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Você Sabe Formar seu Preço?
Roberto Adami
Tranjan Como um país sozinho não faz uma guerra, não é só o governo o culpado pela inflação É bem verdade que o déficit público existe porque o governo gasta mais do que deve. Como suas receitas são menores do que suas despesas, o governo cobre seu déficit emitindo papel-moeda. Com isso, passa a circular mais dinheiro no mercado sem a contrapartida da existência de mais produtos. Mais dinheiro significa mais demanda (procura) e menos produto significa menos oferta. Os preços, por conseqüência, sobem. E por causa disso sobram críticas ao governo a ao seu déficit público. Achar que a causa da inflação está no déficit público é, no mínimo, uma visão simplista. Acreditar que só o governo causa inflação é o mesmo que acreditar que uma nação sozinha consegue fazer uma guerra. A questão aqui é entender como as empresas estão participando de forma tão contundente do processo inflacionário e que lhes acaba causando um efeito perverso, uma vez que estas perdem muito com a inflação. O problema agrava-se quando as remarcações de preços somam no período de um mês as taxas exuberantes de 50%, 60% e até mais de 70%. Por que isso ocorre? A resposta parece simples demais, mas é a pura verdade: a maioria das empresas brasileiras não sabe formar preços de venda. Habituados a usar o mark-up (taxa de marcação), as empresas simplificam a tarefa de formar preços aplicando seu mark-up sobre o novo preço de sua principal matéria-prima (provavelmente quando foi aumentada pelo produtor, este utilizou-se do mesmo critério). O comprador da mercadoria, ao adquiri-la inflacionada, aplicará sobre a mesma também o seu mark-up e isso ocorre num processo em cadeia. Ora, se a matéria-prima principal aumentou em 60%, a aplicação do mark-up sobre ela resultará num produto cujo novo preço também aumentará em 60%. Isso leva à conclusão de que os custos da empresa aumentaram em 60%. Teria isso sido verdade? Claro que não. Cada empresa tem a sua taxa de inflação que não é igual ao IPC do governo, mas também não é igual ao aumento da sua principal matéria-prima. Muitas empresas que adotam a aplicação desse multiplicador mágico o fazem porque acreditam que agindo assim estariam resguardando a sua lucratividade, já que seu aumento de preços estaria nivelado pela matéria-prima de maior aumento no período. Esquecem, no entanto, que a rentabilidade é uma combinação da margem de lucro com o giro (volume de vendas). Com os preços mais elevados, o que normalmente ocorre num mercado de concorrência é a queda nas vendas, diminuindo, por conseguinte, a rentabilidade. Outras empresas assim procedem porque não possuem um sistema de informações interno que permita conhecer a sua real taxa de inflação. O crescimento ponderado de seus custos e despesas forma sua taxa de inflação própria que, como já dissemos, estaria entre o IPC medido pelo IBGE e a taxa de crescimento de preços de seus custos de materiais. Essa taxa de inflação da empresa é que determina a real perda de seu poder aquisitivo e que, portanto, deverá ser ressarcida através da formação dos seus preços de vendas. Qualquer índice adicional só conseguirá espantar o cliente e dar brechas para a penetração de empresas concorrentes ou permitir o aparecimento de produtos substitutos. As empresas que estabelecem seus preços de venda de forma empírica, sem qualquer técnica, correm o risco de perda da competitividade e de ficar à margem do seu mercado, além de contribuir negativamente com o quadro inflacionário pelo qual passa o País. A administração de custos e a formação de preços de venda são funções da maior importância na atual conjuntura. Devem ser tratadas, portanto, com a atenção que o momento exige. ––––––––––––––––––––––––
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