Tragédia: Ambigüidade e Tensão entre Coro e Personagens

Denny Marquesani
IEC-II, 2002

Fragmentos:

“O que a tragédia mostra é uma dike em luta com outra dike, um direito que não está fixado, que se desloca e se transforma em seu contrário.”

Vernant. “O momento histórico da tragédia na Grécia”, p. 16

 

“É a língua do coro que, em suas partes cantadas, prolonga a tradição lírica de uma poesia que celebra as virtudes exemplares do herói dos tempos antigos. Na fala dos protagonistas do drama, a métrica das partes dialogadas está, ao contrário, próxima da prosa.”

Vernant. “Tensões e ambigüidades na tragédia grega” p. 26

 

Édipo — Que assim seja! No furor em que me encontro nada ocultarei do que entrevejo. Saibas portanto que, para mim, foste tu que tramaste o crime, foste tu que o cometeste – apenas não foi teu braço que golpeou. Mas, se tivesses olhos, eu diria que mesmo isso foste tu, somente tu o fizeste.

Tirésias — É mesmo? Então intimo-te, eu, a cumprir a ordem que tu mesmo proclamaste, de não mais falar deste dia em diante a quem quer que seja, nem a mim, nem a estas pessoas; pois fica sabendo que és tu, és tu o criminoso que mancha este país!

Édipo Rei, Ed. L&PM, p. 25

 

 

Comentário:

A tragédia surge num contexto em que a razão está se introduzindo na Grécia. Trata do choque entre a tradição mítica (religiosa) e o mundo racional. Neste contexto também encontramos o estabelecimento do direito, um sistema jurídico. É o começo da mudança da lei divina para um sistema jurídico humano. Mas, nessa época há a co-existênica dos dois sistemas. A dike estará remetida tanto à codificação humana (que é uma novidade) quanto à justiça divina. A tragédia é pura tensão entre essas duas instâncias. Entre o saber divino e o saber humano. Entre a justiça divina e a justiça humana. Entre esse modelo de conhecimento que vem da tradição oral mítica e o modelo novo que é o modelo do historiador, do filósofo, do sofista, o modelo da investigação humana.

A articulação desses dois elementos polares na tragédia não é casual. Porque eles estão nitidamente separados, mas ao mesmo tempo imbricados, até mesmo na disposição espacial da apresentação da peça. Os atores (heróis do mundo arcaico) atuam no palco, o coro (os anciãos mais sábios da cidade) na orquestra (uma espécie de tablado circular postado diante do palco). Esses dois espaços não são transpostos, nem os atores vão para a orquestra nem o coro para o palco.

O coro representa a novidade do mundo racional, o novo sistema jurídico, a filosofia, a sofística; e expressa através de julgamentos, qustionamentos, temores; os sentimentos, as esperanças, dos espectadores que representam a comunidade cívica. Os personagens (os heróis) representam o mundo mítico da verdade divina. O coro, quando se manifesta, dança e canta nos rítmos da lírica coral, que são os rítmos da tradição (forma típica do passado). Os heróis, quando se expressam, dialogam num ritmo bem mais novo que é o jambo (forma típica do presente). O divino e o humano estão tensionados e ambíguos tanto no coro como nos personagens.

No mundo homérico o homem não é propriamente um sujeito dono de suas ações porque são joguetes nas mãos dos deuses, acontece com eles o que os deuses determinam, a ação humana é fruto da determinação do destino mais a intervenção dos deuses. A vontade humana não existe no mundo homérico. Com a tragédia veremos o primeiro capítulo do surgimento dessa vontade humana, a noção de que o homem é dono de seu destino. As ações que ele faz são fruto de uma decisão singular dele, portanto deve se responsabilizar por elas. É o surgimento da psicologia da individualidade.

Na tragédia Édipo Rei, considerada o paradigma da tragédia, observamos claramente esses elementos. No trecho recortado, Édipo que até então agia racionalmente procurando conhecer a verdade através dos meios humanos, nesse momento, tomado de furor, como que em transe, diz que foi Tirésias que cometeu o crime (como que faz uma adivinhação). Paradoxalmente, Tirésias que é um adivinho, portanto ligado ao mundo mítico arcaico, diz que vai fazer uma intimação (elemento racional). Os dois como que trocam de papéis. O racional se torna “místico” enquanto o “místico” se torna racional. Mais uma vez a presença da tensão e a ambigüidade.