Análise
e Comentário do Conto
Marcha do Sol nas Regiões Temperadas
de Moacyr Scliar
Denny
Marquesani
Um
conto para que possa ser classificado como conto tem que reunir certas
características que o distingam de outros formatos literários como o
poema e o romance. Deve produzir um efeito único e intenso que ultrapasse
o final da leitura, apresentar totalidade e unidade. Tem que gerar
expectativas (algo vai acontecer). Não pode ser muito longo para poder
ser lido de uma única assentada, o que garantirá o efeito. Este que
analisaremos não é tão curto. Foi construído em cento e vinte parágrafos,
cujo tema é uma longa busca cuja necessidade não se mostrou imperiosa.
Contém um único conflito, compondo uma unidade de começo, meio e fim. A
situação inicial é a gravidez da protagonista, .que também é o nó
que provoca a ação e determina todo o desenrolar da fábula e a intriga.
Logo adiante, o conflito é introduzido: alguém “sem pai” tem de
tornar-se “alguém com pai”, “alguém sem marido” quer tornar-se
“alguém com marido”. O caso nos é remetido a partir do terceiro parágrafo,
através do narrador onisciente, em terceira pessoa, que já conhece a
história toda e procura demonstrar todo esse conhecimento nesse mesmo
terceiro parágrafo: “e isto, mais tarde, em retrospecto, parecerá a
Marlene um presságio”. Essa reflexão em retrospecto por parte de
Marlene não aparece no conto, portanto o narrador conhece o futuro, um
futuro que está para além do próprio conto e ao qual o leitor não tem
acesso. Vai além do final da leitura. Esse narrador nos relata o espaço,
tempo e personagens, revelando-nos o conflito, ou drama, que junto com as
metáforas do sol é a unidade principal do conto.
Neste conto, os eventos são narrados
em ordem linearmente cronológica, conforme vão se sucedendo. O tempo da
trama está sincronizado com o tempo da fábula; nesse aspecto aproxima-se
mais da caracterização linear de Maupassant. Não há bandido nem herói.
Esse conto é a condensação de um romance.
O
início do conto se dá numa data real, um domingo em 1957, quando faz três
anos que morreu Getúlio Vargas (página51, linhas 5 e 9). Essa referência
a uma data real estabelece uma ligação entre a história do conto e a
História do Brasil, conferindo-lhe um caráter de verossimilhança.
O
clímax se dá na conclusão, quando Marta encontra sua filha na rodoviária
de Buenos Aires, uma sem saber que a outra é a filha, e a outra sem saber
que a uma é a mãe. No entanto miram-se intensamente. O narrador informa
que Clara tem nesse momento dezoito anos. Aí percebemos que Marta gastara
dezoito anos buscando um pai que Clara nem sequer precisou, muito menos
agora que já tem mais idade do que a própria mãe ao começar essa
busca. No fim ao mirar sua filha, bem que caberia mais um exercício de
fisiognomonia à moda de O Homem da Multidão de Edgard Alan Poe,
que Marta praticara logo após chegar a São Paulo (páginas 53 a 54):
[“olha lá uma menina, cuja mãe saiu em busca de um pai para ela,
abandonando-a pequenina, mas ela foi em frente...”] Esse momento
decisivo em que mãe e filha, sem se conhecerem, se miram, põe em
perspectiva tudo o que Marta poderia ter realizado junto a sua filha e que
jamais realizará.
Marta
não se modifica no decorrer do tempo e também não apresenta nenhuma
outra faceta de sua personalidade. É uma personagem plana. No fim do
conto com cerca de 34 anos, ainda temos a impressão de tratar-se da mesma
menina de 16 anos que saiu de Santa Catarina. Aparentemente não
amadureceu. As decepções e invertidas da vida não a modificaram.
O
narrador oscila entre onisciente neutro e onisciente intruso.O conto é
narrado em terceira pessoa, o conhecimento e o controle por parte do
narrador são ilimitados, ele descreve até os pensamentos dos
personagens, mesmo aqueles que serão pensados fora do escopo do conto:
“e isto, mais tarde. em retrospecto. parecerá a Marlene um presságio”
(página 51, linhas 12 e 13). Às vezes (muito raramente), emite juízos
sobre os personagens: “Severidade é a marca característica dos
moradores da pequena cidade, todos descendentes de morigerados imigrantes
alemães...” (página 52, linhas 2–4); “Marlene agora está
arrasada. Moça de conduta exemplar...” (página 52, linha 12).
“No
céu, ora de leste para oeste, ora de norte para sul, ora de sul para
oeste, voejam (e isto, mais tarde. em retrospecto. parecerá a Marlene um
presságio) aves pretas. de gênero e espécie desconhecidos.” (página
51, § 3). Essas aves pretas que voejam parecem ser um símbolo trágico do futuro de
Marta. Marta viaja nas diversas direções cardeais em busca de algo que não
encontra, viaja em círculos sem progredir sempre voltando à situação
inicial: “filha sem pai”, “mãe sem marido”. E nessa busca infrutífera
e desnecessária ela gasta toda sua juventude, longe daquela cuja importância
é tanta que desencadeara toda essa busca, o que é bem trágico:
Página
66, § 12: “Deixa-o e segue para oeste.”
Página
62, § 1: “Mas me parece que era mais para o norte do que para o sul.”
Página
67, § 2: “Ruma para o sul, para a gelada Patagônia, lá onde a neve
lhe despertará saudades do pálido sol das regiões temperadas.”
