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"PIRLIMPSQUICE": A NOITE DO NOSSO TEATRINHO Denny Marquesani Uma
Análise Ingênua do Conto
"Pirlimpsiquice" conto que integra o livro Primeiras Estórias, de João Guimarães Rosa (1908-1967), foi publicado originalmente no Rio de Janeiro pela Livraria José Olympio em 1962. Embora quase todas as narrativas que integram Primeiras Estórias tenham sido publicadas antes, em vários números de dois periódicos cariocas — O Globo, e na revista Senhor, parece-nos muito difícil analisá-las isoladamente. Sendo o livro uma coletânea de contos, percebe-se uma integração muito grande entre eles. Como analisar somente Pirlimpsiquice? A intertextualidade é tão grande que nos parece um livro planejado: Primeiras Estórias! "Pirlimpsiquice" é a sétima das Primeiras Estórias de Guimarães Rosa. Mas, por que primeiras estórias? Não sabemos ao certo. Mas parecem referir-se às experiências iniciais, inaugurais para a consciência. Aliás, a própria palavra pirlimpsiquice, quando decomposta revela como possível significado uma mania de alma ou consciência impregnada de magia infantil. Suas personagens são seres diferentes: são crianças, velhos, pessoas à margem da sociedade que se comportam de forma estranha e às vezes surpreendente. Daquele de quem menos se espera e da forma mais inusitada surge a resolução da intriga. Por se tratar de um conto, seu modo ou gênero literário é predominantemente épico ou narrativo, e embora rico em traços estilísticos líricos (em virtude de o eu narrador sentir a necessidade de expressar seus estados de alma e emoções, assim como pela utilização que o autor faz da poesia, enquanto meio de perceber e descrever a realidade), apresenta um conjunto de situações dramáticas provocadas pelas tensões envolvidas na organização e apresentação de um drama — uma peça teatral.
A Fábula O evento que serve de base para este conto é aquilo que aconteceu na noite do teatrinho: aquilo que parecia mecânico e ensaiado demais, "sem ataque de vida válida" passa a ser muito verdadeiro naquele momento. Não só para o protagonista como também para os demais que assistiam. A noite do teatrinho era a própria vida, mais que isso, era o "transviver". Num internato católico doze alunos são escolhidos para representar o drama "Os Filhos do Doutor Famoso". Os eleitos decidem segredar o drama e passam a comportar-se da melhor maneira possível. Um dos doze não parece muito confiável. É extrovertido e meio maluco. Alguns outros alunos que provocam temor, não são incluídos entre os doze e talvez de algum modo tentem desvelar o secreto drama. Assim os futuros atores decidem inventar uma segunda estória para o caso de serem obrigados a falar algo sobre a peça. Nesse ínterim, preparativos de toda sorte estão sendo realizados visando a noite do teatrinho. Correm rumores no colégio de que já é conhecida verdadeira estória. Uma terceira estória, completa, é apresentada por certo aluno como sendo a verdadeira. O ensaio geral é excelente, apesar de que o padre Diretor, assistindo à apresentação do quinto ato, critica a ausência de naturalidade. O dia se aproxima trazendo grande ansiedade. Horas antes da apresentação chega a notícia de que o pai de um dos doze, cujo papel é "o Doutor Famoso", está à beira da morte, de modo que este é obrigado a viajar para outro estado. Assim outro aluno o substitui, o ponto: o eu narrador. E o ensaiador passa a ser o ponto. No palco, teatro cheio, platéia expectante, o eu narrador lembra-se de que desconhece os primeiros versos, a abertura da peça. O eu narrador improvisa um verso sobre a Virgem e a Pátria. Aplausos. O pano não desce. A platéia vaia. As demais personagens se perdem no palco. De repente, aquele aluno meio maluco, não muito confiável, começa a representar. Mas o que ele representa é em parte a terceira estória. Os demais contracenam representando a segunda, a deles. O espetáculo torna-se um grande sucesso. O público aprecia muitíssimo. Mas na verdade o que se representa é uma quarta estória, gerada extemporaneamente, transportando, não só a platéia, como também as personagens para um plano de encanto e arrebatamento. Parece não haver como terminar a estória, como tirar todos aqueles seres desse encantamento. Destarte, o eu-narrador-personagem aproxima-se da beira do palco, falando sempre, propositadamente dá uma cambalhota e cai. No outro dia, são, ele briga com um dos propagadores de estórias que lhe provoca.
