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Ilíada: os Argumentos de Odisseu e Aquiles, e o Discurso de Sarpédon Denny
Marquesani
No
canto IX da Ilíada, Odisseu usa alguns argumentos para persuadir Aquiles
a voltar à batalha. Nos versos 230 e 231, Odisseu, apelando ao sentimento
de solidariedade de Aquiles, diz que a salvação dos Aqueus depende dele,
especificamente da qualidade guerreira que o distingue, sua força. Depois
Odisseu passa a descrever os Troianos e, de modo especial, Heitor,
mostrando que Zeus os está ajudando, e que Heitor, sendo beneficiado
pelos deuses, se jacta de ser um guerreiro extraordinário. Odisseu tenta
fazer com que o ímpeto guerreiro de Aquiles se excite ante a perspectiva
de lutar com um adversário à sua altura. Tenta fazer com que a atenção
de Aquiles se desvie de Agamêmnon para um inimigo muito mais formidável,
com o qual ele poderia demonstrar sua característica principal, a força,
e com quem seria muito mais interessante lutar. Em 232, Odisseu fala que
os Troianos estabeleceram acampamento próximo às naus e à muralha. A
palavra grega para acampamento aqui é auliV,
um termo bastante raro em Homero, que remete ao sacrifício de Efigênia.
Agamêmnon se viu obrigado a sacrificar a própria filha na ilha de AuliV,
sem o qual todos teriam morrido. Odisseu usa essa palavra tentando evocar
essa relação na mente de Aquiles, sugerindo que se ele não realizar o
“sacrifício” de retroceder em relação a Agamêmnon e voltar para a
luta, todos os Aqueus serão dizimados pelos Troianos. Mas não apenas,
terá de haver um sacrifício literal para que Aquiles volte a lutar: a
morte de seu querido amigo Pátroclo. Em 300 e seguintes, Odisseu apela a
um outro sentimento de Aquiles, a piedade pelos outros Aqueus, retomando,
de alguma forma o que já havia dito em 231, mas por outro lado, enfatiza
que ao voltar à luta conquistará uma glória, um outro tipo de glória,
o termo grego usado aqui é kudoV, uma outra palavra para glória, não a glória imortal (que se torna matéria do canto dos
poetas), mas uma glória momentânea, que se apresenta em vida oriunda do
brilho que se demonstra ao lutar. É uma glória que se carrega consigo,
enquanto se está presente. Algo
que talvez não devesse ser chamado de argumento, mas que de alguma forma
funciona como tal é a ausência, no discurso de Odisseu, da introdução
e da conclusão do discurso de Agamêmnon. Onde Agamêmnon reconhece seu
erro e quer repará-lo. Provavelmente Odisseu omite isso porque desconfia
que Agamêmnon não esteja sendo sincero e que certamente Aquiles o
perceberia. Por outro lado, na conclusão Agamêmnon fala de maneira
arrogante, dizendo que Aquiles deveria submeter-se a ele que era de fato
real (basileuteroV).
Duas partes do discurso de Agamêmnon que poderiam piorar a situação
entre ele e Aquiles. Odisseu astuciosamente percebendo quais as possíveis
reações por parte de Aquiles se antecipa e omite partes do discurso. Sucede
que Aquiles
contra-argumenta apresentando suas
razões para
não voltar.
A contra-argumentação
de Aquiles se dá em parte na forma de perguntas que não podem ser
respondidas e exigências que não podem ser atendidas. Em 337-339 Aquiles
diz, perguntando: “Por que é necessário Aqueus e Troianos se
digladiarem? Por que tanta gente reuniu Agamêmnon e para cá transportou?
Não por causa de Helena formosa?” Essa é a única passagem em que em
Homero aparece o termo dei (é necessário).
Segundo Milman Parry, não existe resposta a essa pergunta. É como se
Aquiles estivesse perguntando: “Por que guerrear por causa de Helena,
esposa de Menelau, quando Briseida, minha “esposa” é seqüestrada por
Agamêmnon? Será que o simples rapto de uma esposa é uma desonra para os
Atridas?” Ele exagera ao dizer que ama Briseida de todo o coração,
quando na verdade ela representa apenas uma posse a mais. Em 387 Aquiles
diz que “a própria honra não faz mais sentido”. Sendo assim, não há
como seduzi-lo oferecendo algum tipo de honra já que
para ele a honra não tem mais sentido. Nos versos 380 e seguintes,
Aquiles revela que nada poderia dobrar-lhe a vontade, a não ser que
primeiro Agamêmnon sentisse algo igual ao que o próprio Aquiles sentira,
que poderia ser sua derrota na guerra, pois todos os seus pares o
acusariam de ter conduzido mal o exército levando-o à derrota. Agamêmnon
sofreria uma grande vergonha perante seus pares. Isto seria suficiente
para que Aquiles se dobrasse. Porque segundo, Christofer Gill, Agamêmnon
não se humilhou de forma alguma, de fato ele mesmo poderia ter vindo ao
acampamento de Aquiles, mas mandou emissários, que sequer vieram na condição
de suplicantes como manda a tradição. Outra forma de Aquiles
contra-argumentar ao discurso de Odisseu (Agamêmnon) é apropriando-se
das palavras do discurso de Agamêmnon e ironicamente construindo um
discurso que, embora irônico, coerente revela que conhecer suas
verdadeiras intenções de Agamêmnon e portanto, se mantém
intransigente. Aquiles
e Odisseu (aqui representando Agamêmnon) obscurecem através de seus
discursos o que é o Código Heróico. Em alguns momentos parece que Agamêmnon
está agindo fora do Código Heróico, outras vezes parece que quem está
fora é Aquiles. O que gera várias teses contraditantes por parte de vários
comentadores. Ler os discurso de Odisseu e Aquiles à luz do discurso de
Sarpédon conduz a um entendimento mais claro porque as poderosas
personalidades de Odisseu e Aquiles, bem como suas idiossincrasias
obscurecem a opinião básica sobre o comportamento heróico. Tal opinião
é articulada de maneira mais elucidativa por dois personagens
relativamente menores, Sarpédon e Glauco, que lutam no lado do Troianos.
No discurso, proferido por Sarpédon depois de arrebentar a muralha
construída pelos gregos para proteger seus navios, ele explica por que os
heróis se expõem aos terrores da guerra. Este
discurso oferece duas justificativas para o código heróico, uma baseada
num sentido de obrigação social e outra numa compreensão mais fatalista
de que a glória só é conseguida com a morte. Bibliografia
Gill, Christofer. Personality in Greek Epic, Tragedy and
Philosophy: The Self in Dialogue. Oxford , 1996. Homero.
A Ilíada (em versos). Tradução de Carlos Alberto Nunes. Rio de
Janeiro: Ediouro, 2001. Omero.
Iliade.Torino: Giulio Einaudi Editore, 1963. Lynn – George, M. Epos: Word, Narrative
and the Iliad. London, 1988. Werner,
Christian. Épica Grega: Homero: Aula do Curso de Língua Grega da
FFLCH da USP proferida em 13/05/2003.
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