Psi e a Nova Gnose

O eterno impulso do homem para descobrir novos mundos
se transferiu recentemente da pesquisa do espaço exterior para
o universo ao interno de nós mesmos. A humanidade
parece intuir que sua sobrevivência depende da modificação
de sua consciência. Mas a comercialização crescente
dos métodos que levam a essa modificação
está impedindo que ele se concretize. É preciso fundamentar
uma base filosófica e ética para dar rumo à
explosão das novas religiões psíquicas e ao próprio
desenvolvimento da parapsicologia.

Olavo de Carvalho
Revista Planeta # 53, junho de 1977

 

Hoje em dia, como se sabe, a clarividência está ao alcance de todos. Qualquer um pode, sem esforço nem sofrimento, apenas mediante um cheque visado ou vale postal, e algumas horas de prática no intervalo entre duas reuniões de diretoria, desenvolver capacidades que o elevarão aos êxtases místicos de um Jakob Böhme ou de uma Blavatski, ao pleno domínio de si mesmo e dos demais e – evidentemente, como vantagem adicional – ao acréscimo da sua rentabilidade profissional como gerente ou como vendedor de imóveis ou sabonetes.

A proliferação de cursos rápidos que prometem desenvolver habilidades parapsicológicas, de obras de divulgação que resumem a consciência humana em duzentas páginas, e de aparelhos eletrônicos dotados do poder de conferir ao cidadão as mais altas capacidades psíquicas, é um traço fundamental da sociedade contemporânea.

De um lado, pela primeira vez na história universal o homem dispõe de informações sobre as culturas e religiões de todos os tempos e lugares, e de meios para divulgá-las. De outro, deixando de ser propriedade de uma elite intelectual, esses conhecimentos estão à inteira disposição de quem tenha a paciência de assimilá-los ou de quem, simplesmente, possua o capital suficiente para reproduzi-los em escala industrial, e em seguida vendê-los.

A comercialização do imenso patrimônio psicológico representado pelas antigas práticas místicas e pelas pesquisas recentes dos parapsicólogos não deixou de ser condenada, em diversas, em termos morais. Entretanto, ela tem um lado mais grave e uma influência mais profunda, que nem sempre o indignado moralista percebe. Antes de constituir uma simples imoralidade ou abuso, ela constitui a reação – sutil, mas poderosa – da sociedade contra o surgimento de uma nova religião, de uma nova forma de consciência humana. Assim como na piada que parafraseia Goebbels – “Quando ouço falar em cultura saco imediatamente o meu talão de cheques” –, o homem empresarial contemporâneo não pode ouvir falar em conhecimentos ocultos sem imediatamente desejar comprá-los – e usá-los para seus próprios fins. Estes evidentemente nada têm a ver com o desenvolvimento da consciência humana em geral, mas com o desenvolvimento da fortuna de alguns em particular.

Num ensaio recentemente publicado na revista Bres (A Planeta holandesa), o jornalista norte-americano Stuart Hollroyd assinala que o interesse pelo desenvolvimento de habilidades psíquicas superiores despertou interesse, em primeiro lugar, não na grande imprensa comercial nem entre os gerentes que hoje se divertem com as máquinas de biofeedback para todos, mas justamente entre os jovens rebeldes que recusavam as idéias, os costumes e o estilo dessa gente.

 

Um beco sem saída

Outro jornalista, Robert Houriet, num livro recentemente lançado, sobre as comunidades de jovens que se formaram nos Estados Unidos nos anos 60, Getting Back Together, escreve:

Num dado momento de seu desenvolvimento, a civilização escolheu errado, um caminho que termina num beco sem saída. Muitos jovens sentem que a única possibilidade é separar-se da sociedade e voltar pelo caminho até o princípio, à primeira fonte da consciência, à base verdadeira de toda cultura: a terra. Uma vez chegados lá eles iriam começar tudo de novo, caminhando lentamente. Com cautela, para não errar de novo e nunca se afastar do caminho principal: a fonte da espiritualidade e a percepção que temos dela.

Começando a investigar tudo de novo, experimentando, se adaptando, eles criaram uma microcultura, uma síntese de formas, imagens, artes e tecnologia. Construíram pequenas comunidades auto-suficientes, em harmonia com a terra. Tentaram criar estruturas familiares mais amplas, flexíveis e abertas que a família nuclear (pai, mãe e filhos), descobrindo novos métodos de educar seus filhos. Estabeleceram escolas mais livres, criativas, desenvolveram indústrias caseiras, conservando a pureza do artesanato individual. Formaram igrejas, seitas e organizações leigas, reativando velhas crenças e criando religiões completamente novas. Sobretudo, impregnaram cada ação e cada acontecimento da vida cotidiana de uma nova percepção, de uma divindade imanente. Procuraram rituais e tradições através das quais podiam transmitir a seus filhos a visão eterna e misteriosa das coisas.

