03/2005

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Quando leio um poema e penso: ‘esse poema é bom’. Por que eu penso que é bom? Será por causa do seu sentido e teor poético? Por causa do seu teor de ‘verdade’ e de conhecimento? Esse poema ‘bom’ tem alguma coisa a dizer sobre a minha vida? Tem alguma coisa a dizer sobre o mundo? Segundo Theodor Adorno, sim, de alguma forma todo bom poema tem algo a dizer sobre a minha vida e sobre o mundo; eu não preciso falar diretamente da sociedade e dos seus problemas cruciais para dizer algo a respeito dela.[1] Todo ‘bom’ poema, cada um deles, tem um ponto que diz respeito também à minha realidade, aqui presente, coletiva; e também à minha realidade íntima.

Que é o ‘bom’ poema? É o belo poema? Será que há uma regra do belo? Essa consideração do belo é uma conquista da filosofia crítica do século XVIII. O que significa dizer ‘isto é belo’? Kant discutiu esta questão. O que o conduziu à formulação do famoso juízo reflexionante. Há juízos determinantes, ou seja, conceitos gerais, os quais eu posso subsumir como um objeto particular ou um outro conceito. Por exemplo, quando eu digo ‘isto é uma mesa’, eu comparo o objeto ao qual estou me referindo com um conceito e testo se é verdadeiro ou falso. Eu tenho o conceito de mesa que posso por à prova a cada momento em que enuncio este juízo.

Mas, quando eu digo ‘isto é belo’, busco o conceito de “belo” e não encontro. Eu não tenho o conceito de belo, externo àquele objeto singular que está diante de mim. Portanto, o belo não tem conceito. Essa falta de regra é uma característica do juízo reflexionante. Tenho que provar a cada momento na relação com o objeto específico, o que o torna belo. Uma vez que eu digo “isto é belo”, esse juízo tem que ser universalmente aceito. Todos devem concordar com ele, mesmo que não concordem. Por quê? Porque quando digo “isto é belo”, estou transferindo ao objeto um sentimento privado individual meu. Conseqüentemente, estou exigindo a aceitação de todos, porque estou transferindo ao objeto esta qualidade. Assim, uma das características de ‘se o poema é bom, ou não, é belo, ou não’, passa um pouco por esse caráter reflexionante do juízo. Não é regra, mas há condições, há pressupostos e há a exigência que isso seja compartilhado. .Se eu souber como me colocar diante de um poema, serei capaz de transmitir meus sentimentos, idéias, conclusões, percepções, intuições, etc., aos outros.

Como fazê-lo? Como se posicionar diante do poema para transmitir esses elementos todos? É isso que pretendo apresentar aqui. Através da verificação dos métodos e técnicas de análise, comentário e interpretação do poema.

 

Imagem e Imagem Poética

 

Estou diante do seguinte poema:

tcha dü
leh ieh

Que posso dizer sobre ele? Se a teoria da sonoridade expressiva vigorasse em toda sua força, eu já teria sido impactado pela ‘beleza’ dessa combinação sonora, essa articulação de vogais e consoantes:

tcha dü
leh ieh

Mas, não. É necessário um passo a mais, um passo que mesmo cheio de complicações, é necessário nesse caso. A tradução desse poema:

peixes se afogam
gansos desviam

Posso dizer que é um belo poema? O que posso dizer sobre esses dois versos?[2] Dois substantivos, dois verbos, plural, animais...

peixes se afogam
gansos desviam

Apenas a tradução não é suficiente, é necessário mais um passo. Esse poema tem uma história que elucida um pouco o seu sentido. Às vezes isso também tem que ser levado em consideração. Antonio Candido diz que eu devo utilizar tudo o que estiver à mão para que o poema possa ser interpretado.[3] Nesse caso, a história da gênese do poema é importantíssima para a delimitação de seu sentido.

Existe uma antiga narrativa chinesa que reza que por volta do século IV aC, um rei de uma região da China[4] tinha a felicidade de ter uma filha, a princesa, absolutamente linda, estonteantemente linda, a mulher mais linda jamais criada na Terra. O problema era que quem sabia disso eram o rei, a rainha e as amas, porque essa princesa não podia ser vista por ninguém, a não ser por seu marido, mas ela não era casada ainda. Assim, ela andava inteiramente coberta, da cabeça aos pés. E o rei pensava: “essa beleza é tamanha, e, no entanto, só nós temos acesso a ela, eu gostaria que essa beleza fosse eternizada, imortalizada. Como vou fazer isso? Uma pintura? Um quadro? Uma escultura? Um poema” Ele ainda não conseguia solucionar o problema.

