|
.
Quando
leio um poema e penso: ‘esse poema é bom’. Por que eu penso que é
bom? Será por causa do seu sentido e teor poético? Por causa do seu teor
de ‘verdade’ e de conhecimento? Esse poema ‘bom’ tem alguma coisa
a dizer sobre a minha vida? Tem alguma coisa a dizer sobre o mundo?
Segundo Theodor Adorno, sim, de alguma forma todo bom poema tem algo a
dizer sobre a minha vida e sobre o mundo; eu não preciso
falar diretamente da sociedade e dos seus problemas cruciais para dizer
algo a respeito dela.[1]
Todo ‘bom’ poema, cada um deles, tem um ponto que diz respeito também
à minha realidade, aqui presente, coletiva; e também à minha
realidade íntima. Que
é o ‘bom’ poema? É o belo poema? Será que há uma regra do belo?
Essa consideração do belo é uma conquista da filosofia crítica do século
XVIII. O que significa dizer ‘isto é belo’? Kant discutiu esta questão.
O que o conduziu à formulação do famoso juízo reflexionante. Há juízos
determinantes, ou seja, conceitos gerais, os quais eu posso subsumir como
um objeto particular ou um outro conceito. Por exemplo, quando eu digo
‘isto é uma mesa’, eu comparo o objeto ao qual estou me referindo com
um conceito e testo se é verdadeiro ou falso. Eu tenho o conceito de mesa
que posso por à prova a cada momento em que enuncio este juízo. Mas,
quando eu digo ‘isto é belo’, busco o conceito de “belo” e não
encontro. Eu não tenho o conceito de belo, externo àquele objeto
singular que está diante de mim. Portanto, o belo não tem
conceito. Essa falta de regra é uma característica do juízo
reflexionante. Tenho que provar a cada momento na relação com o objeto
específico, o que o torna belo. Uma vez que eu digo “isto é belo”,
esse juízo tem que ser universalmente aceito. Todos devem concordar com
ele, mesmo que não concordem. Por quê? Porque quando digo “isto é
belo”, estou transferindo ao objeto um sentimento privado individual
meu. Conseqüentemente, estou exigindo a aceitação de todos, porque
estou transferindo ao objeto esta qualidade. Assim, uma das características
de ‘se o poema é bom, ou não, é belo, ou não’, passa um pouco por
esse caráter reflexionante do juízo. Não é regra, mas há condições,
há pressupostos e há a exigência que isso seja compartilhado. .Se eu
souber como me colocar diante de um poema, serei capaz de transmitir meus
sentimentos, idéias, conclusões, percepções, intuições, etc., aos
outros. Como
fazê-lo? Como se posicionar diante do poema para transmitir esses
elementos todos? É isso que pretendo apresentar aqui. Através da
verificação dos métodos e técnicas de análise, comentário e
interpretação do poema. Imagem
e Imagem Poética Estou
diante do seguinte poema: tcha dü Que
posso dizer sobre ele? Se a teoria da sonoridade expressiva vigorasse em
toda sua força, eu já teria sido impactado pela ‘beleza’ dessa
combinação sonora, essa articulação de vogais e consoantes: tcha dü Mas,
não. É necessário um passo a mais, um passo que mesmo cheio de complicações,
é necessário nesse caso. A tradução desse poema: peixes se
afogam Posso
dizer que é um belo poema? O que posso dizer sobre esses dois versos?[2]
Dois substantivos, dois verbos, plural, animais... peixes se
afogam Apenas
a tradução não é suficiente, é necessário mais um passo. Esse poema
tem uma história que elucida um pouco o seu sentido. Às vezes isso também
tem que ser levado em consideração. Antonio Candido diz que eu devo
utilizar tudo o que estiver à mão para que o poema possa ser
interpretado.[3]
Nesse caso, a história da gênese do poema é importantíssima para a
delimitação de seu sentido. Existe
uma antiga narrativa chinesa que reza que por volta do século IV aC, um
rei de uma região da China[4] tinha a felicidade de ter
uma filha, a princesa, absolutamente linda, estonteantemente linda, a
mulher mais linda jamais criada na Terra. O problema era que quem sabia
disso eram o rei, a rainha e as amas, porque essa princesa não podia ser
vista por ninguém, a não ser por seu marido, mas ela não era casada
ainda. Assim, ela andava inteiramente coberta, da cabeça aos pés. E o
rei pensava: “essa beleza é tamanha, e, no entanto, só nós temos
acesso a ela, eu gostaria que essa beleza fosse eternizada, imortalizada.
