Em Terra de Cego Quem Tem um Olho Eles Furam

IEL-I, segundo semestre de 1990

Denny Marquesani

[Nesta análise, errei ao emitir opiniões em detrimento da análise propriamente dita, e deveria descrever mais o romance, mas de qualquer forma, há alguns bons comentários.]

  

O romance que tomamos como matéria de nossa análise trata-se do livro Meu Pé de Laranja Lima de José Mauro de Vasconcelos (1920–1984) publicado pela editora Melhoramentos em São Paulo em 1968. Nesta análise utilizamos a sexta edição.

Para o bom entendimento da análise que empreenderemos é interessante e útil apresentarmos um vislumbre sobre o enredo do romance:

Zezé, um menininho muito pobre e precoce apresenta-se lendo aos quatro ou cinco anos de idade sem que ninguém o tivesse ensinado e sem que ele mesmo explique como aprendeu. Aliado a esse fenômeno percebemos o menino aprofundando-se cada vez mais dentro de si amadurecendo mui precocemente.

Como a maioria das crianças de sua idade, falava com as coisas e com os bichos nutrindo profunda afeição por esses seres.

Zezé e sua família estavam prestes a se mudar de residência, o menino temia que seu amigo Luciano, um morcego, não o acompanhasse; e expunha suas angústias a seu tio Edmundo, a quem muito admirava.

Na nova casa faz estreita amizade com um pé de laranja lima, a quem chamava por Minguinho, às vezes Xururuca, com quem troca profundos diálogos.

O menino precocemente começa a identificar seus conflitos mas íntimos e com base nas informações provindas do meio em que está inserido denomina cada faceta de sua personalidade conforme sua percepção capta a característica como “meu padrinho, o diabo” (que o incentivava a fazer diabruras), “meu passarinho” (seu pensamento) et cetera.

A pobreza da família se fazia manifestar: “seu” Paulo, pai de Zezé, estava desempregado há tempo e não conseguia emprego por causa da idade.

Zezé foi cedo para a escola, com cinco anos, e tornara-se um aluno brilhante e aplicado, querido pela professora.

Nutria afeição especial por seu irmãozinho Luís, o “Reizinho”, o “rei Luís” como ele o chamava.

Certa feita conheceu intimamente “seu” Manuel Valadares, o “Portuga”, com quem passou seus momentos mais felizes, apesar de o contato ter sido feito de uma maneira não muito tradicional: Zezé levou uma surra do “Portuga” por morcegar seu carro.

E Zezé apanhava, apanhava muito... como motivo ou sem motivo. Certa vez levou uma surra de sua irmã Jandira suplementada por seu irmão Totoca que lhe custou dente da boca e uma detenção em casa para que não vissem sua aparência danificada. Outra vez tentou alegrar seu pai entoando uma canção com certa conotação imoral que resultou numa gigantesca surra que o deixou acamado.

Sua amizade com o “Portuga” progredia, crescia. Zezé o amava e queria tê-lo por pai e o “Portuga” correspondia.

Um dia o trem Mangaratiba mata o “Portuga”, nessa mesma ocasião Zezé é informado que seu pé de laranja lima seria cortado. O menino adoece e definha, quase morre. Ele queria morrer, queria ir para o céu junto de seu amado “Portuga”.

A família de Zezé desconhecia sai afeição pelo “Portuga” de modo que julgavam que o estado do menino devia-se ao fato de que ele se entristecera muitíssimo com a notícia de que cortariam Minguinho.

Chamaram um médico, o Dr. Faulhaber, que diagnosticou que Zezé havia sido exposto a um choque, um trauma muito forte e que só sobreviveria se conseguisse vencer esse choque.

Assim, toda a rua veio visitar Zezé e confortar-lhe realçando sua importância e a falta que fazia.

Zezé como que morre e ressuscita, melhora, se restabelece, mas já não é mais o Zezé de outrora, é agora diferente, amadurecido e consegue suportar sua dor. Quando seu pai animado diz que a vida deles vai melhorar, pois está empregado novamente e que ainda vai demorar até que cortem Minguinho, Zezé refuta dizendo que “já cortaram, Papai, faz mais de uma semana que cortaram o meu pé de laranja lima”, referindo-se à morte de seu amado amigo “Portuga”.

Finalmente, encontramos Zezé crescido, José, que relembra com saudades o amigo que lhe ensinara a ternura da vida.

 

Do Caroço ao Título

Tratando-se de um romance, seu modo ou gênero literário é predominantemente épico ou narrativo, e embora rico em traços estilísticos líricos (porque o narrador expressa através do protagonista Zezé seus estados anímicos, como se utiliza da poesia enquanto meio de perceber e descrever a realidade que oscila entre o universo pueril e varonil conforme resgata sua experiência de determinado período da infância) apresenta uma gama de situações dramáticas provocada pelas tensões que se alinham no enredo que desencadeia a catarse do autor suscitando a ampliação das emoções do leitor.