Foi nessas comunidades que o dr. Stanley Krippner, pesquisando manifestações de telepatia no sonho, fez a seguinte observação, apresentada a um congresso de parapsicólogos em 1968:

“Havia um elemento comum em todas as comunidades que visitamos: conversações sobre experiência paranormais. Acontecimentos como telepatia, clarividência, previsões e psicocinese (mover objetos à distância) formam uma integrante da vida cotidiana nas comunidades”.

Nesses lugares havia, segundo o pesquisador, um ambiente extraordinário para as pesquisas parapsicológicas e, acentua Stuart Hollroyd, “está absolutamente provado que o modo viver nas comunidades, os divertimentos, a intimidade, a preferência não materialista e a ênfase no desenvolvimento individual criam um ambiente favorável ao desenvolvimento do potencial metapsíquico”.

 

Imagem distorcida

A imprensa da sociedade tradicional apresenta uma imagem completamente diversa. A acreditarmos nos jornais, nas revistas e na TV – os mesmos que alardeiam o biofeedback para gerentes e a clarividência ao alcance de todos --  tais comunidades nada mais são que antros de perdição, onde os jovens se entregam à sexualidade desenfreada e ao consumo de drogas.

Ora, segundo o dr. Krippner, as comunidades são boas para a pesquisa parapsicológica justamente porque nelas as descobertas são usadas única e exclusivamente para o desenvolvimento individual e para a melhoria das relações entre as pessoas, ou seja, para a elevação moral e espiritual do grupo. Inversamente, na sociedade estabelecida, todo parapsicólogo tem medo de divulgar suas descobertas, pois sabe que elas serão comercializadas e utilizadas para fins que não são os seus.

Ora, quer dizer então que as descobertas parapsicológicas têm uma finalidade específica? Que elas só podem ser usadas para uma causa determinada, e não são como um estoque de conhecimentos neutros e inertes que a ciência põe à disposição da sociedade – como pôs a bomba e a penicilina – para que a sociedade faça delas o que bem entender? É este precisamente o ponto. Embora os métodos de pesquisa em parapsicologia sejam semelhantes aos de qualquer outra ciência, os conhecimentos nela adquiridos não são neutros. Eles só podem ser usados efetivamente no aperfeiçoamento individual do ser humano e na elevação espiritual das comunidades. Ou seja: a parapsicologia, segundo seus melhores representantes, não participa daquela neutralidade que permitiu Hiroxima e a poluição: a parapsicologia contém uma exigência ética e metafísica de ordem interna, e nada pode fazer fora desse estrito padrão moral. O aperfeiçoamento psíquico não serve para os que desejam parar de fumar, conquistar garotas, ganhar mais dinheiro, ter mais amigos ou emagrecer. O aperfeiçoamento psíquico só serve, enfim, para o aperfeiçoamento psíquico. Qualquer outra finalidade com que se pretenda usá-lo, assinala Hollroyd, é pura fraude.

Exemplos não faltam. O “fabuloso” método de Milan Ryzl é um deles. Apregoado na imprensa norte-americana como meio seguro de desenvolver a paranormalidade através da hipnose, conquistou um bom mercado pelo argumento de que fora testado em quinhentas pessoas. Ora, realmente quinhentas pessoas testaram o método de Ryzl: cinqüenta, dez por cento portanto, alcançaram percepções superiores. O anúncio de Ryzl nada informa sobre os perigos a que a hipnose expôs os outros quatrocentos e cinqüenta. Porque ela mexe nas camadas mais profundas do inconsciente, põe o indivíduo em contato com desejos e fantasias remotas e pode assim destruí-lo, caso ele não esteja moralmente preparado para enfrentar-se a si mesmo. E pode-se duvidar que quem busca na hipnose um recurso para ganhar dinheiro esteja preparado para enfrentar o que quer que seja.

As máquinas de biofeedback são outro exemplo. Seus vendedores nunca informam que elas são como um pontapé inicial, e que o paciente, depois de aprender os exercícios com a máquina, deve continuá-los sozinhos, sem máquina, ou tornar-se dependente da máquina para o resto da vida.

 

Preparação ética, intelectual e física

“Muitas pessoas – escreve o parapsicólogo Elmer Green – são atiradas para as regiões psíquicas sem saber proteger-se contra os perigos procedentes da sua própria subconsciência, da influência psíquica de outras pessoas, ou de regiões externas (perigos oriundos do chamado mundo astral).”

Assim como há casos de esquizofrênicos curados pelos métodos parapsicológicos, há inúmeros casos de pessoas que enlouqueceram no momento em que seus poderes perceptivos foram desencadeados sem uma preparação moral, intelectual e mesmo física anterior.

Porque aí está o segredo: não é a pura ampliação dos poderes perceptivos que levará o indivíduo à superioridade, mas sim uma superioridade anterior, conseguida à custa de autodisciplina, aceitação das limitações, do sofrimento e do esforço que capacitarão a pessoa a chegar, sem riscos de fragmentação da personalidade, à percepção ampliada. Os jovens das comunidades norte-americanas pagaram este preço, antes de exigir o milagre. Buscaram o aperfeiçoamento por todos os meios concretos – o trabalho na terra, o esforço de organizar-se socialmente, a recusa à violência. A sociedade que os condena deseja simplesmente o prêmio mediante pagamento.

