Prêmio Nobel!?

04/10/03

Denny Marquesani
[Uma versão editada desse artigo foi publicada
 no excelente site de literatura Capitu. — D.M.]


O Nobel de literatura é o prêmio máximo que um escritor pode receber. Significa isso que quem o recebe foi «brasado» com as insígnias da excelência literária? Sim! Mas também, não! Poderíamos nos perguntar por que Proust nunca o ganhou? E Borges? Por que Sartre o rejeitou? Outros tantos que o ganharam não significam nada na história literária. Outros, nem mesmo foram lidos. Quem foi mesmo Frédéric Mistral? E alguém aí lembra de Romain Rolland?

A bola da vez é John Maxwell Coetzee, um sul-africano nascido na cidade do Cabo em 1940. Falante de africâner e com sofisticada formação como professor de Literatura, é autor de vários romances (ver relação abaixo) e professor visitante da Universidade de Chicago. Em seus escritos, Coetzee manifestou-se permanentemente preocupado com a história da África do Sul e a posição dessa sociedade em relação ao seu passado. Foi ganhador duas vezes do Book Prize, o mais importante prêmio literário britânico.

Coetzee é um artífice do discurso narrativo que, ao lapidar sua técnica, apresenta um completo domínio da prosa num texto com pouca emotividade, não engajado, mas construído com extrema perspicácia e milimétrica perfeição. A crítica à sociedade sul-africana não é explícita, está, quais diamantes, no subterrâneo de sua narrativa.

Em seu livro de 1999, Desonra, lançado no Brasil, revela-nos uma narrativa extraordinária que conduz à reflexão sobre os nódulos de ódio cristalizado que o longo tempo da dominação branca e do apartheid produziram naquele país, onde a pobreza e desigualdade trafegam sobre um rico subsolo de diamantes. É uma alegoria brilhante da África do Sul, onde a violência se espalha por todos os lados, indiscriminadamente, e a história fala por meio dos personagens que sem ter acesso ao «tu» negam o «eu» numa atitude passiva assumindo, mesmo quando vítima, uma culpa insuportável que deve ser punida «ritualisticamente». Como se o «tu» negado, agora cobrasse reconhecimento. 

Essa idéia do cobrador aparece também num conto de Rubem Fonseca cujo título é justamente O Cobrador. É o discurso do oprimido brotando parenteticamente no discurso do opressor. Como se o coletivo, o social estivesse introjetado no indivíduo. Como se a sociedade estivesse dentro dele. Portanto o interior do personagem não é mais o ego que se espelha solitariamente no quarto fechado de sua solidão. Porque a sociedade está lá dentro dele. E esse estar da sociedade dentro dele, nas cogitações de seus pensamentos, traz o personagem para fora, lá onde ele mergulha dentro de si.

Os Escritos de J. M. Coetzee:

  • Terras e Sombras –1974
    No coração do País –1977
    Waiting for the Barbarians –1980
    Vida e Época de Michael K –1983
    Foe –1986
    White Writing: on the Culture of Letters in South África –1988
    Age of  Iron –1990
    Doubling the Point: Essays and Interviews –1992
    The Master of Petersburg –1994
    Giving Offense: Essays on Censorship –1996
    Cenas de uma vida – 1997
    What is Realism? –1997
    Desonra –1999
    A Vida dos Animais –1999
    The Humanities in Africa –2001
    Stranger Shores Essays 1986/1999 –2001
    Youth –2001
    Elizabeth Costello: Eight Lessons –2003

Seria o Prêmio Nobel um instrumento para sensibilizar os políticos, intelectuais, líderes mundiais e mídia internacional com relação às etnias oprimidas? Uma “paranóia holocáustica?” Seria, então, no final das contas, um prêmio à “excelência ideológica”?

["Viajô!!!"]