|
Mito e Dialética no Fedro de Platão
O Fedro de Platão em síntese é um "elogio" à dialética como um método de se chegar à verdade que só funciona com a pessoa que tem a qualidade de apreensão das verdades abstratas, isto é os filósofos. Para os demais, retórica. Apesar do caráter eminentemente racional da retórica e da dialética, os deuses não estão apagados da filosofia. Estão muito presentes nos diálogos platônicos. Mas não como estavam na tradição mítica. Platão escreve seus diálogos "mimetizando" a fórmula oral (isso já remete ao movimento dialético). Há neles a presença do elemento tradicional e do racional. Platão dialoga com a tradição mítica que ele já vê como ultrapassada num momento em que o embate entre o mundo arcaico mítico e o novo mundo racional está resolvido, em que a razão está estabelecida. Mesmo assim ele escreve reproduzindo a fórmula oral, isso dá um tom dinâmico ao diálogo. Num trecho do Fedro as musas são chamadas de musicais. Sócrates invoca as musas, mas faz uma inquirição totalmente etimológica e racional sobre o sentido da palavra "musa". Ele está juntando uma invocação arcaica tradicional com uma inquirição investigativa racional. Num outro trecho Sócrates pergunta ao Fedro se não parece que é um deus falando pela sua boca. Ainda num outro trecho, de repente, Sócrates começa a ouvir seus daimones. O demônio diz que Sócrates falou mal de um deus, que cometeu uma impiedade, falou mal de Eros e pode ser punido. Sócrates faz uma palinódia. Se no Platão a razão dialoga ativamente com o mito, o mito não é só passivo, dialoga ativamente com a razão também. É significativo que o pai da filosofia, Sócrates, dá ouvido às irrupções do divino. Para ilustrar esse imbricamento de razão e não-razão no Fedro, ordenemos a seqüência dos discursos: Primeiro, o discurso de Lísias é lido. Depois, Sócrates o critica racionalmente dizendo que o discurso estava desordenado e repetitivo. O diálogo não termina. Sócrates faz seu primeiro discurso. (Esses dois primeiros discursos partem de uma doxa muito facilmente aceitável porque é razoável e consensual). O discurso de Sócrates também é criticado, mas não racionalmente. Não se pode questionar a doxa que sustenta os primeiros dois discursos no mesmo patamar desses discursos, é preciso mudar a maneira de falar, por isso há a proposição de uma outra lógica discursiva que é na verdade mítica. Ocorre a troca da lógica discursiva. Há uma interferência crítica a partir de uma outra ordem não-racional mítica que escapa ao logos. O daimon de Sócrates diz que ele cometeu uma impiedade e deve corrigir seu erro para não ser punido. Sócrates faz seu segundo discurso, uma palinódia que apresenta toda uma teoria, toda uma descrição sobre o que é o discurso, o que é o conhecimento. O diálogo poderia parar aí, mas prossegue. Esses discursos, um após o outro, vão apresentando uma gradação partindo do mais técnico, formal e retórico chegando ao mítico. As críticas também apresentam essa gradação, a primeira critica a "invenção" no primeiro discurso, a segunda obriga Sócrates a desfazer a impiedade que cometera, a terceira mergulha discurso e crítica no mundo mítico. O movimento dialético é percebido na própria arquitetura desse diálogo: a contraposição de discursos polares (mítico e racional) que vão dividindo e refinando o conhecimento até chegar no método dialético propriamente dito no final quando Sócrates e Fedro dialogam (filosofam) efetivamente. |