As Personagens Eu narrador: retraído, mal-à-vontade em qualquer cena, não servia para nenhum papel, mas aluno aplicado portador de voz variada serviria de partida como ponto, mestre do ponto, assumiu o papel do Doutor Famoso, o de Ataualpa que partira. Zé Boné: [dual do protagonista] extrovertido, não se acanhava de ser o pior, beócio, era objeto de riso. Interpretava sem parar. Papel original: um policial com escasso falar. Papel final: salvou a situação que havia ficado tensa. Ataualpa: o "Peitudo". Junto com Darcy, um dos mais decididos e respeitados. Filho de um deputado. Papel original: o Doutor Famoso. Deveria iniciar a peça recitando uns versos que só ele sabia. Não pôde representar devido ao pai estar à beira da morte. Darcy: o "Pintado". É amiúde mencionado com Ataualpa. Papel original: o Filho Capitão. Mesquita: o Filho Poeta. Astramiro: agora aeroviário, fazendo jus ao nome. Papel original: o Filho Criminoso, depois mudado para o "Redimido" pelo Dr. Perdigão. Joaquincas: Papel original: o Filho Padre. Após o pacto de puro entusiasmo, comungava diário, via-se padre e santo. Agora é bookmaker e adjazidas atividades. Araujinho: seria o outro policial. Rutz: o Amigo. Gil: o Homem que sabia o segredo. Nuno: o Delegado. Niboca: o Criado, depois mudado para o "Fâmulo" pelo Dr. Perdigão. Gamboa: O que espalhou a terceira estória, esta, completa e bem aprontada. Tãozão e Mão-na-Lata: sempre mencionados juntos, eram fortes, incorrigíveis, mal-comportados, centerfór do time do colégio interno, integravam o grupo dos Gamboas, agiram dissimuladamente com relação ao segredo do drama. Formaram um claque para vaiar o teatrinho. Reuniam uns para amassar os doze. Alfeu: o "em-diabo pretinho" corcunda de pernas tresentortadas e moles, filho da cozinheira. Vinha escutar os ensaios da peça, e parece ter sido quem divulgou certas cenas legítimas do drama. Não obstante, usufruía de imunidade porque furtava para os alunos pão, doces, genebra, coisas da cozinha e da adega dos padres. Padre Diretor: responsável pela integração do eu narrador na peça como o ponto. Ele era abstrato e sério. Julgou que faltava naturalidade na encenação do quinto ato da primeira estória, mas se riu, como ri Papai Noel, na noite do teatrinho. Padre Prefeito: É quem fez a comunicação sobre o drama. Tem modo solene. É um dos espectadores. Ordenou que abaixassem o pano que não abaixava por estar enguiçado. Seu Siqueira: Surubim [suribinense, natural de Surubim, PE? ou pessoa de porte avantajado geralmente amarelada, com pintas ou faixas escuras e cabeça muito grande e achatada?].O regente. Dr perdigão: [perdiz grande -- nome que sugere impostura e ridículo], lente de corografia (corografia é o estudo ou descrição geográfica de determinado território) história-pátria, ensaiador de fala difícil e sérias barbas. É cognominado Dr. Avante. O ponto final. Personagens Figurantes: o tio do Ataualpa, que o vem buscar; seu pai deputado e moribundo no Rio de Janeiro; umas donas que costuram as roupas; a cozinheira, mãe do Alfeu, que o fazia andar de muletas na noite do teatrinho; as senhoras e moças que passavam carmim na cara dos atores; outros alunos; visitas: pais e parentes de fora que vieram para a festa; os demais da platéia. E o Espírito.