Um dia chama todos os seus mensageiros e manda espalhar por toda a Ásia, a mensagem de que a mulher mais linda jamais vista se casaria com aquele príncipe que fosse capaz de imortalizar a sua beleza. Para isso ele abriria essa exceção e os príncipes poderiam vê-la.[5]

Os príncipes chegam, devem contemplar a princesa e convencer pela arte. Senão, perdem a cabeça.

O primeiro príncipe entra numa câmara toda perfumada, maravilhosamente iluminada, onde a princesa aparece completamente nua, ele a contempla, conversa com ela, e sai sob o efeito de uma profunda impressão, vai até o centro do palácio onde o rei está, e começa a recitar um poema que deveria imortalizar a beleza da princesa, e diz algo como:

Seus olhos brilham como as estrelas mais brilhantes
Seus cabelos são lisos e negros como a pele do mink
Sua pele é clara e macia como a neve do Monte Sagrado...

E assim por diante, fazendo comparações. O rei olha, pensa e sentencia: ‘não convenceu’.

O segundo, contempla a princesa, posta-se diante do rei, e diz:

É bela, mas a virtude é que interessa
É tão boa, tão agradável
Tão inteligente, será tão boa esposa
Gerará filhos tão maravilhosos...

O rei queria imortalizar a beleza de sua filha, e aparece esse príncipe discursando sobre sua virtude! ‘Não convenceu’.

O terceiro, depois de se recompor da visão maravilhosa diz apenas estes dois versos:

peixes se afogam
gansos desviam

O rei olha, reflete, e diz: ‘convenceu, você tem a mão da princesa, você será o futuro rei’. E todos viveram felizes para sempre.

Por quê? O que diz esse poema a respeito dessa mulher maravilhosa? O príncipe foi suficientemente inteligente para não comparar essa beleza incomparável com coisa alguma. No entanto, ele a expressou numa imagem. Ele tentou, de alguma forma, enunciar poeticamente os efeitos que tamanha beleza causava.

peixes se afogam
gansos desviam

Peixes se afogam? Peixes morrem afogados? E os gansos? Para entender essa questão dos gansos, mais um passo é necessário. Conhecimento histórico que acumulado contribui para formar a interpretação e comentário do poema. “Gansos desviam”. Gansos já foram utilizados como guardas. Não era normal para um “ganso-de-guarda” desviar, fugir do que está diante dele, ele ataca, vai em direção, não desvia.

Qual o efeito que aquela beleza produzia? A ordem natural das coisas se modificava: os peixes se afogavam, e os gansos desviavam. A beleza dela era tamanha que desequilibrava, os peixes e os gansos não saberiam lidar com tamanha beleza.

Esse é o princípio da construção da imagem poética.

Manuel Bandeira tem um ‘belíssimo’ poema intitulado “Poemeto Erótico”, no qual é possível perceber a construção de muitas dessas imagens.

Poemeto Erótico

Manuel Bandeira

Teu corpo é tudo o que brilha
Teu corpo é tudo o que cheira
Rosa, flor de laranjeira

Teu corpo, claro e perfeito
Teu corpo de maravilha
Quero possuí-lo no leito estreito da redondilha

Teu corpo, branco e macio
É como um véu de noivado.
Teu corpo é pomo doirado,
Rosal queimado de estio
Desfalecido em perfume
Teu corpo é a brasa do lume

Teu corpo é chama
E flameja como à tarde os horizontes
É puro como nas fontes a água clara que serpeja,
Que em cantigas se derrama, volúpia da água e da chama

Teu corpo é tudo o que brilha,
Teu corpo é tudo o que cheira.

A todo momento o vejo
Teu corpo, a única ilha no oceano do meu desejo.

O que está acontecendo nesse poema? O que o poema está descrevendo? O que o "eu" lírico, aqui presente, tem diante de si? Qual é o objeto da enunciação lírica? O corpo da amada. Mas ele não o descreve: ‘teu corpo de um metro e setenta e cinco de altura, branco, etc., etc.’ Não, faz comparações: "teu corpo branco e macio é como um véu de noivado". Isso é uma comparação. ‘Teu corpo é a brasa do lume’. Isso é uma metáfora. ‘Teu corpo, a única ilha no oceano do meu desejo’. ‘Teu corpo... Rosa, flor de laranjeira’ Esse é o sentido e o segredo das imagens poéticas.