A
Fábula
Marta,
menina de dezesseis anos do interior de Santa Catarina, encontra-se grávida.
Com medo do pai foge de casa. Volta seis meses depois, apenas para
entregar a filha à sua irmã Marlene. Vai a São Paulo e só pretende
voltar quando encontrar um pai para sua filha. Passa cerca de dezoito anos
buscando esse pai. Viaja pelo Brasil todo. Viaja até fora do país. Não
volta para casa. Mesmo quando Clara, sua filha, passou a ter mais idade do
que ela quando partiu em busca desse pai, não desistiu desta busca.
É
um conto não tão curto, onde a história principal é a busca de Marta
por um pai para Clara, sua filha (ou a busca de um marido para si).
Apresenta várias outras “micro-histórias afluentes” das pessoas com
quem Marta se associa, às vezes há algum aprofundamento (cena: a história
do “velho-bebê” nas páginas de 54 a 57; do doutor Ricardo, páginas
58 a 61; e do português José Reis na página 65), às vezes, apenas sumário
(“Armando, geólogo, Rui, motorista de caminhão, Aristeu, sacerdote de
uma seita secreta. César, vereador, Peixoto, quitandeiro, Negrinho,
mestre-de-obras. Inácio, colono.” Páginas 64 e 65; “E uma noite, seis
meses depois, vem bater à porta de Marlene. Traz o bebê, uma linda
menina.” Página 53, linhas 2-3). Essa busca de um pai para Clara
garante a unidade do conto, mas não apenas essa busca. As metáforas
relacionadas ao sol personificado também.
O
Título
Marcha
do Sol nas Regiões Temperadas. O
sol é um dos elementos que garantem a unidade deste conto. Ele está
presente não só do começo ao fim, mas, literalmente, no começo e no
fim. Começa com o sol no título. Sol é o primeiro
substantivo do primeiro parágrafo e o penúltimo da última frase. Começa
e termina com sol. No transcorrer do conto aparece diversas vezes:
Página
49:
“Marcha do sol nas regiões temperadas” — título.
Página
51, § 1: “O sol das regiões
temperadas ilumina, com brilho naturalmente menos esplendoroso que o dos
trópicos, as terras de Santa Catarina.”
Página
51 § 4: “O sol está alto,
e a sombra que projeta no chão, a sombra de Marta...”
Página
53 § 4: “O sol de Santa
Catarina, o sol que ilumina vales plácidos e suaves colinas, jamais viu
tanta gente!”
Página
54, § 3: “Seu destino foi
traçado sob o sol bondoso de Santa Catarina.”
Página
59 § 6: “O sol catarinense
os verá sempre abraçados. Felizes...”
Página
67 § 2: “Ruma para o sul,
para a gelada Patagônia, lá onde a neve lhe despertará saudades do pálido
sol das regiões temperadas.”
Espaço
A
ação se dá por diversos espaços, Marta como que zanza dum espaço para
outro. Reproduzindo o movimento das aves agourentas. Em outros momentos
encontramos também a configuração de ambientes: a mansão do
“velho-bebê”, o consultório do dr Ricardo.
Desfecho
Há
um desfecho negativo, Marta não encontrará um pai para sua filha. Tudo
indica que também não mais encontraria sua filha. Aí, curiosamente, o
narrador faz uma intervenção comportando-se de modo totalmente diferente
de seu modo em todos os outros momentos do conto. Ele, como que assume a
posição do leitor e pergunta: “Mas então nunca se encontram, mãe e
filha?” (Página 66, § 14) Aí há um desfecho positivo: Marta encontra
sua filha. Mas não sabemos se ela a reconhece ou não. Provavelmente não.
O que leva a crer que a correspondência entre Marlene e Marta havia
cessado há tempo. Assim, Clara reconheceria menos ainda a mãe. E Marta
parte para a gelada Patagônia.
Nesse
momento, à la Júlio Cortázar, sentimos aquele mal estar misturado com
um vazio, o impacto, das ondas de choque que ainda estão configurando
este mundo no qual a narrativa se insere. Os sentidos do que está
acontecendo ainda estão abertos. As ondas de choque da explosão ainda
ressoam.
Conclusão
Trata-se
de um interessante conto muito bem costurado, de fato fisga o leitor desde
as primeiras linhas. O “algo vai acontecer” está constantemente
presente angustiando e dando prazer ao leitor. A ingenuidade de Marta que
pensa que é só chegar e escolher um marido é intrigante. Mas por outro
lado, será que essa menina não usou tudo isso como desculpa para poder
viver em total liberdade e fazer o que bem quisesse sem ter que dar
satisfações a ninguém? Especialmente ao pai tão severo? Ela nem sabia,
com certeza, quem era o pai de sua filha! Provavelmente as duas coisas,
mesmo que ela não tivesse consciência clara disso.
Bibliografia
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São Paulo: Ática, 1990.
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A Personagem de Ficção. São Paulo: Perspectiva, 1972
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Ligia Chiappini Moraes. O
Foco Narrativo. São Paulo: Ática, 2002.
Maria,
Luzia de.
O que É
Conto. São
Paulo: Brasiliense, 1987.
Nunes,
Benedito.
O Tempo na Narrativa. São Paulo: Ática, 1989.
Scliar,
Moacyr.
A Marcha do Sol nas Regiões Temperadas in A Orelha de Van Gogh.
São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
P.S.:
Marta, na primeira tentativa de arrumar um pai para Clara, “arrumou”
mais um filho para si, o “velho–bebê”.
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