A Narrativa Apesar da relativa simplicidade da estória narrada, o texto não é tão transparente. A opacidade do tecido verbal evidencia-se pela relativa dificuldade que o leitor sente em compreender a estória quando faz a primeira leitura. Em parte, esta dificuldade explica-se pelo estilo em que o autor constrói o texto: um estilo original, inédito, de partir da meditação poética do real recriá-lo na base da fantasia, de modo que tudo parece real e fantástico ao mesmo tempo. O que se impõe logo à atenção é a freqüência da função narrativa de "ação estranha", "esquisita", "anormal", "aloucada" que podemos generalizar com o hiperônimo "diferente". Verificamos que em Primeiras Estórias esse tipo de ação se repete muito, nas mais diversas formas. E o enredo parece a procura de uma lembrança, e o estilo, a procura de uma forma verbal para expressar essa lembrança: o estilo de certa forma constitui o enredo: Para que o narrador possa resgatar com a maior fidelidade possível os eventos que agora só se encontram em sua memória necessita de um instrumento decodificador de seus elementos mentais que estão sob a forma de símbolos e pelo que parece apenas a linguagem convencional não suporta toda essa carga simbólica de modo que ele a reconstrói de forma insólita para que o leitor possa ter acesso a pelo menos um tênue fio da experiência vivida, ou melhor, resgatada pela memória. Assim o narrador cria estados interpenetrantes entre loucura e a normalidade de forma que os "normais" não conseguem delimitar com precisão onde termina a lucidez e começa a loucura. Até o Júpiter-Papai Noel-Padre Diretor "se riu como ri Papai Noel" (Primeiras Estórias, página 46.), pouco faltando para ser absorvido pelo irracional. Evidentemente não conseguimos penetrar na atmosfera psicológica da criação do Autor, mas percebemos nitidamente fabulações do imaginário coletivo: "Zé Boné representava -- de rijo e bem, certo, a fio... desempenhava um importante papel, o qual a gente não sabia qual.... Contracenamos... no meio da hora... sem combinação." Este imaginário coletivo deixa de ser simples idéia, para tornar-se ato: nascem as ações dos anormais, dos inadaptados. Objetivando expressar plenamente os significados pertinentes aos níveis de consciência nos quais encontram se inseridos as personagens, o autor procede à sondagem do âmago dos significantes, trabalha-os poeticamente fazendo pleno uso das técnicas de formação de palavras: composição, derivação e hibridismo. -- " ... esse alfabeto tão esmerado em que, entre outras preciosidades noto uma vogal em forma de coração, da qual o nosso Guimarães Rosa havia de querer apropriar-se, se a tivesse conhecido -- já não serviria apenas ao francês, mas "à toda comunidade indo-européia para que as grandes línguas da civilização possam aproximar-se uma da outra e interpenetrar-se..." (Rónai, Paulo -- Babel & Antibabel. São Paulo, Perspectiva, 1970; página 158.) Predominam neste conto moderno as funções referencial, poética e metalingüística da linguagem, embora as outras também em um menor grau estejam presentes: o autor conta uma estória (referencial), utiliza uma forma e vocabulário trabalhados (poética), e a estória narrada em vários momentos é centrada na própria linguagem (função metalingüística) as quais por sua vez são também trabalhadas quanto à forma de apresentação. As personagens, em seus discursos diretos, dirigem-se a seus destinatários, até mesmo usando o vocativo (funções conativa e fática). Ocorre a função emotiva quando, por exemplo, dominado pela necessidade de ter de encerrar o drama sem fim, o eu narrador descreve sua atitude e disposição mental, fala de si próprio. A invenção de um texto no texto autoriza-nos a interpretar o conto como ilustração poética do Autor. Há ainda outros índices, por exemplo dois comentários à peça. O Primeiro se refere à representação "conforme o escrito no programa", na hora do ensaio geral: "...disse: que nós estávamos certos, mas acertados demais, sem ataque de vida válida, sem a própria naturalidade pronta..." (página 43.) O segundo é sobre o espetáculo inventado: "Sei, de, mais tarde, me dizerem: que tudo tinha e tomado o forte, belo sentido, esse drama do agora, estúrdio, de todos o