Ilíada: os Argumentos de Odisseu e Aquiles, e o Discurso de Sarpédon

Denny Marquesani
EGH, 24 de agosto de 2003

 

No canto IX da Ilíada, Odisseu usa alguns argumentos para persuadir Aquiles a voltar à batalha. Nos versos 230 e 231, Odisseu, apelando ao sentimento de solidariedade de Aquiles, diz que a salvação dos Aqueus depende dele, especificamente da qualidade guerreira que o distingue, sua força. Depois Odisseu passa a descrever os Troianos e, de modo especial, Heitor, mostrando que Zeus os está ajudando, e que Heitor, sendo beneficiado pelos deuses, se jacta de ser um guerreiro extraordinário. Odisseu tenta fazer com que o ímpeto guerreiro de Aquiles se excite ante a perspectiva de lutar com um adversário à sua altura. Tenta fazer com que a atenção de Aquiles se desvie de Agamêmnon para um inimigo muito mais formidável, com o qual ele poderia demonstrar sua característica principal, a força, e com quem seria muito mais interessante lutar. Em 232, Odisseu fala que os Troianos estabeleceram acampamento próximo às naus e à muralha. A palavra grega para acampamento aqui é auliV, um termo bastante raro em Homero, que remete ao sacrifício de Efigênia. Agamêmnon se viu obrigado a sacrificar a própria filha na ilha de AuliV, sem o qual todos teriam morrido. Odisseu usa essa palavra tentando evocar essa relação na mente de Aquiles, sugerindo que se ele não realizar o “sacrifício” de retroceder em relação a Agamêmnon e voltar para a luta, todos os Aqueus serão dizimados pelos Troianos. Mas não apenas, terá de haver um sacrifício literal para que Aquiles volte a lutar: a morte de seu querido amigo Pátroclo. Em 300 e seguintes, Odisseu apela a um outro sentimento de Aquiles, a piedade pelos outros Aqueus, retomando, de alguma forma o que já havia dito em 231, mas por outro lado, enfatiza que ao voltar à luta conquistará uma glória, um outro tipo de glória, o termo grego usado aqui é kudoV, uma outra palavra para glória, não  a glória imortal (que se torna matéria do canto dos poetas), mas uma glória momentânea, que se apresenta em vida oriunda do brilho que se demonstra ao lutar. É uma glória que se carrega consigo, enquanto se está presente.

Algo que talvez não devesse ser chamado de argumento, mas que de alguma forma funciona como tal é a ausência, no discurso de Odisseu, da introdução e da conclusão do discurso de Agamêmnon. Onde Agamêmnon reconhece seu erro e quer repará-lo. Provavelmente Odisseu omite isso porque desconfia que Agamêmnon não esteja sendo sincero e que certamente Aquiles o perceberia. Por outro lado, na conclusão Agamêmnon fala de maneira arrogante, dizendo que Aquiles deveria submeter-se a ele que era de fato real (basileuteroV). Duas partes do discurso de Agamêmnon que poderiam piorar a situação entre ele e Aquiles. Odisseu astuciosamente percebendo quais as possíveis reações por parte de Aquiles se antecipa e omite partes do discurso.

Sucede  que  Aquiles  contra-argumenta  apresentando  suas  razões  para  não  voltar.  A  contra-argumentação de Aquiles se dá em parte na forma de perguntas que não podem ser respondidas e exigências que não podem ser atendidas. Em 337-339 Aquiles diz, perguntando: “Por que é necessário Aqueus e Troianos se digladiarem? Por que tanta gente reuniu Agamêmnon e para cá transportou? Não por causa de Helena formosa?” Essa é a única passagem em que em Homero aparece o termo dei (é necessário). Segundo Milman Parry, não existe resposta a essa pergunta. É como se Aquiles estivesse perguntando: “Por que guerrear por causa de Helena, esposa de Menelau, quando Briseida, minha “esposa” é seqüestrada por Agamêmnon? Será que o simples rapto de uma esposa é uma desonra para os Atridas?” Ele exagera ao dizer que ama Briseida de todo o coração, quando na verdade ela representa apenas uma posse a mais. Em 387 Aquiles diz que “a própria honra não faz mais sentido”. Sendo assim, não há como seduzi-lo oferecendo algum tipo de honra já que  para ele a honra não tem mais sentido. Nos versos 380 e seguintes, Aquiles revela que nada poderia dobrar-lhe a vontade, a não ser que primeiro Agamêmnon sentisse algo igual ao que o próprio Aquiles sentira, que poderia ser sua derrota na guerra, pois todos os seus pares o acusariam de ter conduzido mal o exército levando-o à derrota. Agamêmnon sofreria uma grande vergonha perante seus pares. Isto seria suficiente para que Aquiles se dobrasse. Porque segundo, Christofer Gill, Agamêmnon não se humilhou de forma alguma, de fato ele mesmo poderia ter vindo ao acampamento de Aquiles, mas mandou emissários, que sequer vieram na condição de suplicantes como manda a tradição. Outra forma de Aquiles contra-argumentar ao discurso de Odisseu (Agamêmnon) é apropriando-se das palavras do discurso de Agamêmnon e ironicamente construindo um discurso que, embora irônico, coerente revela que conhecer suas verdadeiras intenções de Agamêmnon e portanto, se mantém intransigente.

Aquiles e Odisseu (aqui representando Agamêmnon) obscurecem através de seus discursos o que é o Código Heróico. Em alguns momentos parece que Agamêmnon está agindo fora do Código Heróico, outras vezes parece que quem está fora é Aquiles. O que gera várias teses contraditantes por parte de vários comentadores. Ler os discurso de Odisseu e Aquiles à luz do discurso de Sarpédon conduz a um entendimento mais claro porque as poderosas personalidades de Odisseu e Aquiles, bem como suas idiossincrasias obscurecem a opinião básica sobre o comportamento heróico. Tal opinião é articulada de maneira mais elucidativa por dois personagens relativamente menores, Sarpédon e Glauco, que lutam no lado do Troianos. No discurso, proferido por Sarpédon depois de arrebentar a muralha construída pelos gregos para proteger seus navios, ele explica por que os heróis se expõem aos terrores da guerra.

Este discurso oferece duas justificativas para o código heróico, uma baseada num sentido de obrigação social e outra numa compreensão mais fatalista de que a glória só é conseguida com a morte.

 

Bibliografia

Gill, Christofer. Personality in Greek Epic, Tragedy and Philosophy: The Self in Dialogue. Oxford , 1996.

Homero. A Ilíada (em versos). Tradução de Carlos Alberto Nunes. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001.

Omero. Iliade.Torino: Giulio Einaudi Editore, 1963.

Lynn – George, M. Epos: Word, Narrative and the Iliad. London, 1988.

Werner, Christian. Épica Grega: Homero: Aula do Curso de Língua Grega da FFLCH da USP proferida em 13/05/2003.