Uma carta interessante I

Um irmão entrando em crise
21 de abril de 1986

 

M______, 21 de abril de 1986

 

À SOCIEDADE TORRE DE VIGIA
Caixa Postal 92
18270 Tatuí SP

Prezados Irmãos,

Ainda me considero fiel às mesmas convicções de quando me batizei, à idade de dezoito anos, em 21 de outubro de 1972. Nessa época, agradava-me especialmente o pensamento de que servíamos como companheiros iguais, tendo como única lei a palavra de Deus e líder Jesus Cristo. Desde então, tenho-me empenhado em atingir a madureza cristã. Aprecio imensamente a orientação através das suas publicações, principalmente a linguagem cautelosa do livro Ajuda ao Entendimento da Bíblia. (Tiago 3:1,2) Entretanto, já tenho ficado perturbado com alguma coisa e não sinto a mesma liberdade de falar do tempo em que era apenas estudante da Bíblia. Certa ocasião, falei a um ancião que achava a Organização das Testemunhas de Jeová a menos errada, enquanto as organizações religiosas do mundo ficavam há uma distância muito grande atrás. O resultado foi que passei cerca de dois anos ou mais sendo tratado com estranha frieza. No momento, pensei em escrever ao irmão O__ C___________, que dirigiu estudo da Bíblia para mim e serve atualmente aí em Betel. Depois achei melhor não envolvê-lo e tratar diretamente com os irmãos responsáveis pelo ensino. Apenas para dar uma idéia da minha experiência, devo mencionar que servi duas vezes como pioneiro especial, fui ancião numa congregação local e, devido a algumas dificuldades domésticas, senti-me desqualificado e pedi exoneração do cargo. Atualmente, sirvo como servo ministerial na recém-formada Congregação L___, M______ — __.

Aceito o “escravo fiel e discreto” como homens experientes, sinceros e zelosos pela causa do amo Jesus Cristo, mas não são absolutamente isentos de engano. Achei soberba a apresentação da matéria “Raciocina Você Eficazmente à Base das Escrituras?” de A Sentinela  de 1º de março passado (1986), mas fiquei muito surpreso com o temo defensivo do artigo que consideramos no estudo de A Sentinela com o título “Não Seja Depressa Demovido de Sua Razão”. Admito que existam situações que exijam um tratamento de choque contra a apostasia e a iniciativa deliberada de disseminar a desunião e a dúvida. No início do Cristianismo, a ameaça mais comum de deturpação da verdade ou de apostasia era na forma de influência de costumes judaicos, do pensamento de que o Dia de Jeová  estava iminente, da negação do ensino da ressurreição e daqueles que iam ao extremo de negar o Pai e o Filho. Hoje, as divergências são mais complexas. Em muitos lugares, há um verdadeiro fogo cruzado de propaganda religiosa. Apesar da fonte duvidosa ser muito bem caracterizada em 1 Timóteo 6:3—5, eu, pessoalmente, me sentiria muito inseguro se descartasse, de modo radical, uma matéria supostamente apóstata. Na minha opinião, se tivermos sido edificados corretamente, tendo por alicerce Jesus Cristo (1 Coríntios 3:10—15), não precisamos temer necessariamente um confronto e a injunção bíblica de que “quem pensa estar de pé, acautele-se para que não caia” (1 Coríntios 10:12) se aplica especialmente aos que têm um conceito elevado de si mesmos. Vemos como a autojustificação é condenada por Jesus na sua ilustração em Lucas 18:9—14 e o apóstolo Paulo disse, em 1 Coríntios 4:4, que quem nos examina é Jeová. Além disso, se dizemos que o nosso ensino visa fazer das pessoas discípulos de Cristo e não discípulos de homens, escravos de Deus e não escravos de uma organização religiosa, não entendo o motivo dessa segregação compulsória ou sugestionamento para tornar os irmãos tão dependentes do “escravo fiel e discreto”. Nas religiões do mundo, a preservação de suas organizações tem sido tratada com mais preocupação do que a sua própria mensagem ou ensinamento. No nosso caso, se confiarmos no poder esclarecedor e unificador do espírito santo, associado à Palavra de Deus, e estivermos cônscios de que a qualidade importa mais do que a quantidade, o próprio Jeová nos preservará como povo puro e fiel.

Posso estar errado e ficaria muito agradecido em saber o porquê no espírito de Gálatas 6:1. Se a resposta for simplesmente uma censura, a minha reação poderá ser expressa pelas palavras do apóstolo Paulo em 1 Coríntios 4:3,4. Difícil seria admitir um cristão ser dirigido como marionete e não poder prestar “um serviço sagrado a Deus com a sua faculdade de raciocínio”. — Romanos 12:1.

Com Saudações Teocráticas,

A______ M______ __ O_______

 

Resposta da Sociedade à esta carta