mais bonito, que nunca houve, ninguém escreveu, não se podendo representar outra vez, e nunca mais." (página 47.) Pode-se ver nessas linhas mais uma indicação sobre a poética do autor, complementando seu primeiro "programa" literário com a fragmentação da narrativa de diversos enfoques, chegando a um ponto em que procura representar, por meio de enredos, seu programa de dissolver o hábito perceptivo, de fixar com palavras "o inesquecível de-repente", da invenção de uma estória dentro da estória, de criar uma "obra aberta" É interessante notar o modo como o autor exaure todos os recursos expressivos da língua. Utiliza uma complexa gama de cortes e deslocamentos de sintaxe, metáforas, aliterações, rimas, onomatopéias, anacolutos, hipérbatos, sinestesias, zeugmas, fanopéias e elipses inesperados, suprime quando esperados. Quanto à voz, o narrador elegeu a primeira pessoa. No que tange à perspectiva, o narrador vê os acontecimentos de perto. Longe de ser onisciente, o narrador, embora tenha estado mergulhado na ação da estória [chegando a formar com Zé Boné um sistema dual de protagonistas] evidentemente depende da memória, da observação e da imaginação para relatar o ocorrido. Admite estar limitado: declara logo de início que não sabe direito o que houve. Soube da ocorrência de certas coisas por mais tarde lhe dizerem. Não é onisciente também no sentido de que não pode penetrar na psique das outras personagens que não o eu narrador. Apenas pode imaginar como as outras personagens sentem e vêem (visto que, como leitores, dependemos do relato do narrador para conhecermos as personagens, as imagens que comporemos serão conseqüentemente incompletas e filtradas pelo Autor). Presenciando o desenrolar da ação de um ângulo tão próximo, é também limitado quanto ao tempo: está preso ao presente de cada momento, não podendo prever com exatidão o que virá a seguir. A maior parte da estória é narrada como seqüência de cenas, podendo o leitor acompanhar as causas e os efeitos das ações que se desenvolvem na estória. Entretanto, há também alguns recursos sumarizantes: menciona o tempo referencial, narra brevemente um incidente, menciona o tempo transcorrido, faz uma indagação e fala como se bastante tempo tivesse passado novamente. Outro recurso é a frase caótica expressando o fluxo de consciência: ao introduzir um número infindável de vírgulas no décimo parágrafo do conto, fazendo uso de uma figura de construção denominada assíndeto, o narrador gera uma impressão de que o tempo passou numa velocidade estonteante. Após ocorrerem vários momentos de tensão na narrativa, as forças tensionais encadeiam-se de forma crescente culminando na noite do evento. O desenlace dessa estória realiza a diminuição dessas tensões após o momento climático, com o representar dos alunos. O mundo mágico envolve a realidade e as pessoas. Para sair dele é necessário quebrar o "encanto", o que é feito pelo próprio eu narrador.
Conclusão Narrativa dos "diferentes", aparentemente desprovida de sentido, mas que parece ter a função de crítica social: retomando a loucura no nível da linguagem, restituindo, na literatura, a possibilidade de um diálogo com a irracionalidade – quando a razão depois de idolatrada e utilizada como medida de todas as coisas, destruindo tudo, devastando tudo, a ponto de quase não conseguirmos nos comunicar mais ("... do ponto de vista de..., ...partindo do pressuposto que... et cetera), volta-se a si mesma suicidando-se." -- "Você chegou a existir?" (Primeiras Estórias, "O Espelho", página 72.) As personagens são quase sempre, seres à margem da sociedade, desconsiderados, sucedendo-lhes intrigas que intensificam seu estado miserável, aparentemente tornando remotíssimas suas possibilidades de ascensão. Mas eis que "de-repente" da fonte menos esperada e do modo mais inusitado surge-lhes o sucesso. O enredo inventado pelos alunos vale muito mais do que o convencional drama edificante (que faz parte da "cultura" e da "boa" educação canonizadas) e ridiculariza os preceitos do mestre de escola, quais: "—Representar é aprender a viver além dos levianos sentimentos, na verdadeira dignidade." (Primeiras Estórias, página 41.)
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