O tema predominante no romance é a coexistência da alegria e da tristeza como já sugere o próprio título.

 

O Título

O título deve ser uma unidade que consiga sintetizar toda a obra numa única expressão. “Meu Pé de Laranja Lima” é o título perfeito, o romance não poderia ter outro título; o autor conseguiu uma unidade significativa cujas qualidades melódicas dos fonemas já nos mergulham na camada de sonoridade que tende a nos prender e revelar o binômio tristeza–alegria que permeia todo o romance.

O autor concebeu a expressão certa e insubstituível graças ao seu significado, som, valor semântico, ambigüidade, capacidade vibratória de suas zonas semânticas marginais, ao seu “halo” e “nimbo”; que muniram o título de qualidades específicas capazes de impor a sua visão particular.

Em Ser e Tempo da Poesia, Alfredo Bosi nos explana sobre os fonemas que suscitam disposições anímicas como no exemplo “takete e maluma”, bem como nos outros exemplos que se seguem. José Mauro de Vasconcelos parece utilizar dialeticamente esse recurso sonoro, passando-nos tristeza e alegria desde o título.

 

Do Evento ao Invólucro Narrativo

O homem é um animal fabulador por natureza, já dizia Umberto Eco, e é claro, José Mauro de Vasconcelos escreveu seu romance movido por uma idéia seminal, o evento, sua experiência quando criança que o moveu a narrá-la por sua própria boca, o que já é um ato de extrema coragem; ele próprio fala, não usa máscara alguma. Resgatou seu mundo pueril, o mais mobiliado possível e deixou que a memória aliada à imaginação engendrasse o restante. Esbarrou na irrealidade onde as árvores falam e sentem ciúme.

José Mauro de Vasconcelos conta aos quarenta e oito anos aquilo que experimentou aos cinco. Quem fala, o Zezé de cinco ou o Zezé de quarenta e oito anos? Os dois, como podemos perceber na leitura. O passado funde-se no presente numa única partícula temporal densa. O jogo consiste em colocar em cena continuamente Zezé adulto que reflete sobre  o que recorda ter experimentado como Zezé criança. Aí se dá o evento, quando o autor o situa no seu aqui e o temporaliza no seu agora, a unidade indivisível do tempo.

Esse duplo jogo enunciativo desnuda completamente o autor que fica duplamente desprotegido.

O autor faz compreender tudo através das palavras de alguém que supostamente não deveria compreender nada.

Na narrativa, o ritmo não é confiado às frases, mas às macrocomposições mais amplas, às escansões de eventos. Assim freqüentemente o autor interrompe o ritmo terminando um capítulo ou um bloco narrativo antes da terminação de um ciclo completo, recurso desencadeador que impõe ao leitor determinada atualização e concretização para preencher a lacuna do esquema.

As qualidades rítmicas das orações, a seleção e ordem dos fonemas produzem a leveza e a fluidez do texto, tornando-o delicioso, simples e claro, mas que não deixa de evocar o tipo psíquico existente no leitor. Mesmo tratando-se de uma obra do tipo tradicional, não adotando processos muito radicais, sendo quase um “flashback”.

 

Interpretação

“História de um meninozinho que um dia descobriu a dor...” Um menino superdotado e, talvez, conforme alguns místicos, paranormal, percebe muito precocemente a injustiça social e sofre com isso, mas sobrevive. Parte de sua família suicida-se como aparece na introdução, na parte “aos mortos”. É mais do que uma crítica social, é uma crítica antropológica, daí o elemento catártico.

O romance é um grito para que não se “contem coisas às criancinhas” (pág. 191), para que as deixem conversar com seus “morcegos—lucianos” (pág. 25) e seus “pés—de—laranja—lima” da vida. Que quebrem todos os espelho das “donas—narcisas”.

Por que rasgar seus balões? Por que destruir seu jardim zoológico do fundo do quintal? Por quê? São apenas puras crianças inocentes, cheias de sonho, são felizes.

Mas a realidade é dura, porque “de grão em grão com ferro será ferido” e “em terra de cego, quem tem um olho, eles furam”.

O romance é como um “grito primal” de Janov, como a música God de John Lennon: “o sonho acabou”. Faz tempo.

 

Bibliografia

Bosi, Alfredo. Céu, Inferno — Ensaios de Crítica Literária e Ideológica. São Paulo: Ática, 1988.

Eco, Umberto. Pós Escrito a O Nome da Rosa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.

Moisés, Massaud. A Análise Literária. São Paulo: Cultrix, 1987.

Rosenfeld, Anatol. Estrutura e Problemas da Obra Literária. São Paulo: Perspectiva, 1976.

Vasconcelos, José Mauro. Meu Pé de Laranja Lima. São Paulo: Melhoramentos, 1968.