É necessário perceber os procedimentos, os modos, os tipos e a capacidade de entender formulações como essas. Formulações que dão sentido à própria poesia. Todo conceito de poesia no sentido estrito, isto é, no sentido de poesia lírica, envolve necessariamente esses dois âmbitos que se juntam e se definem mutuamente. O âmbito da sonoridade (sons, metros, e rimas) e o âmbito das imagens poéticas.

O conceito de imagem atravessa a história e as diversas línguas com vários sentidos. Alfredo Bosi cita uma passagem muito interessante que traz uma primeira noção da idéia de imagem feita por Lucrécio:

"Digo, pois, que figuras e imagens tênues das coisas são emitidas pelos objetos e saem da superfície das coisas de tal modo que poderiam chamar-se suas membranas ou cascas. Cada uma delas traz a forma do objeto, qualquer que seja este e que emana para vagar no espaço."[6]

Lucrécio tenta resolver aqui o problema da formação dos conceitos. Ele se contrapõe a Platão e Aristóteles, baseando-se na filosofia materialista. Parte da idéia, um tanto abstrusa (para nós, hoje), de que as próprias coisas emitem imagens que vagam no espaço e são apreendidas e captadas pelas mentes constituindo assim as idéias dessas coisas. Por exemplo, se eu enuncio “cavalo”, todo mundo é capaz de representar a imagem do cavalo. Não há a necessidade de definir o conceito de cavalo, e a representação que se  forma na mente não é a palavra “cavalo”, C-A-V-A-L-O. Forma-se imediatamente na mente um cavalo. Um cavalo que foi o mais diverso possível. Alguém pode pensar um cavalo baio, outro, um pangaré, um puro-sangue, mas o cavalo aparece. Alguém pensaria o cavalo com cinco patas? Não. Porque, assim como o conceito, essa imagem, se ela emana da própria coisa, traz as suas formas próprias, as suas características. E isso fica na mente das pessoas. Quando eu enuncio uma combinação sonora decodificada, de algum modo a imagem, uma representação,[7] vem à mente. Se eu disser, por exemplo, “ornitorrinco”, aparece um ornitorrinco na sua cabeça. Quando eu enuncio essa combinação de sons que constitui uma palavra, você decodifica isso e resgata na mente, não o conceito de ornitorrinco,[8] mas sua imagem.

Essa imagem aparece de maneira difusa. Ninguém pára e vê a imagem do ornitorrinco tridimensional com todos os detalhes. Mas, a imagem aparece. Se eu disser “Lua”. Na cabeça de alguém pode aparecer “uma Lua nova”.na de outro, uma lua cheia, crescente, as quatro luas numa seqüência, mas ninguém  pensa: “satélite natural da Terra, sem luz própria que sempre apresenta à Terra a mesma face”. Ninguém pensa isso imediatamente em palavras. Não, mas pensa em imagens. Portanto, as palavras suscitam na mente, imagens.[9]

 

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Continua . . .

 



[1] Adorno, W. Theodor. Lírica e Sociedade. In: Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1975.

[2] Rigorosamente, não são versos, mas na tradução se apresentam como se fossem.

[3] Candido, Antonio. Na Sala de Aula.

[4] Nessa época a China não era ainda um país, eram vários reinos, impérios, dinastias, etc.

[5] Essa narrativa remete à “lenda de Turandot”. Uma lenda chinesa que teve uma ressonância importante na Europa, Schiller escreveu uma peça intitulada Turandot, Pucini escreveu uma ópera intitulada Turandot. A história de uma princesa lindíssima que só se casaria com o príncipe que solucionasse certo enigma.

[6] Lucrécio, De Rerum Natura (Das Coisas da Natureza)

[7] Em alemão, representação é vorstellung, “aquilo que eu coloco diante de mim, diante do meu espírito”.

[8] O conceito total da descrição biológica do ser “ornitorrinco”, mamífero monotremado do gênero Ornithorhynchus, da família dos ornitorrinquídeos, com uma única espécie (Ornithorhynchus anatinus), aquática e ovípara, encontrada em rios e lagos da Austrália e Tasmânia; com cerca de 50 centímetros de comprimento, patas dotadas de membranas, cauda semelhante à do castor, bico sensitivo, que lembra o dos patos, e membros posteriores dotados de esporões venenosos [As fêmeas colocam de um a três ovos, do tamanho aproximado do ovo de um pardal.]

[9] Esse é um mistério que desde os antigos gregos se tenta resolver e até hoje não foi muito bem resolvido.