Ora, na medida em que as descobertas parapsicológicas e o movimento pela ampliação da consciência estão associadas a exigências morais e éticas, vê-se uma extrema semelhança entre eles e... as religiões tradicionais, que igualmente condicionam o acesso à visão superior à obediência prévia de um padrão disciplinar – a ascese.

Pois bem: todos os pesquisadores do inconsciente – de Jung a Maslow, de Frankl a Szondi, e sobretudo os modernos parapsicólogos – acentuam um ponto-chave: as forças profundas do inconsciente apontam na direção do auto-aperfeiçoamento da humanidade. O inconsciente é o reservatório de onde a humanidade deve buscar energias para o seu aperfeiçoamento. Não é a pura lata de lixo vista por Freud, mas o núcleo energético e de crescimento do ser humano. Na pior das hipóteses, ele responde na mesma medida à atitude moral com que o abordamos, melhorando-nos ou piorando-nos.

Por que – pode-se perguntar hoje – enquanto em algumas culturas desenvolveram-se largamente os dotes psíquicos da comunidade, na nossa civilização essas capacidades permaneceram reprimidas? A resposta está ao menos encaminhada. Com a ajuda dos instrumentos de medição altamente sensíveis propiciados pela tecnologia moderna, os parapsicólogos verificam que os limites humanos estão largamente condicionados pela . A crença firme e segura numa divindade subjacente permite que o feiticeiro africano ou o curandeiro brasileiro produzam fenômenos paranormais inexplicáveis nos termos da ciência tradicional, mas compreensíveis e aceitáveis nos termos de qualquer religião.

 

A teoria do campo psi

Investigando fenômenos como telepatia, clarividência, medicina psíquica e psicocinese, alguns parapsicólogos criaram a teoria do campo psi: sob certas condições, os limites habituais do ego, fixados pelas crenças habituais da comunidade, podem ser expandidos, levando à percepção de relações invisíveis. Esses limites do ego não são fixados pela natureza, mas pelas crenças habituais da comunidade. A crença materialistas da sociedade atual, naturalmente, limitará o ego à percepção do sensível, e lhe tapará o acesso a todas as outras regiões da realidade, à compreensão da interligação simultânea das várias manifestações da vida e da harmonia dos seres entre si.

É esta visão simultânea, de ordem estritamente religiosa, que marca o místico, o vidente, o paranormal, o profeta. É impossível alcançá-la sem primeiro livrar-se das concepções mesquinhas que a sociedade atual nos impõe, e sem submeter-se à disciplina superior da ascese.

A expansão mesma do movimento pela ampliação da consciência assinala, segundo Hollroyd, o nascimento de uma reação profunda às concepções da nossa sociedade: ao nascimento de uma nova crença, de uma nova religião, que vai aos poucos tomando forma em todos os meios onde as experiências metapsíquicas são mais do que um meio de ganhar dinheiro ou parar de fumar. Entre os hippies da Califórnia como entre os parapsicólogos de Yale como entre os físicos de Princeton, vai tomando corpo um conjunto de crenças notavelmente coerente, por cima das diferenças individuais.

Esse conjunto de crenças, essa nova gnose, apresenta espantosas semelhanças com o neoplatonismo, filosofia oculta que surgiu nos primeiros séculos do cristianismo. A principal desavença entre os neoplatônicos gnósticos referia-se à ordem do mundo, que para os primeiros era uma só, harmônica, e para os segundos uma divisão irrecorrível entre espírito e matéria. Para o neoplatônico, que rejeitava todo dualismo, a ordem do mundo se manifestava através da matéria visível, e a vida dos sentidos, portanto, não era algo condenável (o mundo inimigo da alma), mas a expressão da perfeição divina.

Para a nova gnose, igualmente, as experiências paranormais só são possíveis porque existe uma faixa em que os nossos sentidos deixam de ser rudes e toscos escravos do imediato, e conseguem – como na telepatia – captar a harmonia divina que rege a matéria.

 

O cão pretende domar o dono

Então a comercialização e a vulgarização dos conhecimentos parapsicológicos deixam de ser apenas uma miséria moral, mas representam um desequilíbrio na posição mesma do homem frente ao mundo, uma subversão da ordem material das coisas, pois significa que o homem, colocando-se fora e acima da ordem natural, pretende dominá-la e usá-la para seus próprios fins particulares. Como se um motorista pretendesse ajustar todas as  leis de trânsito à sua própria necessidade de  estacionar em determinado lugar. Como se o cão pretendesse domar o dono.

Essa é a amostra mais convincente do irrealismo que preside a vida cotidiana da nossa sociedade. Longe de simplesmente condenar o homem que comercializa e distorce a finalidade dos conhecimentos metapsíquicos, é preciso ajudá-lo. Porque ele está completamente enganado e, cego, mexe a esmo, como um menino, os botões de uma imensa e poderosa máquina.