Análise e Comentário do Poema
Como Esta Nuvem Caseira
de João Moura Jr.

30/09/2002

 Denny Marquesani

“Como também alguns dos vossos poetas disseram.”
Apóstolo São Paulo — Atos 17:28

O poema pode ser abordado por vários caminhos. Parece mais fácil começar pelos seus aspectos formais (quase que materiais) porque são mais tangíveis e, a partir deles, estabelecer as relações com o seu sentido.

COMO ESTA NUVEM CASEIRA

Como esta nuvem caseira,
trago a vida na algibeira.

Pequena nuvem portátil,
é não só dócil mas tátil.

No prado do céu estagnada,
é ela o verdadeiro nada.

Quando trarei a este balcão
o enfastiado traste-joão

e ousarei o que hoje não ouso?
Morte, onde está teu repouso?

(João Moura Jr. — Páginas Amarelas, 1988)

Freqüentemente, uma paráfrase lança luz sobre o poema, porque resolve algumas inversões e, para fazê-la, normalmente, distanciamo-nos um pouco dele observando-o a partir de  uma perspectiva mais panorâmica:

Ele (o “eu” lírico do poema) traz a vida numa algibeira como uma nuvem caseira, pequena, dócil e portátil. Ela (a nuvem ou a vida, talvez as duas) é o verdadeiro nada quando está estagnada no prado do céu. Ele (o “eu” lírico) pergunta (aparentemente a si-mesmo) quando trará o enfastiado traste–joão a um balcão e ousará o que hoje não ousa. Depois pergunta à morte, onde está o repouso dela.

Este poema é constituído de cinco estrofes, cada estrofe de dois versos, e cada verso de sete sílabas poéticas. Essa configuração não se encaixa no que é conhecido como forma fixa, como o soneto, a balada, a sextina etc. Podemos dizer que é um poema constituído de cinco estrofes mínimas, isto é de dois versos. Essa estrofe mínima de dois versos recebe o nome de dístico. Neste caso com rimas emparelhadas. Nas estrofes temos os versos heptassílabos ou redondilhas maiores.

O primeiro e o segundo verso de cada estrofe sempre terminam com a mesma sílaba, exceto na quarta estrofe, mas terminam com uma mesma rima vocálica. Sendo assim temos assonâncias perfeitas em todas as estrofes.

Encontramos várias repetições de consoantes iguais ou parecidas: t e d (na última estrofe a combinação dos sons z(s)–j–z(s)–m–z(s), produzem uma sensação lúgubre). Certamente essas aliterações reproduzem algum movimento no poema que remete ao sentido dele. As combinações de sons ta–‘ra–tra–da–pa–ta–ta–da–ta–ta–pra–da–da–ta–da–da–da–da–tra–ta–ta–tra–ta–ta–da–ta–ta–ta–pa reproduzem o som e o ritmo da partida de um motor que falha. Imagine alguém num carro movendo a chave da ignição para dar a partida e o motor não “pega”. Essa situação produziria um som que transcrito se aproximaria desses que recortados acima.

Esses elementos constituem a expressão sonora do poema, através dos quais é possível identificar seu ritmo. Ritmo que também remete ao sentido do poema.

Logo na primeira palavra do primeiro verso “como” indica uma comparação de “nuvem caseira” com “vida na algibeira”. Na segunda estrofe o poeta fala de “Pequena nuvem portátil, ... dócil ... tátil.” Literalmente, ninguém consegue portar uma nuvem, nem ela é dócil. Então provavelmente este elemento não é bem uma nuvem. Quê será?

A subjetividade que se expressa num poema é o “eu lírico” que por definição não é um “eu” individual, entretanto, este poema parece problematizar este ponto: na quinta estrofe encontramos a expressão “traste–joão”. João é o nome do autor do poema. Neste caso, o “eu lírico” é o próprio autor.

Essas considerações convergem para a revelação do sentido do poema. 

Há a comparação entre a vida e a nuvem. Uma nuvem que pode ser carregada e sentida. Uma nuvem quando está “na dela”, na sua posição “natural” é um verdadeiro nada. O que é que pode ser pequeno, carregado, dócil, sentido, apalpado e, quem sabe, branco como uma nuvem? Uma folha de papel.

O poeta só pode dizer que vive se fizer aquilo que é de sua natureza fazer, isto é, fazer poesia. Enquanto não faz a poesia é um poeta latente, em potencial, como se sua vida (o seu viver) estivesse guardada na algibeira (verso 2) como uma folha de papel em branco (verso1), um nada enquanto em branco (verso 6), que se é a folha do poeta, é uma folha prestes a ser usada para nela escrever o poema. Uma folha de papel é portátil, dócil (porque aceita tudo que nela se escreva) e tátil porque é material (versos 3 e4). Os versos 5 e 6 referem-se tanto à nuvem como à vida do poeta. A folha em branco de papel é um verdadeiro nada enquanto não for usada pelo poeta como também sua vida é um verdadeiro nada se ele não exercer sua profissão. Por que sua vida é um verdadeiro nada? Porque aparentemente, neste momento (este eterno presente —tempo verbal–poético), o poeta não consegue escrever (por alguma crise criativa, falta de coragem, ousadia), por isso a sonoridade do motor que não “pega” (algo o impede de pegar: falta de combustível, energia).

O poeta tem algo a dizer, mas não tem coragem de dizê-lo, talvez algo importante sobre si mesmo (o traste–João — verso 8). E a morte, sempre inesperada, sempre a espreita, e a qualquer momento, possível, pressiona o poeta a fazer o que deve, porque se não o fizer, sua vida será um verdadeiro nada como a folha em branco. Sentindo essa pressão e sem querer decidir, o poeta grita: Morte, por que você não vai dormir, e me dar um tempo? (“Morte, onde está o teu repouso?” – verso 10)

Aqueles outros sons lúgubres na última estrofe, z(s)–j–z(s)–m–z(s), remeter ao movimento da morte rondando o poeta, obrigando-o a fazer o que tem a fazer e logo porque a morte não descansa.

De quê trata o poema? Trata das forças que agem sobre o poeta. O impulso de escrever, a coragem para fazê-lo (dependendo do assunto), e a brevidade da vida avisando-lhe: faça logo porque você é mortal e a vida é curta.

 

Bibliografia

Campos, Geir. Pequeno Dicionário de Arte Poética. São Paulo: Cultrix, 1978.

Candido, Antonio. Na Sala de Aula. Caderno de Análise Literária. São Paulo: Ática, 1985.

__________. O Estudo Analítico do Poema. São Paulo: Humanitas–FFLCH (USP), 1993.

Goldstein, Norma. Versos, Sons, Ritmos. São Paulo: Ática, 2002.

Gomes, Heidi Strecker. Análise de Texto. São Paulo: Atual, 1991.