Como vou fazer isso? Uma pintura? Um quadro? Uma escultura? Um poema”
Ele ainda não conseguia solucionar o problema. Um
dia chama todos os seus mensageiros e manda espalhar por toda a Ásia, a
mensagem de que a mulher mais linda jamais vista se casaria com aquele príncipe
que fosse capaz de imortalizar a sua beleza. Para isso ele abriria essa
exceção e os príncipes poderiam vê-la.[5] Os
príncipes chegam, devem contemplar a princesa e convencer pela arte. Senão,
perdem a cabeça. O
primeiro príncipe entra numa câmara toda perfumada, maravilhosamente
iluminada, onde a princesa aparece completamente nua, ele a contempla,
conversa com ela, e sai sob o efeito de uma profunda impressão, vai até
o centro do palácio onde o rei está, e começa a recitar um poema que
deveria imortalizar a beleza da princesa, e diz algo como: Seus olhos
brilham como as estrelas mais brilhantes E
assim por diante, fazendo comparações. O rei olha, pensa e sentencia:
‘não convenceu’. O segundo,
contempla a princesa, posta-se diante do rei, e diz: É bela,
mas a virtude é que interessa O
rei queria imortalizar a beleza de sua filha, e aparece esse príncipe
discursando sobre sua virtude! ‘Não convenceu’. O
terceiro, depois de se recompor da visão maravilhosa diz apenas estes
dois versos: peixes se
afogam O
rei olha, reflete, e diz: ‘convenceu, você tem a mão da princesa, você
será o futuro rei’. E todos viveram felizes para sempre. Por
quê? O que diz esse poema a respeito dessa mulher maravilhosa? O príncipe
foi suficientemente inteligente para não comparar essa beleza incomparável
com coisa alguma. No entanto, ele a expressou numa imagem. Ele tentou, de
alguma forma, enunciar poeticamente os efeitos que tamanha beleza causava. peixes se
afogam Peixes
se afogam? Peixes morrem afogados? E os gansos? Para entender essa questão
dos gansos, mais um passo é necessário. Conhecimento histórico que
acumulado contribui para formar a interpretação e comentário do poema.
“Gansos desviam”. Gansos já foram utilizados como guardas. Não era
normal para um “ganso-de-guarda” desviar, fugir do que está diante
dele, ele ataca, vai em direção, não desvia. Qual
o efeito que aquela beleza produzia? A ordem natural das coisas se
modificava: os peixes se afogavam, e os gansos desviavam. A beleza dela
era tamanha que desequilibrava, os peixes e os gansos não saberiam lidar
com tamanha beleza. Esse é o
princípio da construção da imagem poética. Manuel
Bandeira tem um ‘belíssimo’ poema intitulado “Poemeto Erótico”,
no qual é possível perceber a construção de muitas dessas imagens. Poemeto EróticoManuel
Bandeira Teu corpo
é tudo o que brilha Teu corpo,
claro e perfeito Teu corpo,
branco e macio Teu corpo
é chama Teu corpo
é tudo o que brilha, A todo
momento o vejo O
que está acontecendo nesse poema? O que o poema está descrevendo? O que
o "eu" lírico, aqui presente, tem diante de si? Qual é o
objeto da enunciação lírica? O corpo da amada. Mas ele não o descreve:
‘teu corpo de um metro e setenta e cinco de altura, branco, etc.,
etc.’ Não, faz comparações: "teu corpo branco e macio é como
um véu de noivado". Isso é uma comparação. ‘Teu corpo é a
brasa do lume’. Isso é uma metáfora. ‘Teu corpo, a única ilha no
oceano do meu desejo’. ‘Teu corpo... Rosa, flor de laranjeira’ Esse
é o sentido e o segredo das imagens poéticas. É
necessário perceber os procedimentos, os modos, os tipos e a capacidade
de entender formulações como essas. Formulações que dão sentido à própria
poesia. Todo conceito de poesia no sentido estrito, isto é, no sentido de
poesia lírica, envolve necessariamente esses dois âmbitos que se juntam
e se definem mutuamente. O âmbito da sonoridade (sons, metros, e rimas) e
o âmbito das imagens poéticas. O
