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Os Arrastões de Tom Zé em sua Lenta Luta Edson
Cruz [Tardo, mas falo! Edson Cruz presenteou-nos com um soberbo artigo (Os Arrastões de Tom Zé em sua Lenta Luta, publicado na revista eletrônica “Capitu” - www.capitu.com.br) sobre o livro Tropicalista Lenta Luta de Tom Zé. O neguinho é muito pretensioso, além de erudito e competente. A ponto de me deixar por dias com o seu artigo na cabeça! O texto é simplesmente brilhante. E o Edson usa e abusa da música e da literatura pra costurar a sua tese. Aí vemos desfilar grandes nomes da literatura, música e crítica nacional e universal, o que torna a sua criação uma pequena obra-prima. E, no final, vemos o talentoso coroamento com simbólico mantra browniano. Esse neguinho é encapetado mesmo! Khalepà tà kalá!! Não é fácil, não!!! ~ postado por Lyrio Lenho / São Paulo SP] É impressionante o livro autobiográfico de Tom Zé,
Tropicalista Lenta Luta. Sua personalidade contamina todos os
caracteres do livro. Caracteres em suas várias acepções. Esperava algo caudaloso, não tão maçante como o Verdades
Tropicais de Caetano, mas falastrão tanto quanto. O diapasão, porém
é outro. Estamos diante de um tímido com uma consciência exacerbada e
pungente de seus processos existenciais e criativos. Um tímido que sabe
da imprecisão e do poder que as palavras possuem. A trajetória de Tom Zé revela-se acima dos preços
e picuinhas cobrados em sua avessa militância no Tropicalismo, e se
afirma com toda a sua dignidade. Como ele mesmo diz, foi sepultado na
divisão do espólio do Tropicalismo sendo desenterrado pelo canto do
salmo de David. O Byrne. Levanta-se rindo e agradecido do túmulo, mas com
sua dignidade intacta. A capa do livro é muito feliz como síntese deste
processo. Sua narrativa, embora recupere desde a infância em
Irará até os Festivais heróicos, não é linear nem óbvia. Contorce-se
em volteios estilísticos: Panis et Serpentes. Sua estória é
contada usando imagens de tantas outras. As Mil e Uma Noites de Irará. Aquelas noites, como sinos
de Combray martelando de novo meus ouvidos, são mais um argumento para eu
preferir atuar sobre o conhecimento e o mundo com o método dos
analfabetos de Euclides da Cunha. É extraordinário o que a nossa MPB fomentou e
fomenta de cultura em seus melhores representantes. Como é possível que
alguém saído do sertão ressequido possa reverberar, conscientemente, em
sua fala e obra autores como Bach, Stravinsky, Proust, Conrad, Stockhausen,
Guimarães Rosa, João Gilberto, Kafka, Schoenberg, Charles Ives, Max
Planck, Koellreutter, Jaa Torrano, Arnault Daniel, Ravel, Shelley,
Browning, etc. É um milagre. Milagres de Irará. A primeira e segunda parte do livro, que conta à
estória de sua lenta luta, é curta. Vai da página 13 a 77. Além da vivência
em Irará, a Universidade da Bahia. A semeadura e a fertilização das idéias.
A experiência num projeto quase utópico para os padrões brasileiros da
época: um país miserável e analfabeto monta um curso de música e
convida grandes mestres da Europa para dar aulas. O flautista e professor Koellreutter vem dirigir o
curso e chega como um Euclides da Cunha ao Sertão, descobrindo e
compreendendo generosamente o sertanejo. Uma experiência maravilhosa e
riquíssima pro menino que veio estudar em Salvador e passou em primeiro
lugar no vestibular. O rapaz estuda com afinco neste celeiro de
experimentação que se tornou a Universidade da Bahia na época do lendário
reitor Edgar Santos e todos agradecemos por isso. Suas músicas improváveis
são sínteses de toda esta experiência teórico-prático-existencial. A forma como conta, na parte II, como foi levado
para uma esquina longe da Tonalidade e seu romance com a Harmonia
Funcional é de uma brilhante felicidade. Um obstinato (me perdoem o
neologismo) em luta com a proprietária das tensões. Não era música não,
era sua própria vida que estava sendo traçada. O livro é acrescido de textos de Tom Zé feitos
para a imprensa e para ocasiões especiais. São textos curtos e
divertidos que vão desde Jorge Amado, passando por João Gilberto,
Torquato Neto, até ao presidente Lula. O livro também traz todas as letras do compositor,
sua discografia completa, biografia musical e uma entrevista muito
saborosa feita pelo editor e crítico de música Arthur Nestrovski e pelo
compositor e professor de Lingüística Luiz Tatit. A entrevista é a cereja no bolo. Tom Zé, que é um
contador de estórias maravilhoso, se põe à vontade diante de
interlocutores tão sensíveis a sua obra. Quando nasceu, um anjo torto disse: vai Zé! Ser gauche
na vida. Mas por favor, em algum momento ressuscite e dê o tom. Tom Zé é um forte, antes de tudo. Um sobrevivente
comprometido com o futuro. O passado já era. E como diz a canção: Farewell,
farewell, para o Irará irei.
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