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Manifestações Artísticas LG-I, 1990 Denny Marquesani O homem sempre retratou suas atividades e seu pensamento nas mais diversas manifestações artísticas que são tremendamente influenciadas pelo estilo ou moda da época. Assim, através das artes podemos ter uma idéia bem nítida da evolução do pensamento do homem. Como esse processo parte de uma espécie de caos e caminha gradualmente em direção à ordem, a evolução pode ser percebida através da análise das diversas manifestações artísticas que as antigas civilizações nos deixaram. Assim, os primitivos gregos possuíam sua mitologia e teologia rudimentares que eram um tanto quanto nebulosas, mas que acabaram por desenvolver-se numa das mais lindas explicações para as grandes questões dos homens. Vejamos como isso se deu. Como se deu essa sistematização do pensar deidades dos gregos. Para isso dispomos das diversas formas de manifestação da arte grega. Nesse momento privilegiaremos a literatura. Então, de que dispomos com relação à literatura grega? Como todos sabem, dispomos dos escritos pré-homéricos, os de Homero e os de Hesíodo. Mas como a evolução da concepção teológica e mesmo filosófica é percebida nessa literatura? Os escritos pré-homéricos já davam um vislumbre menos volátil das deidades do que a tradição oral, de modo que os contornos divinos começavam a se tornar mais nítidos. Mas a carga maior de sistematização aparece em Homero e culmina em Hesíodo. Na Ilíada de Homero, a identidade dos deuses já começa a cristalizar-se, embora tenham um comportamento irônico e burlesco. Escarnecem dos seres humanos enfurecidos, participam de batalhas, guerreiam entre si. Provocando a frustração nos seres humanos. Na Ilíada, os deuses são meio diabólicos. Alguns intérpretes consideram a Ilíada um poema não religioso, não piedoso. Já na Odisséia, também de Homero, a piedade moralizante passa a substituir a ironia quase humana dos deuses na Ilíada. O bem passa a ser valorizado, a fidelidade e a virtude também. Tanto é que a divindade virtualmente ativa na Odisséia é Atena, a deusa da sabedoria e da virtude. Mas o apogeu da sistematização se dá com Hesíodo. A Teogonia é realmente um compêndio de religião grega, e o Catálogos, sua continuação. São duas obras de Hesíodo: a Teogonia e o Catálogos. Na obra de Hesíodo, a nebulosidade praticamente se desfaz. Ele cataloga os deuses, suas origens, seus mitos, genealogias e assim por diante. A teologia e a mitologia começam a cristalizar-se. É interessante salientar que na literatura de Hesíodo já é possível perceber com maior facilidade o sentido mais profundo e até filosófico que residia nos mitos: “Era uma vez um deus chamado Urano (Céu) e uma deusa chamada Géa (Terra). Toda noite, Urano (Céu Estrelado) deitava-se sobre Géa (a Terra), fecundando-a com sua chuva noturna. De tanto cobri-la e fecundá-la, Urano e Géa tiveram muitos filhos. Ocorre que Urano mantinha seus filhos confinados às trevas temendo que algum deles lhe suplantasse e tomasse o poder. Ainda mais porque havia um antigo oráculo que dizia que um de seus filhos o subjugaria. Mas Géa andava nervosa com o fato de ter tantos filhos e ter de deixá-los nas trevas. Assim, incita a rebelião de seus filhos contra o pai, mas só Cronos (o Tempo), o mais jovem e mais ousado é que empreende a feita. Assim, numa das noites em que Urano cobria Géa, Cronos, sob a orientação de sua mãe, decepa o pênis do pai, tornando-o impotente e subjugando-o. Cronos ( o Tempo) passa a ser o soberano do universo. Acontece que também havia um antigo oráculo que dizia que um dos filhos de Cronos lhe tomaria o poder. Então, Cronos temendo tamanha desgraça devorava todos os filhos que lhe nasciam. Mas certo dia, sua esposa ficou saturada da teofagia e preparou um plano para que um de seus filhos não fosse devorado. Escondeu Zeus numa caverna e no lugar do filho deu uma pedra envolta em panos para Cronos comer. Assim, Zeus cresceu e com a ajuda de outros seres venceu seu pai. Zeus provocou uma revolução titânica, tomou o poder e tornou-se o deus dos deuses. Mas havia um outro antigo oráculo...
O fato de numa época o deus do universo ser Urano, o Céu, demonstra que numa determinada ocasião o ser humano se prendia mas intensamente aos elementos pertinentes aos fenômenos celestes e à natureza. Quando Cronos (o Tempo) passa a ser o soberano do universo, denota que os homens tiveram sua consciência ampliada no sentido de se preocuparem, agora de forma mais equilibrada, com os elementos quotidianos de sua vida. O fato de Cronos (o Tempo) comer, consumir seus próprios filhos nos revela uma verdade fundamental que nenhum de nós pode negar: o próprio tempo se encarrega de destruir aquilo que ele mesmo produz.
Na Teogonia, a identidade, a imagem e a personalidade dos deuses passam a fixar-se, bem como sua mitologia. As artes vão refletir essa cristalização da mitologia. Não só refletir como contribuir muitissimamente. Na arquitetura, não encontraremos mais aqueles monumentos primitivos, tribais, mas sim grandes construções como o Partenon, por exemplo, que é uma das mais maravilhosas obras dedicadas às deidades. Na escultura, não mais veremos uma estátua dinâmica em movimento, guerreando, mas sim um deus numa posição que inspira reverência, como, por exemplo, o Zeus sentado, estático, em seu trono, “prontinho” para ser adorado. É importante salientar que essas esculturas apresentam as divindades portando seus instrumentos peculiares, seus animais e plantas preferidos, o que mais ainda contribui para o processo de sistematização e cristalização da mitologia. O que coroou essa cristalização da mitologia grega com a identificação nítida das divindades com seus atributos, imagens e tudo o mais, foi a cunhagem de moedas que ostentavam a efígie do deus e representações de seus atributos, personalidade e assim por diante. Inevitavelmente, as moedas circulavam e todo mundo passava a entender a mitologia de forma semelhante. Assim, chegamos à concepção da mitologia grega que hoje estudamos, e que é uma das jóias do conhecimento humano. Tanto que a ciência moderna recorre à mitologia grega para explicar até mesmo o comportamento humano. E iluminando-o em muitos casos. |