneros
e reconhecê-los no meio dos dados empíricos é a mesma que ele encontra
para reconhecer qualquer sentido arquetípico nos fatos de uma vida
cotidiana totalmente banalizada e coisificada. A dificuldade de ver está
no sujeito não no objeto.
Os
gêneros literários deitam suas raízes no absoluto, no infinito, no
ritmo cósmico de que falou Massaud Moisés.
Bibliografia
Carvalho,
Olavo de. Os Gêneros
Literários: Seus Fundamentos Metafísicos. Rio de Janeiro: Instituto
de Artes Liberais & Stella Caymmi, 1993.
Frye,
Northrop. Anatomia da
Crítica. Trad. P. E. da Silva Ramos. São Paulo: Cultrix, 1973.
Kayser,
Wolfgang. Análise e
Interpretação da Obra Literária. Coimbra: Arménio Amado, 1970.
Moisés,
Massaud. A Criação
Literária. São Paulo: Melhoramentos, 1973.
Rosenfeld,
Anatol. O Teatro Épico.
São Paulo: Perspectiva, 1965.
Staiger,
Emil. Conceitos
Fundamentais da Poética. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1969.
Wellek,
René, e Warren, Austin.
Teoria da Literatura. Lisboa:
Publicações Europa–América, 1972.
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