conceito de imagem atravessa a história e as diversas línguas com vários
sentidos. Alfredo Bosi cita uma passagem muito interessante que traz uma
primeira noção da idéia de imagem feita por Lucrécio: "Digo,
pois, que figuras e imagens tênues das coisas são emitidas pelos objetos
e saem da superfície das coisas de tal modo que poderiam chamar-se suas
membranas ou cascas. Cada uma delas traz a forma do objeto, qualquer que
seja este e que emana para vagar no espaço."[6] Lucrécio tenta resolver aqui
o problema da formação dos conceitos. Ele se contrapõe a Platão e
Aristóteles, baseando-se na filosofia materialista. Parte da idéia, um
tanto abstrusa (para nós, hoje), de que as próprias coisas emitem
imagens que vagam no espaço e são apreendidas e captadas pelas mentes
constituindo assim as idéias dessas coisas. Por exemplo, se eu enuncio
“cavalo”, todo mundo é capaz de representar a imagem do cavalo. Não
há a necessidade de definir o conceito de cavalo, e a representação que
se forma na mente não é a
palavra “cavalo”, C-A-V-A-L-O. Forma-se imediatamente na mente um
cavalo. Um cavalo que foi o mais diverso possível. Alguém pode pensar um
cavalo baio, outro, um pangaré, um puro-sangue, mas o cavalo aparece.
Alguém pensaria o cavalo com cinco patas? Não. Porque, assim como o
conceito, essa imagem, se ela emana da própria coisa, traz as suas formas
próprias, as suas características. E isso fica na mente das pessoas.
Quando eu enuncio uma combinação sonora decodificada, de algum modo a
imagem, uma representação,[7]
vem à mente. Se eu disser, por exemplo, “ornitorrinco”, aparece um
ornitorrinco na sua cabeça. Quando eu enuncio essa combinação de sons
que constitui uma palavra, você decodifica isso e resgata na mente, não
o conceito de ornitorrinco,[8] mas sua imagem. Essa
imagem aparece de maneira difusa. Ninguém pára e vê a imagem do
ornitorrinco tridimensional com todos os detalhes. Mas, a imagem aparece.
Se eu disser “Lua”. Na cabeça de alguém pode aparecer “uma Lua
nova”.na de outro, uma lua cheia, crescente, as quatro luas numa seqüência,
mas ninguém pensa: “satélite
natural da Terra, sem luz própria que sempre apresenta à Terra a mesma
face”. Ninguém pensa isso imediatamente em palavras. Não, mas pensa em
imagens. Portanto, as palavras suscitam na mente, imagens.[9]
. . . Continua . . .
[1]
Adorno, W. Theodor. Lírica
e Sociedade. In: Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1975. [2]
Rigorosamente, não são versos, mas na tradução se apresentam como
se fossem. [3]
Candido, Antonio. Na Sala de Aula. [4]
Nessa época a China não era ainda um país, eram vários reinos, impérios,
dinastias, etc. [5]
Essa narrativa remete à “lenda de Turandot”. Uma lenda chinesa
que teve uma ressonância importante na Europa, Schiller escreveu uma
peça intitulada Turandot, Pucini escreveu uma ópera
intitulada Turandot. A história de uma princesa lindíssima
que só se casaria com o príncipe que solucionasse certo enigma. [6]
Lucrécio, De Rerum Natura (Das Coisas da Natureza) [7]
Em alemão, representação é vorstellung, “aquilo que eu
coloco diante de mim, diante do meu espírito”. [8]
O
conceito total da descrição biológica do ser “ornitorrinco”,
mamífero monotremado do gênero Ornithorhynchus, da família
dos ornitorrinquídeos, com uma única espécie (Ornithorhynchus
anatinus), aquática e ovípara, encontrada em rios e lagos da
Austrália e Tasmânia; com cerca de 50 centímetros de comprimento,
patas dotadas de membranas, cauda semelhante à do castor, bico
sensitivo, que lembra o dos patos, e membros posteriores dotados de
esporões venenosos [As fêmeas colocam de um a três ovos, do tamanho
aproximado do ovo de um pardal.] [9]
Esse é um mistério que desde os antigos gregos se tenta resolver e
até hoje não foi muito bem resolvido. |